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Crônicas

A produção

Anel, pulseira e brincos. Acessórios delicados, em nada chamavam mais atenção do que ela. Por último, a bolsa e a chave do carro.

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Colocou-se em frente ao espelho e abriu a nécessaire contendo os produtos de maquiagem. Espalhou-os cuidadosamente sobre a bancada da pia.

Excepcionalmente hoje, a produção seria especial.

Trazia uma pele firme, com alguns sinais do tempo, mas nada que descaracterizasse a sua beleza. O protetor solar foi espalhado com o devido cuidado. Ele era um aliado inseparável.

Usou o primer, um corretivo e, em seguida, a base. Batidinhas leves com o uso do pincel iam escondendo as indesejadas manchinhas e sardas. Pele de veludo no espelho.

Os olhos mereceriam um tempo maior. Escolheu três tonalidades de sombra. Foi depositando as diferentes cores, esfumando-as. O pincel deslizava suave sobre as pálpebras e as janelas da alma iam ganhando luminosidade. O delineador, considerado por ela como a pior parte, foi colocado com mão firme. Máscara de cílios, passada uma, duas, três vezes. A repetição do processo deixava os pelos volumosos. Truque que funcionava.

Usou nas sobrancelhas um lápis marrom para encobrir algumas falhas.

Aprendeu em tutoriais, disponibilizados no YouTube, que o blush deve vir antes do pó compacto. Mais um truquezinho. A tática fazia com que a maquiagem durasse mais tempo. Ela seguiu à risca, lógico, por gostar de colecionar essas dicas preciosas.

Prendeu os cabelos negros num coque desajeitado. Os fios mais rebeldes não permitiram a prisão, soltaram-se e, uma vez livres, caíram de um jeito displicente sobre a nuca. Deixando-a com uma sensualidade leve e natural.

A saia lápis desenhava o corpo e ressaltava as curvas. A camisa branca, propositalmente, não teve todos os botões fechados. A fenda sutil dava sinais dos seios acomodados numa lingerie rendada. Depois, ela ganhou centímetros a mais subindo num scarpin de salto.

Anel, pulseira e brincos. Acessórios delicados, em nada chamavam mais atenção do que ela. Por último, a bolsa e a chave do carro.

Conferiu a produção num espelho que mostrava sua imagem de corpo inteiro. Olhou-se de frente, girou para observar o verso na tradicional virada. Ficou satisfeita com o resultado.

Caminhou com passos firmes e seguiu para o trabalho.

É possível que tudo isso tenha dado conta de disfarçar as dores emocionais que a golpeavam. Que os olhos dos outros possam enxergar o superficial, aquilo que, de caso pensado, fora escolhido detalhadamente para que ninguém ouse invadir a sua intimidade.

Olhando assim, ela exalava segurança, firmeza, beleza. Substantivos que ocultavam o real estado, a tristeza que não permitia mostrar, mas que deixava fluir quando não havia plateia nem testemunha para visualizar a sua desconstrução. Sozinha ela era ela mesma, sem truques nem maquiagem, com a alma desnuda, cicatrizes expostas, sentimentos desgovernados e a vida buscando um equilíbrio.

Existem dias que produções são puramente montagens fáceis de caírem ao chão, principalmente se encontrarmos, no meio do caminho, alguém com capacidade de ultrapassar esse escudo providencial e que saiba nos olhar atentamente por dentro.

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