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Coronavírus

Neurologista da UFPR diz que perda de olfato e paladar pode permanecer após cura

Covid-19 pode afetar tanto o sistema nervoso central como o periférico (FOTO: Ilustrativa)

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36% dos pacientes infectados desenvolvem complicações neurológicas

Perda de olfato e de paladar se destacam entre os sintomas mais comuns da Covid-19, ocorrendo até com mais frequência que outras manifestações características da doença como tosse, febre e cansaço, e têm auxiliado no diagnóstico inicial de pessoas infectadas pelo Coronavírus. Esses sintomas são corriqueiros também em outros tipos de resfriado e gripe, porém sempre de forma transitória e reversível. O que tem se observado com relação à Covid-19 são relatos de perda de olfato e paladar sem retorno mesmo após o desaparecimento dos demais sintomas e da criação de anticorpos pelo organismo.

Esse é o caso de Viviane Flumignan Zétola, que está há quatro meses sem sentir gosto e cheiro de praticamente nada. Médica neurologista e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela descobriu que havia sido infectada pelo vírus logo no início da pandemia no Brasil, em 17 de março, e, após a perda súbita desses sentidos, passou a pesquisar mais sobre o assunto que está dentro de sua especialidade médica. Seu autorrelato foi publicado na revista internacional Crimson Publishers.

Viviane explica que a maioria das infecções respiratórias apresenta um neurotropismo, ou seja, um vírus que tem habilidade de infectar o sistema nervoso periférico, acometendo a parte respiratória. Por isso é comum a manifestação de anosmia (perda da capacidade do olfato) por um curto espaço de tempo coexistente com outros sintomas respiratórios como congestão nasal e coriza. “Com o Coronavírus, o desenvolvimento da anosmia é diferente, pois pode acontecer independentemente do comprometimento respiratório alto e da congestão nasal. No meu caso não tive nenhum desses sintomas, o que me diz que essa via de entrada para o sistema nervoso pode ocasionar um processo inflamatório comprometendo a via olfatória. Ainda estamos aprendendo de que maneira isso pode acontecer”, ressalta.

Estudos recentes revelam que cerca de 36% dos pacientes infectados pelo Coronavírus desenvolvem complicações neurológicas, das quais as mais comuns relativas ao sistema nervoso periférico são a disgeusia, isto é, a diminuição da capacidade de paladar (5,6%) e a hiposmia, ou baixa sensibilidade olfativa, (5,1%). 

Na experiência da neurologista, a perda de olfato e paladar aconteceu de forma súbita e total após o quarto dia do início dos demais sintomas, que de modo geral restringiram-se à febre e tosse. “Estava assistindo a um filme, minha filha fez pipoca e eu não senti nem o cheiro nem o gosto da pipoca. Foi aí que percebi o sintoma e então passei a me observar”. Após 20 dias do início da doença, ela notou um retorno leve na percepção do sabor, principalmente para alimentos condimentados, mas o olfato não melhorou. Depois de 30 dias sem melhora no olfato, Viviane realizou um teste de Sniffin Sticks, exame que submete o paciente a diferentes cheiros e produz um score de acertos e erros. O resultado foi compatível com hiposmia. 

Mesmo após a cura dos demais sintomas e a realização de diversos exames que demonstram uma boa resposta imunológica do organismo ao Coronavírus, Viviane ainda persiste com perda de paladar e olfato. “Apresento recuperação para alguns olfatos e paladares específicos, porém para outros posso dizer que é zero. Tenho dois cachorros e me balizo pelo fato de não sentir cheiro algum proveniente deles”, comenta. 

Covid-19 e sistema nervoso

O estudo que aponta cerca de 36% de pacientes apresentando complicações neurológicas decorrentes da Covid-19 revela que a maior parte dessas questões está relacionada ao comprometimento do sistema nervoso central, sendo mais frequentes as tonturas (16,8%) e dores de cabeça (13,1%). Segundo a publicação, os sintomas neurológicos são significativamente mais comuns em casos graves em comparação aos menos severos. “Esses pacientes também apresentavam alto nível de dímero D no sangue e menor número de linfócitos. Ambos foram implicados como tendo um papel potencial na fisiopatologia AVC em pacientes com Covid-19 e como mecanismo de possível imunossupressão”, comenta a neurologista. 

Fonte: UFPR