Há poucos dias, caminhando por uma rua qualquer desta cidade que não para de correr, deparei-me com um velho relojoeiro. Suas mãos tremulavam sobre os ponteiros de um relógio antigo, pensei: ali estava alguém que conhecia intimamente o valor do tempo. Não apenas o tempo mecânico, mensurável, mas aquele outro tempo: o nosso, o humano, o que escorre entre os dedos como areia fina.
O tempo sempre foi, hoje é e amanhã será o bem mais valioso que possuímos. Não há banco que o empreste, não há moeda que o compre, não há poder que o dobre aos nossos caprichos. É democrático em sua crueldade: dá a todos exatamente a mesma medida. Vinte e quatro horas diárias, nem mais, nem menos. A diferença está no que fazemos com essa porção diária de eternidade.
Quando perdemos tempo, e todos perdemos, faz parte da condição humana, ele se vai para sempre. Não há como recuperá-lo, por mais que nos desesperemos. O máximo que conseguimos é tentar compensar esse tempo perdido, correndo atrás do prejuízo como quem tenta alcançar um trem que já partiu. Quantas vezes não ouvimos, ou nós mesmos não dissemos: “Quando tive tempo de fazer. Não fiz. Agora já não tenho mais tempo”? É uma das frases mais melancólicas da língua portuguesa.
Administrar o tempo é uma arte sutil que poucos dominam. Não se trata de acelerá-lo quando estamos atrasados ou retardá-lo quando queremos que um momento dure mais. O tempo tem seu próprio ritmo, sua cadência imutável. Nossa sabedoria está em identificar o “tempo certo” para cada coisa. Como dizia minha avó, que nunca leu filosofia mas entendia da vida: “Tudo tem sua hora, menino.”
Na vida, realmente, tudo tem seu tempo específico. Há tempo de aprender, quando somos como esponjas sedentas de conhecimento. Há tempo de construir, quando colocamos em prática o que aprendemos, erguendo nossa existência tijolo por tijolo. Vem depois o tempo de ensinar, quando compartilhamos nossa experiência com quem ainda está nos primeiros degraus. E há, enfim, o tempo de desfrutar, quando podemos sentar na varanda da vida e contemplar a paisagem que construímos.
O drama de muitos de nós é não reconhecer em qual tempo estamos vivendo. Queremos desfrutar quando ainda deveríamos estar aprendendo. Tentamos ensinar quando ainda precisamos construir. É como querer colher frutas de uma árvore que acabamos de plantar.
Tudo tem seu tempo certo, seu momento preciso de acontecer. Se não formos capazes de identificar esse tempo, se não desenvolvermos essa sensibilidade quase animal para o ritmo da existência, dificilmente chegaremos a algum lugar que valha a pena. Ficaremos sempre correndo atrás, sempre atrasados para nossa própria vida.
O velho relojoeiro, quando passei por ele novamente, havia terminado seu trabalho. O relógio funcionava perfeitamente. Ele me olhou e sorriu, como se conhecesse meus pensamentos. Talvez conhecesse mesmo. Quem trabalha com o tempo aprende seus segredos mais íntimos.
No final, o tempo não é nosso inimigo. É apenas indiferente. Cabe a nós fazer as pazes com ele, entender seu ritmo, respeitar suas estações. Porque, no fundo, não se trata de ter mais tempo, mas de viver melhor o tempo que temos.
Grande Oriente do Paraná
Sereníssimo Grão-Mestre Vladimir Pires Martins
Grande Secretaria de Comunicação e Imprensa: Luís Fernando da Silva Dias
Acompanhe nossas mídias:
Site do GOP: https://gop.org.br/
Instagram: @grandeorientedoparana




