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Crônicas

A arte nos salva dos dias iguais

Vejo a arte como um alimento e procuro consumir todos os dias. E quanto mais consumo, mais me encanto, mais amplia a minha visão de mundo, mais sofro transformações

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Estava olhando o feed de uma rede social quando me deparei com um vídeo que me chamou a atenção. Nele, um casal de dançarinos fazia uma apresentação ao som de Smooth Criminal, do icônico Michael Jackson. 

Eu, simplesmente, não conseguia parar de assistir. Detalhista por natureza, fiquei observando cada segundo da apresentação e da coreografia e, para mim, que sou leiga nessa área, sempre dá aquela falsa impressão de ser fácil de realizar, mas é óbvio que ali estavam dois profissionais que dedicaram horas, dias e, talvez, meses de ensaios, incluindo a disciplina de uma rotina de exercícios, alimentação adequada e tudo que possa agregar para que o resultado entregue seja o mais perfeito possível. 

Nada entendo sobre os passos de dança. Por sinal, uma vez me inscrevi para umas aulas e não dei conta de memorizá-los e, ao mesmo tempo, realizá-los. No quarto passo, já não lembrava mais do primeiro. Um fiasco! Mas derrubo o queixo diante de uma apresentação tão primorosa como a que me refiro nesta crônica.

Vejo a arte como um alimento e procuro consumir todos os dias. E quanto mais consumo, mais me encanto, mais amplia a minha visão de mundo, mais sofro transformações.

Ajeito meu corpo numa poltrona de cinema e, ao terminar o filme, tenho a nítida impressão de que rejuvenesci uns 20 anos. Peças de teatro, filmes, quadros, músicas, livros, grafitagens, danças, fotografias, tudo isso tem o poder de dar brilho ao meu olhar. 

Sendo assim, imaginei o desespero de algumas pessoas, que como eu, devem ter ficado perdidas logo que a pandemia iniciou e as bibliotecas fecharam, por não serem serviços essenciais. Então, questionei com meus botões: “Pra mim, são tão essenciais quanto o arroz e o feijão de cada dia”. Quantos livros eu poderia ter lido a mais se as bibliotecas estivessem abertas?

A arte foi o respiro para o nosso período de confinamento. Fez prestarmos mais atenção numa letra de música, assistirmos a mais filmes e, para muitos, foi o momento de descobrir os dons artísticos, antes encobertos por uma rotina massacrante de compromissos e afazeres. 

Consumir arte é uma forma de me retroalimentar. Esta crônica não teria sido escrita se eu não tivesse colocado os olhos de maneira tão atenta àquele vídeo de dança, ou seja, uma coisa vai puxando a outra. A música do Michael Jackson serviu de fundo para a apresentação dos dançarinos e a beleza da performance artística deles inspirou a liberação das minhas palavras. 

E tudo isso serve para quê?

Para que a gente não afunde no tédio, nas repetições das notícias sensacionalistas, no olhar acostumado e no lugar-comum.

É a arte que nos salva dos dias iguais.