Por Fonseca.R
O calendário, nessa sua impertinente sabedoria, reservou o dia primeiro de abril para a mentira. Uma data. Vinte e quatro horas. Como se a mentira precisasse de agendamento, de protocolo, de hora marcada. Como se ela não acordasse conosco todos os dias, tomasse o mesmo café, lesse os mesmos jornais, assistisse aos mesmos noticiários e fosse dormir satisfeita, bem alimentada, no travesseiro ao nosso lado.
A verdade, essa senhora esquecida, meio encurvada, que ninguém mais reconhece na rua, merecia, essa sim, uma data no calendário. Mas a verdade não tem lobby, não financia campanha, não compra espaço em horário nobre. A mentira, essa, tem assessoria de imprensa, tem algoritmo, tem general e tem bispo. Está bem-assessorada.
Nunca, em nenhum momento da história registrada pelos homens, mentiu-se com tanta desenvoltura, com tanto requinte técnico e com tão pouca vergonha. A mentira contemporânea não se envergonha de si mesma, ao contrário, ela se orgulha, ela se produz, ela se vende como verdade premium, com embalagem sofisticada e certificado de autenticidade. É a mentira que se apresenta como “narrativa alternativa”, como “ponto de vista legítimo”, como “questionamento saudável”. Deram-lhe eufemismos respeitáveis para que ela pudesse circular nos melhores ambientes sem constrangimento.
E circula. Na televisão que deveria informar e prefere hipnotizar. Nos palanques onde a desfaçatez virou virtude política. Nos púlpitos onde a fé foi terceirizada ao espetáculo. Nos relacionamentos onde o silêncio conveniente substituiu a palavra honesta. A mentira está em toda parte, e a parte mais assustadora dessa constatação não é a mentira em si. É a recepção que ela encontra.
Porque o que mais perturba não é o mentiroso. O mentiroso é uma figura antiga, conhecida, quase folclórica. O que perturba é o mentido. Esse ser pacífico, satisfeito, que recebe a mentira como se recebe uma boa notícia, que a digere sem desconforto e que, eventualmente, a reproduz com entusiasmo. É o gado que caminha para o abate sem empurrar, sem berrar, sem sequer estranhar o caminho. Caminha. E chega.
Mas existe uma categoria ainda mais inquietante, que nem o bestiário da política nem o catálogo da picaretagem convencional contemplam com justiça: o sujeito que mente para si mesmo. Aquele que fabrica sua própria versão dos fatos, instala-a no lugar da realidade e, de tanto repeti-la no espelho, acaba por acreditar nela com a convicção sincera de um santo. Não é mais o mentiroso clássico, que sabe o que faz e calcula o efeito. É algo mais grave, É o mentiroso que perdeu o fio de volta para a verdade. O político que genuinamente acredita que governa para o povo. O pregador que jura, com lágrimas nos olhos, que Deus lhe falou pessoalmente sobre o dízimo. O medíocre que se convenceu de que o mundo é injusto com ele especificamente. A mentira, nesse estágio, deixa de ser estratégia e vira identidade. E identidade, como se sabe, é muito mais difícil de desarmar do que uma simples inverdade.
Saramago, que enxergava o mundo com aquela clareza inclemente de quem não teme desagradar, sentenciou com precisão cirúrgica: vivemos no tempo da mentira universal O Nobel não estava sendo pessimista. Estava sendo rigorosamente pontual. Estava descrevendo, sem metáfora, a paisagem moral do nosso tempo.
Mas é aqui reside o único argumento que impede o cronista de encerrar este texto e ir embora de mãos abanando: a mentira nunca venceu a verdade por mérito próprio. Ela venceu por ausência de oposição. Venceu porque nós, com nossa preguiça cívica, nossa covardia confortável, nossa incapacidade crescente de sustentar o incômodo da realidade, simplesmente abrimos passagem. Cedemos o espaço. Entregamos o microfone.
Porém, o que se entrega, pode-se retomar. A verdade não morreu. Apenas foi deposta. Há diferença: Deposta pode voltar, morta, não. E ela não morreu porque a mentira não tem essa força toda: ela tem apenas a força que nós lhe damos. O dia em que cada um de nós se recusar a passar adiante uma mentira, a aplaudir uma falácia, a rir de uma piada que humilha, a votar em quem sabemos que mente, nesse dia, o primeiro de abril perde a graça, e vira apenas mais uma segunda-feira.
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Grande Oriente do Paraná
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