Hoje, caro leitor, nossa coluna se volta, com respeito e afeto, para homenagear uma parnanguara cuja trajetória se confunde com a própria história da cidade. Dona Célia de Souza Guetter, nascida em 12 de janeiro de 1925, nas dependências da Estação Ferroviária de Paranaguá — onde seu pai exercia a função de chefe da estação —, veio ao mundo envolta pelos sons de apitos e de trens que chegavam e partiam, em um tempo em que os movimentos marcavam uma época de intensas transformações.
Símbolo vivo de uma era de ouro, sua vida foi moldada entre trilhos, partidas e chegadas, testemunhando o pulsar de uma Paranaguá dinâmica, conectada e repleta de histórias.
Filha de Pedro Machado de Souza e Evangelina Nascimento, carregou consigo a nobreza e a simplicidade de quem aprendeu, desde cedo, a observar o mundo pelas janelas de um trem — um mundo que mudava, mas que nela encontrava permanência, memória e identidade.
Sua presença era, por si só, um elo entre o passado e o presente.
Ao longo dos anos, tornou-se guardiã silenciosa de lembranças que hoje ajudam a compreender não apenas uma trajetória individual, mas também a construção coletiva de uma cidade.
Sua última visita à estação, em 2022, com 98 anos de idade, foi mais do que um retorno: foi um reencontro com suas origens, um momento carregado de simbolismo e emoção para todos que tiveram a honra de presenciá-lo.
Na ocasião, relembrou sua infância entre passageiros e histórias que as pessoas carregam consigo. Recordou-se, inclusive, de uma fotografia tirada com seus quatro irmãos, ainda na década de 1930, no interior da estação.
Narrou brincadeiras vividas entre partidas e chegadas, além de histórias de esperança, felicidade, amores e de tristezas.
Viveu com honra e construiu sua família alicerçada nos mais elevados princípios de dignidade.
Dona Célia partiu em paz no dia 24 de março de 2026. Sua partida deixa uma lacuna imensa no coração de familiares, amigos e de todos os parnanguaras.
No entanto, mais do que a saudade, permanece o legado: o exemplo de uma vida longa, digna e bem vivida, repleta de histórias que resistem ao tempo. Dona Célia nos ensina que a memória é um patrimônio vivo e que cada existência, quando marcada por afeto e significado, transforma-se em um verdadeiro tesouro a ser preservado.
Partiu a última moradora da estação.





