Houve um tempo em que a verdade era tímida. Aparecia pouco, falava baixo e, quando se manifestava, fazia isso com certo constrangimento. Quase pedindo licença para existir. Hoje, ao contrário, a verdade virou celebridade. Multiplicou-se em escala industrial e, como toda celebridade moderna, vive rodeada de assessores, seguidores e arautos dispostos a defendê-la com unhas, dentes e, se necessário, com caixa alta nas redes sociais.
Nunca se viu tantos donos da verdade. Eles brotam em todas as direções. Na religião, na política, na ideologia e até na fila do supermercado. Cada qual empunhando a sua versão da verdade como quem carrega uma tábua recém-descida do Monte Sinai. Embora, convenhamos, o Sinai contemporâneo seja mais parecido com um grupo de mensagens instantâneas.
Mas, afinal, o que é essa criatura tão disputada?
A epistemologia, essa senhora paciente que há séculos tenta ensinar a humanidade a pensar antes de gritar, oferece uma pista curiosa: a verdade possui duas faces. Há a verdade como ela é em si e a verdade como ela é em mim. Em outras palavras, existe aquilo que o mundo apresenta e aquilo que cada um de nós percebe. Entre uma coisa e outra existe um pequeno detalhe chamado mente humana. Essa fábrica inesgotável de interpretações.
Na prática, isso significa algo perturbador para os proprietários de certezas absolutas: a verdade, tal como a vivenciamos, é inevitavelmente personalizada. Cada indivíduo a enxerga através de suas experiências, crenças, medos, desejos e preconceitos. Não há como emitir um carimbo definitivo dizendo: “esta é a verdadeira das verdadeiras”.
Como se não bastasse, ainda existe o velho hábito humano de antropomorfizar tudo o que encontra pela frente. A mente adora projetar em fenômenos, ideias e conceitos, características que pertencem exclusivamente a nós mesmos. Atribuímos intenções à natureza, sentimentos aos deuses e, naturalmente, pureza absoluta às nossas próprias convicções. A verdade, nesse cenário, deixa de ser investigação e passa a ser espelho.
Há ainda um elemento especialmente inconveniente para os dogmáticos: o contexto. Aquilo que em determinada época foi proclamado como verdade indiscutível pode, alguns anos depois, parecer uma curiosidade constrangedora da história intelectual. Basta fazer um pequeno exercício de memória. Quantas convicções você defendia com ardor dez ou vinte anos atrás e hoje olha com certo embaraço? Quantas vezes você já se surpreendeu perguntando a si mesmo: como eu pude pensar daquele jeito?
A verdade, ao que tudo indica, não é uma estátua de mármore. É mais parecida com um organismo vivo: muda, cresce, envelhece e às vezes até se contradiz.
O problema não está em cada pessoa construir sua própria compreensão do mundo. Isso é inevitável e, em certa medida, saudável. O verdadeiro drama começa quando alguém decide que a sua versão particular da verdade deve se tornar lei universal. Que todas as demais merecem apenas desprezo, censura ou excomunhão.
Vivemos um tempo curioso em que o eu, se agigantou de forma quase despótica sobre o nós. Cada indivíduo reivindica o direito de definir suas próprias verdades. O que, em si, é perfeitamente compreensível. O paradoxo surge quando esse mesmo indivíduo se recusa a admitir que o vizinho possua o mesmo direito.
Conviver com essa realidade multifacetada talvez seja o grande desafio civilizatório do nosso tempo. Não se trata de abrir mão da própria visão de mundo, nem de diluir convicções num caldo ralo de relativismo complacente. Trata-se de algo mais difícil: reconhecer que a verdade do outro pode existir sem que a nossa precise desaparecer.
Colocar eu e nós no mesmo nível talvez seja o primeiro passo para alguma forma de convivência sensata. Preservar a individualidade sem esmagar a individualidade alheia. Eis uma tarefa que exige maturidade, algo cada vez mais raro numa época em que a opinião virou espetáculo.
Até lá, continuaremos assistindo a essa curiosa feira livre de certezas absolutas. Barracas por toda parte, vendedores exaltados e promoções irresistíveis.
A verdade, coitada, segue ali no meio da multidão. Tentando, discretamente, não chamar muita atenção.
___________________________
Grande Oriente do Paraná
Sereníssimo Grão-Mestre – Vladimir Pires Martins
G. Secretaria de Comunicação e Imprensa – Luís Fernando da Silva Dias




