História, Memória e Patrimônio

A FARINHA DA TERRA

Certamente você já viu, ou ao menos ouviu contar, sobre a farinha de mandioca, um dos alimentos mais antigos da nossa tradição

ksovpy

Caro leitor, venha comigo nesta viagem por lembranças de um tempo que passou. Caminhe ao meu lado e, se puder, feche os olhos por um instante. Talvez consiga sentir o aroma: levemente tostado, morno, familiar — aquele cheiro que parece habitar a memória antes mesmo de alcançar o pensamento.

Certamente você já viu, ou ao menos ouviu contar, sobre a farinha de mandioca, um dos alimentos mais antigos da nossa tradição. Ela sempre esteve presente à mesa das famílias do litoral do Paraná, acompanhando o peixe, o café simples e a conversa sem pressa. Ligeiramente doce, de tonalidade mais creme do que branca, atravessou gerações como sustento e afeto, alimentando corpos e histórias.

Havia no litoral do Paraná grande produção de farinha de Mandioca, conhecida como Farinha de Guerra em tempos antigos e ainda há quem diga que em 1698 Paranaguá mandou 500 alqueires de Farinha para ajudar a combater a fome no Rio de Janeiro.

Houve um tempo — talvez narrado pelos avós, talvez esquecido nas esquinas da cidade — em que Paranaguá possuía casas especializadas na venda da chamada farinha da terra. Imagine-se caminhando por essas ruas: entre elas, ganhou fama a casa de Nhá Nica Costa, localizada em frente à residência que pertencera a “seu” Maneco Pampolha, hoje um Centro Espírita.

Ali não funcionava apenas um comércio. Ao entrar, o visitante encontrava um espaço de convivência, de conversa e de confiança. Havia coco, rapadura em pequenos pedaços e uma grande variedade de frutas regionais: sapoti, jambo, cajá, jaca, pitanga, ingá, jabuticaba, grumixama, laranja, abacaxi, melancia, maracujá e bananas de toda espécie.

Nhá Nica, sempre alegre, com os cabelos brancos trançados e presos por fitas pretas, conhecia com precisão o gosto da freguesia. Orgulhava-se de vender a melhor farinha da região: pura, bem torrada, com bastante goma — daquelas que hoje despertam saudade e provocam um suspiro quase involuntário.

Com o avanço apressado do progresso, estabelecimentos como o de Nhá Nica desapareceram. 

E você, em algum momento, talvez já tenha sentido essa ausência ao procurar um sabor que remeta à infância, ao almoço em família, à conversa prolongada à mesa.

A farinha de mandioca, tão essencial às antigas famílias parnanguaras, tornou-se rara, embora as terras do litoral continuem generosas para o seu cultivo. Se você visitar a feira nos fins de semana, talvez ainda encontre pequenas quantidades provenientes das Colonias. O preço pode causar espanto, mas raramente remunera de forma justa o esforço de quem planta, colhe e fabrica, mantendo viva essa tradição.

Desde o tempo das Bandeiras, quando o ouro cegava os homens, a farinha escasseava e tinha alto custo. Hoje, os cenários mudaram, mas a essência permanece. E, ao recordar essa farinha, talvez você perceba que também está recordando a si mesmo e às raízes que o sustentam.

Percorra, então, em pensamento, um dos antigos engenhos de farinha — mesmo os pequenos, hoje quase inexistentes. O que resta são as lembranças de tempos vividos em maior proximidade com a terra. Porque é dela, quando bem cuidada, que nascem o alimento, a memória e a esperança — com fé em Deus, respeito à Pátria e amor à Família.

Referência:

EVANGELISTA, Caetano. Cronicas. 001. ed. Paranaguá: Propria, 1978. 262 p. v. 1.


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Hamilton Ferreira Sampaio Júnior

Hamilton Ferreira Sampaio Júnior é pesquisador de história e genealogia, formado em Teologia e licenciado em História. Faz parte da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia e do Departamento Cultural do Club Litterario de Paranaguá, sendo também sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá. Atua em projetos históricos de resgate de memória, livros comemorativos e biografias, além de projetos museológicos e pesquisas documentais para segunda cidadania. Seu mais recente trabalho foi o livro comemorativo dos 100 anos da Associação Comercial Agrícola e Industrial de Paranaguá.

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