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Educação

‘Adultização’ de crianças é tema sério que merece atenção dos pais

Marca de calçados foi condenada, no mês passado, por publicidade que estimula a erotização precoce de meninas

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O uso de maquiagem e sapatos de salto alto por crianças é um tema que gera muita polêmica na sociedade. Alguns pais restringem o uso de batons e roupas de adultos, por exemplo, outros já não veem problemas. Embora este comportamento possa parecer inofensivo, os problemas de deixar a infância de lado e se voltar ao mundo adulto pode trazer uma série de consequências. A “adultização” de crianças, termo já utilizado por especialistas na área de psicologia e educação infantil, cria um alerta aos pais e faz a sociedade repensar a infância.

EMPRESA É CONDENADA

Em janeiro deste ano, uma marca de calçados foi condenada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo por uma publicidade que estimulava a erotização precoce de meninas. A empresa foi autuada em 2010 pelo Procon e, desde então, foi alvo de embate jurídico. O Procon entendeu que as publicidades veiculadas são abusivas, uma vez que se aproveitam da deficiência de julgamento e experiência da criança.

“É certo que a campanha estimula uma erotização precoce, suscitando a ideia de necessidade de conquista/atração dos meninos, uma vez que, ao final do vídeo, as meninas passam por garotos que seguram cartazes contendo elogios à sua aparência física”, diz parte da decisão do processo.

A psicóloga Adriana Grosse esclareceu que as crianças não podem pular fases da infância sob o risco de afetar seu desenvolvimento

MUDANÇA NO COMPORTAMENTO

A psicóloga Adriana Grosse explicou que na década passada as crianças ocupavam um lugar diferenciado nas famílias, não participavam das conversas dos adultos e nunca podiam opinar. “Quase sempre estavam com outras crianças, tinham pouco convívio com os adultos e, quando tinham, sabiam o seu lugar de criança. Não era dado um espaço para elas argumentarem e nem ao menos mostrar seus desejos e vontades, reprimindo sua criatividade. Porém, hoje estamos ao extremo, no qual nossas crianças podem muito e são confundidas com ‘adultos mirins’. Antes não podiam nada e hoje podem quase tudo, pulando fases iniciais para o seu desenvolvimento psíquico”, disse a especialista.

Segundo a psicóloga, há uma influência da sociedade, da mídia e também do comportamento dos pais nessa situação.

“A adultização é quando a criança tem comportamento de adulto e não o de acordo com o esperado na sua faixa etária, deixando de fazer coisas de criança, falando igual adulto, algumas vezes se vestindo como pessoas maiores de idade e outras tendo que tomar decisões de adultos”, afirmou Adriana.

Se uma criança está tomando decisões pelos adultos, a atitude pode ser um sinal de imaturidade emocional dos pais. “Inconscientemente, a criança percebe e, com o intuito de dar equilíbrio ao sistema familiar, assume uma postura mais madura de forma a suprir a imaturidade de um dos pais”, explicou Adriana.

PAIS

De acordo com a psicóloga é importante que os pais se atentem a esses comportamentos dos filhos. Mas, também no seu próprio comportamento enquanto genitores.

“A mídia tem papel na adultização de nossas crianças, mostrando roupas no estilo adulto e, muitas vezes, os pais projetam nos filhos aquilo que não puderam ter, sem perceber que estão fazendo um protótipo deles em seus filhos, encobrindo suas carências pessoais”, alertou. 

HÁ UM LIMITE?

Para a psicóloga, os pais precisam prestar atenção nos excessos. Toda criança que tenha uma agenda lotada de atividades, que age como adulto e se veste como tal, merece atenção. “Criança tem que brincar. Pode brincar de usar roupas de adulto, passar maquiagem, com bonecas, casinhas, de profissão, mas tudo faz parte do seu desenvolvimento e estimula a sua criatividade. É como se ela estivesse ‘treinando’ para ser uma boa mãe, um bom profissional, mas isso no mundo infantil, na brincadeira”, esclareceu Adriana.

Na vida real, os pais devem auxiliar, explicando que somente quando elas crescerem poderão usar batons mais escuros, sapatos de salto, namorar e trabalhar.

“Todo esse mundo do adulto deve ser projetado na brincadeira. Está aí a importância dos pais para delimitarem que isso existe, mas quando saírem de casa eles são só crianças. Pode usar um batom escuro e salto na brincadeira? Pode. Mas, para sair de casa são crianças e devem se comportar como tal”, enfatizou a psicóloga.

 “A criança tem que ter tempo de ser criança. A mesma que cresce com a cobrança de um adulto acaba pulando a sua fase de brincar e ter espaço para a criatividade”, lembrou Adriana.

CONVÍVIO COM OUTRAS CRIANÇAS

Outra forma de “adultizar” as crianças é restringir o convívio com adultos, como avós e tios, limitando a interação com outras crianças na escola. “Alguns pais não levam os amiguinhos da escola para casa e, muitas vezes, não deixam os filhos irem até a casa de seus amigos. Isso também faz com que a criança cresça com um discurso de adulto. É importante manter um vínculo não só com os colegas da escola, para que ele se comporte como outras crianças”, salientou a psicóloga.

REFLEXOS NA VIDA ADULTA

As crianças que convivem somente com adultos têm seu desenvolvimento intelectual estimulado, embora o emocional não ocorra no mesmo ritmo. Desta forma, a psicóloga alerta que todo excesso resulta em um reflexo, seja ele físico ou emocional, entre eles ansiedade, irritabilidade, preocupação excessiva com o futuro, autocobrança, insônia entre outros. Esses sintomas podem aparecer ainda na infância ou na fase adulta. “Pode até pular uma fase na infância ou na adolescência, mas depois ela volta. Por isso vemos tantos adultos ou se cobrando demais ou regredindo para a infância ou adolescência”, concluiu a psicóloga.

Fotos: ilustração.

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