Sob a Ótica Maçônica

“Quando o diálogo é impossível”

Por Fonseca.R

grande oriente parana

Há verdades que aprendemos tarde demais na vida, quando já perdemos tempo precioso tentando converter pedras em pão, ou pior, tentando fazer um fanático enxergar além de sua visão tubular. É como querer ensinar um cego de nascença a distinguir cores.Não por crueldade, mas por uma impossibilidade que transcende a boa vontade.

O fanático vive numa redoma de cristal, dessas que protegem santos de procissão. Só que, ao contrário do santo, que permanece imóvel e sereno, o fanático se agita dentro de sua proteção transparente, gesticulando para um mundo que ele vê distorcido, como através de um prisma que decompõe a luz branca da realidade em apenas uma cor: a sua.

Conheci muitos ao longo dos anos. Alguns vestiam batinas, outros fardas, alguns usavam gravatas. Todos tinham em comum aquela expressão vidrada de quem encontrou a verdade absoluta e não precisa mais procurar. É uma expressão terrível, porque representa a morte da dúvida, que é o que nos mantém vivos intelectualmente.

Carl Sagan, que sabia das coisas, disse, uma vez, que não é possível convencer um fanático de coisa alguma. Não porque seja burro.  Muitos são inteligentíssimos. Mas porque suas crenças não se alimentam de evidências. Nutrem-se de uma fome mais primitiva, mais visceral: a necessidade desesperada de acreditar em algo que dê sentido à própria insignificância.

O fanático não discute, declama. Não conversa, prega. Não ouve, apenas espera sua vez de falar. E quando fala, repete mantras decorados, fórmulas prontas que aprendeu de cor e salteado. É como um papagaio que trocou as frutas pela doutrina.

Há anos tentei argumentar com alguns deles. Preparava-me reunindo provas, organizando silogismos, construindo pontes de lógica. Pura ilusão. O fanático não atravessa pontes; prefere queimá-las. Para ele, qualquer argumento contrário não é um convite ao diálogo, mas uma declaração de guerra.

O mais perturbador no fanatismo não é a cegueira, mas a disposição para a autodestruição. O fanático é capaz de se anular completamente em nome de sua causa, como aqueles terroristas que se explodem em praças públicas, levando consigo pedaços de gente inocente. É uma forma perversa de suicídio que arrastra outros para a morte.

Porque o fanático perdeu algo fundamental: o senso moral individual. Terceirizou sua consciência para o líder, para o partido, para a causa. Tornou-se um robô biológico programado para obedecer. E obedece com o zelo do convertido, com a dedicação do escravo que se apaixonou pelas correntes.

Não adianta mostrar-lhe os erros do líder. Ele os transformará em virtudes. Não adianta apontar as contradições da doutrina. Ele as explicará com malabarismos retóricos. Não adianta apelar para sua humanidade. Ele a sacrificou no altar da causa.

O tempo que gastamos tentando convencer um fanático é tempo roubado daqueles que ainda duvidam, que ainda fazem perguntas, que ainda são capazes de mudar de opinião. Esses, sim, merecem nossos argumentos, nossa paciência, nosso afeto intelectual.

O fanático já morreu por dentro. Continua respirando, andando falando, mas sua alma se fossilizou. É um fóssil ambulante, um dinossauro ideológico que não percebeu que o meteoro da razão já caiu sobre a Terra.

Portanto, não se esforce. Reserve suas energias para batalhas que podem ser vencidas, para mentes que ainda pulsam, para corações que ainda duvidam. O fanático ficará sempre ali, na sua redoma, gesticulando para as paredes, pregando para convertidos, morrendo um pouco a cada dia sem perceber que já está morto.

É uma lição dura, mas necessária: há pessoas que escolheram viver no escuro. E não cabe a nós acender velas para quem fechou os olhos.

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Grande Oriente do Paraná

Sereníssimo Grão Mestre – Vladimir Pires Martins

G. Secretaria de Comunicação e Imprensa – Luís Fernando da Silva Dias


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