O assédio moral no ambiente de trabalho traz inúmeros impactos na saúde mental dos trabalhadores. Dados da Previdência Social mostram que, em 2025, foram concedidos mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais a trabalhadores, um crescimento de 15,66% em comparação a 2024. A maior parte dos benefícios foi concedida a mulheres (63,46%). Segundo o órgão, as duas doenças com maior quantidade de benefícios concedidos foram transtornos ansiosos e episódios depressivos, tanto em 2024 quanto em 2025.
Em entrevista à Folha do Litoral News, a analista judiciária do Poder Judiciário há 19 anos, Rubiane Kreuz, jornalista e advogada com ampla atuação no contexto jurídico e na comunicação, destaca que cobrar faz parte do trabalho, no entanto o problema está na forma como isso é feito. “Lideranças precisam cobrar prazos, resultados, corrigir erros e tomar decisões. Humilhar, constranger, ameaçar, ridicularizar, isolar ou usar o cargo para intimidar não é uma forma legítima de gestão. Eu costumo fazer uma pergunta simples: aquela cobrança poderia ter sido feita com respeito? Se poderia, por que foi necessário humilhar?”, ressalta.
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De acordo com ela, também é preciso aprender a identificar os conflitos antes que eles escalem. “Uma comunicação agressiva, truncada ou sem espaço para escuta pode deteriorar uma relação de trabalho. Por isso defendo tanto a comunicação humanizada como ferramenta de prevenção. É possível cobrar e alcançar resultados sem adoecer pessoas”, salienta a profissional.
Impactos na saúde mental do trabalhador e dados da Previdência Social
Rubiane explica que o trabalho é responsável pela ocupação da maior parte da vida do trabalhador, algo que está relacionado ao sustento, mas também à identidade, aos projetos, ao pertencimento e aos nossos sonhos. “Quando o ambiente de trabalho adoece, esse sofrimento não fica no escritório. Podem aparecer insônia, ansiedade, crises de choro, medo, dificuldade de concentração, irritabilidade, perda da autoestima e sintomas físicos. Em situações graves, o adoecimento pode levar a longos afastamentos”, explica.
Conforme a jurista, dados preliminares da Previdência Social mostram que, em 2025, foram concedidos mais de 546 mil benefícios por transtornos mentais e comportamentais, 15,66% a mais que em 2024. “Os números ajudam a dimensionar o problema. Isso não significa que todos tenham sido causados pelo trabalho, mas mostra a dimensão do adoecimento mental que estamos enfrentando. A Fundacentro também alerta para a subnotificação do nexo entre transtornos mentais e trabalho”, pontua.
Denúncia
De acordo com Rubiane, muitas vítimas têm dificuldade para reconhecer o assédio ou permanecem em silêncio porque denunciar pode ter consequências concretas na vida profissional. “Existe medo de perder função, prejudicar a carreira, sofrer retaliação, não ser acreditado ou não conseguir provar o que aconteceu”, disse.
Segundo pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), entre as pessoas que não denunciaram assédio ou discriminação no Poder Judiciário, 59% disseram que achavam que a denúncia não daria em nada e 59% apontaram medo de represálias. O medo de prejudicar a carreira apareceu para 42% e o medo de não conseguir provar, para 38%. “A pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra isso com muita clareza. Por isso gosto de inverter a pergunta. Em vez de perguntar somente ‘por que essa pessoa não denunciou?’, a organização também deveria se perguntar: ‘o que estamos fazendo para que as pessoas se sintam seguras para falar?’”, salienta.
“Canal interno de denúncia precisa funcionar de verdade. Precisa acolher, saber fazer escuta qualificada, orientar e proteger contra retaliações. Um canal que existe apenas no organograma não resolve o problema”, frisa.
Sinais de alerta
“O corpo costuma avisar. A pessoa começa a dormir mal, sente ansiedade antes de trabalhar, tem palpitação ao receber determinadas mensagens, perde concentração, chora com frequência ou chega ao domingo angustiada porque na segunda-feira terá de voltar ao trabalho. Mas a organização também dá sinais. Aumento de afastamentos, absenteísmo, presenteísmo, rotatividade, pedidos frequentes de mudança de setor, conflitos e denúncias concentradas em determinadas equipes são informações que precisam ser observadas”, explica Rubiane.
