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Crônicas

O calar e o falar

“Não quero falar sobre isso”. Diz a voz das pessoas que preferem jogar para debaixo do tapete o que não conseguem resolver em palavras e atitudes.

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“Não quero falar sobre isso”. Diz a voz das pessoas que preferem jogar para debaixo do tapete o que não conseguem resolver em palavras e atitudes.

Não querer falar é uma limitação que custa caro. Porque quando não se fala sobre o que incomoda, nada fica resolvido, nada se liquida, nada é acertado. Sobra um silêncio que fere, um silêncio que constrange, um silêncio que machuca e golpeia. Esse silêncio invade a casa, espalha-se pelos cômodos, divide a cama e faz morada por toda a vida.

Falar é terapêutico, é cura. Ao liberar as palavras, a gente vai se livrando do que nos pesa e os fantasmas ganham forma e nome.

Calar é mais fácil do que falar. Calar não demanda esforço, empenho, energia, impulso, vigor. Calar é um simples selar dos lábios. É não permitir nenhum murmúrio, nem ruído. Calar é fechar-se em si mesmo. É não permitir nenhum tipo de avanço. Calar é empurrar as decisões para o tempo. O tempo que resolva, que organize as coisas, que dê um jeito. Isso nada mais é do que transferir a responsabilidade daquilo que não sabemos lidar e que, de alguma forma, achamos que não daremos conta.

Falar envolve coragem, afinco. Convida ao diálogo, exige junção de frases, argumentos. O cérebro trabalha, o corpo se move, as mãos gesticulam e os olhos procuram o interlocutor para o entendimento.

Calar é cômodo. Falar é tentativa de acerto.

Quem cala não faz enfrentamentos, não colide, não esbarra, não se indispõe, não abalroa. Em compensação, tudo se acumula pelo lado de dentro. O emaranhado de pendências cresce, tudo se amontoa em pouco espaço, tudo se desorganiza, entope, aglomera. 

Falar é vida. Silêncio é morte.

O calar é o jeito mais prático de promover desajustes, é quando se deixa ao sabor dos ventos as interpretações que, na maioria das vezes, são errôneas. Mas como corrigi-las se não há entusiasmo para isso?

O ato de falar mostra vontade em querer resolver um mal-entendido, em acertar o que não ficou claro, é uma resposta precisa de que ainda vale a pena tentar e prosseguir.

Quando não são bem usadas, as palavras podem ferir, machucar. Eu sei. Mas também seduzem, promovem conciliações, liberam sorrisos, afastam a dor e a tristeza, provocam mudanças.

Quem cala deve se sentir mais oprimido, sofrer mais, porque os gritos nunca escapam pela garganta, nunca ganham ventilação, não conhecem o lado de fora, são privados da liberdade.

Falar é catarse, é expurgar, é limpeza, é faxina interior, é liberar espaço para o novo.

Sabe-se que nem tudo precisa ser verbalizado, há de se ter algum recolhimento. Discrição é qualidade para poucos. Mas encontrar alguém com disposição para dizer “Vem cá, vamos conversar?” é, no mínimo, encantador.

Ao contrário do que muitos pensam, nunca será perda de tempo usar as palavras para resolver questões. Já, emudecer caracteriza a falta de manejo com elas, ou pior, a falta em saber lidar com as intempéries da vida.

 

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