Sob a Ótica Maçônica

O ser humano é o único bicho que sabe o certo, faz o errado e ainda se justifica

Por Fonseca.R

grande oriente parana

A vida, meu caro leitor, é uma sucessão interminável de encruzilhadas onde três palavrinhas vivem brigando dentro da nossa cabeça: Posso, Devo e Quero. Elas não se entendem, não se falam direito, e cada uma puxa o tapete da outra com a elegância de um político em época de eleição.
O resultado é esse caos civilizado que chamamos de “tomar decisões”.

Comecemos pelo caso mais comum: Posso, devo, mas não quero.
É o drama do cidadão correto, mas preguiçoso. Ele sabe o que deve ser feito, tem os meios para fazê-lo, mas prefere o sofá. É o sujeito que pode pagar as contas, deve ir ao banco, mas não quer enfrentar a fila.
E o país, veja só, sobrevive graças a essa multidão de gente que sabe o que fazer, mas não faz, e ainda reclama de quem faz.

Depois vem o mais humano dos dilemas: Posso, quero, mas não devo.
Aqui mora o pecado, a tentação, o doce gosto do proibido. É a sobremesa depois da dieta, o flerte fora de hora, o comentário que não devia ser dito, mas que escapa com prazer.
Ninguém resiste por muito tempo ao trio “posso e quero”, mesmo que o “não devo” grite lá do fundo da consciência, como um alarme que a gente finge não ouvir.

Há também o trágico: Quero, posso, mas não devo.
Parecido com o anterior, mas com mais culpa e menos emoção. É o caso do sujeito que quer ser sincero, pode dizer a verdade, mas não deve  porque a sociedade adora a hipocrisia bem passada.
Dizer o que se pensa, hoje, é quase um ato de terrorismo moral.

Segue o próximo impasse: Quero, devo, mas não posso.
Esse é o hino dos impotentes. Do trabalhador que quer melhorar, deve lutar, mas o sistema, as circunstâncias e os boletos não deixam.
É o “querer com alma e não poder com o bolso”.
A humanidade avança impulsionada por esses heróis frustrados que sonham alto e alcançam o teto.

E quando surge o Devo, posso, mas não quero, entramos no campo da omissão elegante.
O sujeito tem consciência, tem meios, mas falta-lhe vontade.
É o político que pode mudar o país, deve servir ao povo, mas não quer abrir mão do gabinete refrigerado.
É o empresário que pode ser justo, deve ser humano, mas não quer diminuir o lucro.
A humanidade patina no “não quero”, essa recusa sutil que impede o mundo de melhorar.

Temos ainda o Devo, quero, mas não posso.
Um drama digno de tragédia grega: a ética sem poder.
O homem que quer fazer o certo, sabe que deve, mas está amarrado por leis, hierarquias ou medos.
É o funcionário que quer denunciar, mas não pode.
É o pai que quer proteger o filho do mundo, mas o mundo já está dentro do celular do filho.

E, por fim, o mais honesto dos estados: Não posso, não devo e não quero.
A santíssima trindade da desistência.
É o nirvana dos conformados, o ponto de repouso onde a alma se deita e diz: “Deixa como está, que está ruim, mas está conhecido.”

No fundo, administrar o Posso, o Devo e o Quero é a mais sutil das artes.
Requer sabedoria, um pouco de cinismo e, principalmente, senso de humor.
Porque viver é tentar equilibrar essas três forças sem cair no ridículo — o que, convenhamos, é quase impossível.

Millôr Fernandes, se estivesse por aqui, talvez dissesse:

“O homem é o único animal capaz de saber o que deve; poder o que não deve e querer o que não pode. E ainda se achar racional. ”

E é isso que nos salva: a capacidade de rir da própria incoerência.
Afinal, entre o posso, o devo e o quero… o que a gente faz mesmo é o que dá.

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Grande Oriente do Paraná

Sereníssimo Grão Mestre – Vladimir Pires Martins

G. Secretaria de Comunicação e Imprensa – Luís Fernando da Silva Dias


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