“É por isso que eu defendo indicadores. Um dirigente deveria conhecer o ambiente que administra. Quantas pessoas estão afastadas? Quantas denúncias chegaram? Em quais setores existem mais conflitos? As pessoas confiam nos canais internos? Sem diagnóstico, é muito difícil fazer prevenção”, ressalta.
O que fazer se está sendo vítima algum tipo de assédio
Se o trabalhador está sendo vítima de algum tipo de assédio, Rubiane ressalta que o profissional deve, primeiro, cuidar da saúde. No entanto, não precisa esperar chegar ao limite para procurar ajuda. “Também é importante organizar os fatos. Eu recomendo fazer um diário do assédio, registrando datas, horários, locais, pessoas presentes e o que aconteceu, além de guardar e-mails, mensagens e documentos. Esse conjunto organizado pode formar um dossiê e ajudar muito na hora de buscar orientação ou formalizar uma denúncia”, orienta.
“A pessoa pode procurar os canais internos da instituição, ouvidorias, comissões de prevenção ao assédio, gestão de pessoas, sindicato e orientação jurídica, conforme o caso. Mas faço uma ressalva importante: a vítima não precisa chegar a um canal de acolhimento com o processo pronto ou uma ‘prova perfeita’ para merecer ser ouvida. Ela precisa ser orientada sobre como documentar os fatos. A pessoa tem responsabilidade de relatar com seriedade; a organização tem responsabilidade de saber o que fazer quando ela fala”, afirma.
Rubiane afirmou que “eu gostaria que parássemos de tratar esse debate como uma disputa entre dois lados: trabalhador contra gestor, servidor contra administração, empregado contra empresa. As pessoas estão ali para trabalhar. Existe um propósito comum. Ninguém quer adoecer trabalhando. Prevenção também não pode ser uma palestra por ano, uma campanha de dois dias ou uma semana temática. É preciso formação continuada das lideranças, pesquisas, rodas de conversa, canais confiáveis, acompanhamento e indicadores durante todo o ano”, salientou. “A nova NR-1 reforça essa necessidade ao incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento dos riscos ocupacionais”, pontua.
“O mundo do trabalho mudou. Temos diferentes gerações trabalhando juntas, com formas diferentes de compreender autoridade, comunicação, carreira e qualidade de vida. Quem chega precisa aprender, e quem está há vinte ou trinta anos também precisa continuar aprendendo. Eu digo muito nas minhas palestras: gente feliz não assedia. É uma forma simples de defender uma ideia em que acredito: podemos produzir, alcançar metas e entregar excelentes resultados sem humilhar ou adoecer pessoas. No final, o princípio é muito simples: quem respeita não assedia”, conclui.
Sobre Rubiane Kreuz
Rubiane Kreuz é analista judiciária, do Poder Judiciário da União há 19 anos, e atualmente atua no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). É jornalista, bacharel em Direito e advogada licenciada da OAB Paraná. Mestranda em Direitos Humanos e Políticas Públicas pela PUCPR, desenvolve pesquisa sobre assédio moral no serviço público, saúde mental, gênero e direitos humanos.
É pós-graduada em Direito Público, Psicologia Positiva, Gestão de Pessoas e Saúde no Trabalho e possui formação em Felicidade Corporativa. Atua como pesquisadora, palestrante e formadora de empresas, instituições e organizações públicas e privadas, especialmente nas áreas de prevenção e enfrentamento ao assédio, comunicação humanizada, saúde mental no trabalho e liderança humanizada.
É fundadora e presidente do Coletivo Sobreviventes, rede nacional de acolhimento, informação e mobilização formada por mulheres que vivenciaram situações de violência e assédio no trabalho.
Em Paranaguá, participa semanalmente do programa Vida Feliz no Trabalho, na Rádio Difusora FM 104,7, onde aborda temas relacionados às relações de trabalho, saúde mental, prevenção ao assédio, comunicação e bem-estar nas organizações.
Para conhecer mais sobre seu trabalho e acompanhar seus conteúdos, basta acessar o Instagram: @rubianekreuz.





