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Crônicas

“Os Outros”

Publicado

em

Por: Kátia Muniz

Filme ou série? Perguntou-me a amiga e leitora.

A minha resposta: filme. Por questões práticas, pois, na maioria das vezes, em duas horas ou nem isso, terei uma história contada com início, meio e fim.

Séries, ao contrário, demandam tempo, o qual costuma ser, na atualidade, artigo de luxo. Porém, a indicação de “Os Outros”, exibida pelo Globoplay, chegou em um momento oportuno. 

A estreia aconteceu em maio deste ano e, a cada semana, dois episódios eram liberados. Assim, a conclusão só se deu em julho. Confesso que a minha ansiedade não suportaria esperar tanto. Agora, com a narrativa completa, pude enfim assistir.

Essa série está longe de ser um passeio pelo parque. Não se deve criar nenhum tipo de expectativa de que o telespectador sentará, confortavelmente, no sofá da sala e terá momentos de lazer e descontração. Nada disso. O que se vê, na sequência dos doze episódios, é tensão pura. Em compensação, a infinidade de reflexões e o laboratório humano que a série entrega são inquestionáveis.

Um condomínio de classe média serve de cenário para o cotidiano de famílias que, com toda a certeza, jamais protagonizariam um comercial de margarina. O que se observa ali é uma realidade bruta e livre de quaisquer filtros. 

A falta de diálogo, a incapacidade de autocontrole, a imaturidade para resolver conflitos, a intolerância inflada e a violência fazem explodir situações que, infelizmente, podem sim acontecer com qualquer pessoa. Basta darmos uma olhada nos xingamentos proferidos no trânsito ou na alta taxa de violência cometida por homens para com suas companheiras, muitas vezes, resultando em feminicídios, que temos uma visão dos dias atuais.

Conferindo todas essas reações diante da tela, lembrei-me do excelente filme argentino “Relatos Selvagens”, que, assim como a série brasileira, testa até onde o ser humano pode aguentar, como nos casos em que é colocado à prova e submetido a alto grau de estresse e caos.

Parecemos bem normais enquanto compramos tomates na feira, mas experimente cutucar as nossas vulnerabilidades, mexa com os nossos filhos … e é possível ver surgir resquícios do “homem ou da mulher das cavernas” que ainda habita em nós.

Para completar, elenco afinadíssimo e atuações impecáveis nos personagens de Cibele, Amâncio, Márcio, Mila, Wando, Rogério, Sérgio, Lúcia… Enquanto isso, do lado de cá da tela, cresce o incômodo ao perceber que, em algum momento, poderíamos ser um deles.

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