Opinião

Sérgio Moro o herói sem plateia

Entre a aura do “bom moço”, acusações do passado e investigações do presente, o ex-juiz da Lava Jato tenta sobreviver politicamente num terreno onde esquerda, direita e centrão parecem concordar em algo raro, isto é, a rejeição

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Sérgio Moro já foi símbolo. Hoje, é ruído. O ex-juiz que se projetou nacionalmente como paladino da moralidade pública circula, politicamente, com a pecha de traidor, rótulo que o acompanha desde a passagem pelo partido Podemos, o rompimento com o ex-presidente Jair Bolsonaro e, agora, as fissuras abertas no próprio campo conservador. Conseguiu a proeza de dividir União Brasil e PP ao forçar uma candidatura que, nos bastidores, muitos classificam como oportunista, mais afeita ao marketing pessoal e ao ego do que à construção política.

Ainda assim, Moro resiste nas pesquisas. Não por densidade programática ou alianças sólidas, mas pelo voto de imagem com a fotografia antiga do “bom moço” que enfrenta um nebuloso “sistema”. Um sistema, aliás, que deixou de ser abstração retórica para virar objeto concreto de investigação. Por determinação do ministro Dias Toffoli, a Polícia Federal recolheu arquivos referentes a 18 processos da 13ª Vara Federal de Curitiba, a mesma que ficou conhecida por conduzir a Operação Lava Jato. Os processos abrangem o período de 2005 a 2014. A ordem foi cumprida. Os autos saíram das gavetas.

No epicentro dessa turbulência reaparecem denúncias antigas com novo fôlego. Em 2023, o ex-deputado Tony Garcia tornou públicas acusações contra Moro, afirmando que teria sido obrigado, quando colaborador no caso Banestado, a realizar gravações ilegais de políticos, magistrados e autoridades inclusive governadores. No pedido de diligências, Toffoli determinou atenção especial à apreensão de uma “caixa amarela” de arquivos, onde, segundo Garcia, estariam essas gravações. Moro nega. Diz que tudo é mentira.

A defesa do senador afirma não ter tido acesso aos autos do inquérito e classifica o relato de Tony Garcia como “fantasioso”. Sustenta que não houve irregularidades no processo que condenou Garcia há quase 20 anos e cita manifestação do PGR para afirmar que não há competência do STF, já que não se investigaria ato praticado por Moro como senador ou ministro. Vai além, diz não temer o amplo acesso do Supremo aos processos em que atuou como juiz pois, segundo a defesa, isso apenas confirmaria a falsidade das acusações.

O problema de Moro, contudo, já não é apenas jurídico. É político. Em meio a investigações, narrativas cruzadas e lembranças incômodas, ele tenta se equilibrar entre esquerda, direita e centrão. O resultado é um malabarismo sem rede. A esquerda não o quer pelo legado da Lava Jato. A direita não o perdoa pela ruptura com Bolsonaro. O centrão não confia em quem nunca aprendeu a jogar coletivamente.

Sobra a Moro a imagem cada vez mais desbotada de um personagem que combateu o sistema até perceber que, na política real, não basta apontar o dedo. E quando o “sistema” deixa de ser inimigo abstrato e passa a investigar o próprio acusador, o discurso do herói solitário perde força. O juiz virou senador. O mito virou dúvida. E a plateia, aos poucos, está indo embora.


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