Há histórias tão absurdas que parecem ser apenas presentes em filmes e seriados policiais, no entanto um caso apurado pela 1.ª Subdivisão Policial (1.ª SDP) de Paranaguá da Polícia Civil do Paraná (PCPR) demonstrou que a realidade muitas vezes pode se tornar tão impressionante quanto a ficção. Na Vila Santa Maria, uma mulher, de 33 anos, foi mantida em cárcere privado pelo seu companheiro, um homem de 66 anos, por 10 anos, trancafiada dentro de sua própria casa.
A situação foi denunciada pela mãe da vítima na terça-feira, 2, e confirmada por vizinhos, que jamais haviam visto a mulher nas ruas da Vila Santa Maria e na própria área externa da casa por cerca de uma década. Imediatamente, a equipe da PCPR foi até o local e presenciou a vítima e o homem, que não queria receber os policiais, sendo necessário a entrada à força, constatando a mulher em estado de confusão mental, com falas desconexas e efetuando a prisão em flagrante do indivíduo pelo crime de cárcere privado qualificado.
Denúncia
“Na data de hoje (2 de setembro) pela manhã, a mãe da vítima compareceu aqui na Delegacia relatando a situação que a filha dela vinha sofrendo há mais de 10 anos. De acordo com ela (a mãe), ela vive com o companheiro dela há vários anos em uma residência e ela tinha fortes suspeitas que a filha dela estava sendo mantida em cárcere privado, por esse sujeito. Ela diz que vizinhos da casa onde o casal morava relataram que não viam a filha dela sair na rua, alguns vizinhos diziam que inclusive nunca tinham visto ela lá dentro, sendo que ela morava há vários anos com este sujeito”, afirma a delegada da 1.ª SDP de Paranaguá da Polícia Civil, Maluhá Soares.
A delegada destacou que enxergavam apenas o homem de 66 anos sair da residência do casal para trabalhar, mas jamais a vítima, algo que chamou a atenção da genitora da mulher de 36 anos. “A mãe informou que no início do relacionamento, há mais de 10 anos, ela ainda tinha contato com a filha, ela ia na residência do casal e era recebida, mas daí ela parou de ser recebida, tanto pelo convivente, quanto pela própria filha. Ela falou algumas vezes que ela chegou a ver a filha pela janela, mas a filha dizia que não queria receber ninguém, que não podia receber ninguém. A mãe ficou angustiada com essa situação e resolveu procurar as autoridades para averiguarmos e ver se de fato procedia esta informação de que a filha dela estava sendo mantida em cárcere privado”, salienta.
Primeiro contato com a vítima
Maluhá Soares afirma que com a denúncia realizada pela mãe, a equipe da 1.ª SDP de Paranaguá foi até a residência do casal na tarde da terça-feira, 2. “Chegando lá, o casal estava lá dentro, em um primeiro momento eles não queriam atender a porta, então nós tivemos que usar a força física para adentrar lá dentro. Chegando ao local, verificamos que a vítima e o convivente estavam presentes. A vítima apresentava muito estado de confusão mental, falava coisas desconexas, dizia que não podia sair de casa, ela relatou diversos receios pelos motivos de que ela não poderia sair da residência, falando coisas aparentemente muito sem sentido. Ela apresentava uma forte dependência pelo seu convivente, dizendo que só poderia sair de casa com ele, que ela era o provedor da casa e que ele que cuidava dela. Dava para ver que ela tinha uma dependência muito forte com este convivente”, destaca.
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Situação do casal e prisão do acusado

Segundo a delegada, o homem de 66 anos confirmou à PCPR que eles eram casados “no papel”, ou seja, constituíram matrimônio em cartório. “Diante da situação apresentada, nós conversamos com a vítima na hora, que informou que só poderia sair de casa com ele e demonstrou receio de sair sem ele, ela mesmo passou a acreditar nisso, isso que foi verificado conversando com ela com a vítima e com ele também, que passou a dizer que ela só saia de casa com ele quando saía, ela não trabalha, durante todos esses anos ela nunca trabalhou. Ela informou que só saía de casa com ele, mas os vizinhos relataram que nunca viram ela na vizinhança, nunca viram ela sair de casa”, destaca.
“Quando conseguimos convencer ela a sair de casa para comparecer na Delegacia, receber o atendimento e dar prosseguimento na situação, os vizinhos que estavam na porta demonstraram surpresa, dizendo que era a primeira vez que estavam vendo ela. Tudo isso corroborou para a gente efetuar a prisão em flagrante deste sujeito pelo crime cárcere privado, então foi feita a prisão em flagrante dele. Nós já encaminhamos a vítima para acompanhamento psicossocial junto ao CREAS e ela se encontra acolhida, junto com a mãe dela e com a família”, afirma Maluhá. Outro ponto que chamou a atenção no caso foi a diferença de idade entre a vítima, com 33 anos, e o convivente que foi preso em flagrante, com 66 anos.
Caso impressionante
A delegada da PCPR destacou que a situação verificada foi algo chocante. “O caso é algo que impressiona muito. É incabível a gente pensar que em pleno 2025 existem ainda essas situações em que a mulher é mantida em cárcere privado pelo próprio companheiro, que é a pessoa que deveria zelar por ela, deveria protegê-la e acolhê-la. Pelo que conversamos com a mãe dela, a vítima não era essa pessoa que tinha esse estado de confusão mental antes, ela ficou assim durante este tempo, provavelmente devido à privação de liberdade dela, algo que corroborou para ela ter este estado de confusão mental que ela possui hoje. É uma situação muito triste, mas que bom que nós conseguimos entrar lá, verificar esta situação e tirar esta mulher da situação de cárcere em que estava inserida”, salienta.
Crimes
“Ele (o convivente) ainda vai ser transferido para a Cadeia Pública, ainda teremos a audiência de custódia, mas até o momento (noite da terça-feira, 2) ele se encontra preso em flagrante pelo crime de cárcere privado qualificado pelo fato da vítima ser companheira dele”, detalha a delegada da Polícia Civil.
Importância da denúncia
Maluhá Soares reforça a importância de que os cidadãos denunciem qualquer caso de situação de cárcere privado, bem como violência contra a mulher. “Inclusive esse caso em específico foram os vizinhos que colaboraram mais ainda com a denúncia de cárcere privado, da situação que esta mulher estava vivenciando. É muito importante que não só familiares, mas vizinhos, amigos, familiares, pessoas próximas, que estejam vendo que a mulher se encontra sofrendo qualquer tipo de violência doméstica, é importante denunciar, procurar as autoridades, que a Polícia Civil vai fazer a sua parte e verificar a situação”, finaliza a delegada da PCPR.





