Sob a Ótica Maçônica

Anatomia de uma Obsessão

Por Fonseca.R Ontem, na fila do banco, observei um homem de meia-idade checando obsessivamente o saldo no celular. A cada atualização da tela, uma micro expressão de angústia lhe contraía ...

grande oriente parana

Por Fonseca.R

Ontem, na fila do banco, observei um homem de meia-idade checando obsessivamente o saldo no celular. A cada atualização da tela, uma micro expressão de angústia lhe contraía o rosto. Pensei no Pessoa e em sua travessia, naquele tempo suspenso entre o que fomos e o que seremos. Mas este homem não estava atravessando coisa alguma. Estava apenas contando, somando, multiplicando sua existência em números que dançavam numa tela de cinco polegadas.

E agora, José? A pergunta do poeta mineiro ecoa com uma atualidade cruel nestes tempos em que transformamos tudo em commodity, inclusive a nós mesmos. José não sabia para onde ir, mas pelo menos sabia quem era. O homem do banco, este contemporâneo nosso, sabe exatamente onde quer chegar. Quer chegar ao próximo dígito, à próxima conquista material, mas perdeu completamente a noção de quem é.

Vivemos a era do ter obsessivo, do acumular compulsivo, do descartar sistemático. Trocamos o definitivo pelo temporário com a mesma facilidade com que trocamos de smartphone. O que antes era sólido: valores, relações, identidade, derreteu no ar condicionado dos shopping centers e nas telas infinitas das redes sociais. Somos uma civilização de nômades materiais, carregando bagagens cada vez mais pesadas em almas cada vez mais leves.

O paradoxo é devastador: quanto mais temos, menos somos. Quanto mais possuímos, mais possuídos ficamos. As coisas que compramos para nos definir acabam nos indefinindo. Aquele carro que deveria expressar nossa personalidade vira apenas mais um item na lista interminável de prestações. A casa que seria nosso refúgio torna-se prisão dourada onde guardamos objetos que nem lembramos mais por que compramos.

Fernando Pessoa falava de um tempo de travessia, um momento suspenso entre identidades. Nós, diferentemente, não atravessamos coisa alguma. Apenas consumimos a travessia. Transformamos o movimento em mercadoria, a busca em produto, a inquietação em aplicativo. Até mesmo nossa angústia existencial virou nicho de mercado.

Drummond perguntava “E agora, José?”, e a pergunta permanecia sem resposta, o que era justamente sua beleza e sua força. José ficava ali, suspenso na incerteza, mas inteiro em sua humanidade. Nosso José contemporâneo não suporta a pergunta sem resposta. Quer solução imediata, produto que cure, aplicativo que oriente, guru que tranquilize. Prefere a ilusão da certeza comprada à verdade da incerteza vivida.

A inversão é completa: transformamos o ser em ter e o ter em ser. Somos o que possuímos, valemos o que acumulamos, existimos na medida em que consumimos. Nossa identidade virou cartão de crédito, nossa alma virou extrato bancário, nosso amor virou lista de presentes.

E assim caminhamos por este mundo de coisas, carregando sacolas repletas de objetos vazios, alimentando uma fome que nunca se sacia porque confundimos sede de sentido com sede de posse. Esquecemos que as coisas passam, mas que passamos também, e que na hora da grande travessia final, essa sim definitiva, não levaremos coisa alguma, apenas o que fomos.

Talvez seja hora de reaprender a pergunta do Drummond, de abraçar a incerteza do Pessoa, de aceitar que a travessia não se compra em prestações. Que o tempo não é dinheiro, mas vida. Que ter muito pode significar ser muito pouco. Que no fim das contas, José continua lá, inteiro em sua humanidade espantada, nos ensinando que as grandes perguntas não têm resposta.E que essa é justamente sua grandeza.

O homem do banco saiu, celular na mão, rosto ainda contraído. Continuará somando até que a vida lhe subtraia tudo. Mas talvez ainda haja tempo para que descubra: o que verdadeiramente somos não cabe em conta corrente alguma. 

___________________________

Grande Oriente do Paraná

Sereníssimo Grão-Mestre – Vladimir Pires Martins

G. Secretaria de Comunicação e Imprensa – Luís Fernando da Silva Dias


Fique bem informado!
Siga a Folha do Litoral News no Google Notícias.

Você também poderá gostar