Muito antes de movimentar fortunas, alimentar engenhos e se tornar uma das grandes riquezas do Paraná, a erva-mate já estava por aqui. Crescia nas matas, fazia parte dos costumes e passava de mão em mão, de geração em geração. Era bebida, companhia e tradição muito antes de virar negócio.
Foi nesse cenário que, em 1820, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire percorreu as terras que hoje formam o Paraná. Como todo bom viajante, não se limitava a observar a paisagem. Queria conhecer as plantas, os animais e, principalmente, a maneira de viver das pessoas que encontrava pelo caminho.
E foi assim que conheceu a erva-mate.
Ao cair da noite, cansado de mais um dia de viagem, Saint-Hilaire procurou pousada em uma propriedade rural. Foi recebido pelos moradores e, como parte da hospitalidade da casa, ofereceram-lhe uma cuia de mate.
Para aquele francês, tudo era novidade: a cuia, a bombilha e, certamente, a maneira peculiar de beber aquela infusão. Orientado sobre como deveria proceder, experimentou o mate. Gostou. Mais do que isso, percebeu que a bebida parecia devolver parte das energias consumidas pela longa jornada.
A curiosidade de naturalista logo falou mais alto. Que planta era aquela? De onde vinha? Como era preparada?
Pouco tempo depois, nas proximidades de Curitiba, algumas dessas perguntas começaram a ser respondidas. Na região de Borda do Campo, em uma antiga propriedade relacionada aos jesuítas, Saint-Hilaire finalmente viu a árvore da erva-mate e conheceu formas ainda bastante simples de seu beneficiamento.
Talvez estivesse diante apenas de mais uma planta entre tantas que catalogaria em suas viagens. Mas aquela lhe despertou especial interesse.
Saint-Hilaire estudou a espécie, comparou exemplares e levou suas observações para os círculos científicos europeus. Percebeu também que a erva encontrada nas proximidades de Curitiba correspondia à mesma espécie existente no Paraguai, contrariando a ideia de que fossem plantas diferentes.
Até o nome científico seria motivo de discussão. Prevaleceu Ilex paraguariensis, embora alguns estudiosos tenham defendido outras denominações, como Ilex brasiliensis. Mais importante que a disputa em torno do nome, porém, é perceber como a erva-mate já estava profundamente enraizada nestas terras.
Nas décadas seguintes, aquela planta que despertara a curiosidade do viajante francês ganharia enorme importância econômica. Os ervais movimentariam engenhos, comércio, trabalhadores e grandes fortunas. Curitiba sentiria diretamente os efeitos dessa prosperidade, enquanto Paranaguá teria papel importante no escoamento da produção para outros mercados.
Mesmo o grande primeiro historiador Antônio Vieira dos Santos à partir de 1825 passou a dedicar-se ao beneficiamento da erva-mate.
Mas existe algo que não podemos esquecer: a história da erva-mate não começou nos engenhos, nos armazéns ou nas casas exportadoras.
Começou muito antes.
Estava nas matas, nos caminhos, nas mãos daqueles que aprenderam a colher suas folhas e no conhecimento transmitido entre gerações. Estava, sobretudo, em um gesto aparentemente simples: oferecer uma cuia de mate a quem chegava.
Quando Saint-Hilaire levou a bombilha à boca naquele distante ano de 1820, não poderia imaginar tudo o que aquela planta ainda representaria.
Para ele, foi uma descoberta.
Para o Paraná, tornou-se trabalho, riqueza, tradição, memória e identidade.
LEITE, Francisco. O Maicé Nosso. Revista Trimestral do IHGP, ano 2, v. 12, n. 12, p. 1-42, 1 jul. 1957.





