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Baixas temperaturas trazem mais desafios à população de rua

Moradores em situação de rua contam como é seu dia a dia

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Com poucas cobertas, muitas vezes colocadas sobre um colchonete ou mesmo diretamente no piso úmido e frio, dormindo sob marquises ou outros locais que possam amenizar os efeitos do vento. Assim são as noites de inverno de muitos moradores em situação de rua em Paranaguá. Gilmar Lourenço está em situação de rua desde janeiro deste ano. O homem, com mais de 50 anos, já foi empresário e também trabalhou em várias áreas, mas a crise chegou e, segundo ele, não tinha mais como pagar o aluguel. “A única saída foi morar na rua”, contou. “O inverno é um período bastante difícil, não temos um local definido. Estamos em mais ou menos oito pessoas nos abrigando nos quiosques ao lado do Ginásio Joaquim Tramujas”, informou.

Lourenço contou que é uma situação que os deixa muito expostos. “Além do vento e do frio, ainda nos preocupamos com nossa segurança. Além das intempéries ainda temos a falta de segurança porque ficamos à mercê de qualquer situação. Acordamos todo o tempo devido à preocupação. No frio é ainda pior. Por mais que tenhamos cobertas, o frio é grande”, lamentou. O morador em situação de rua disse que o ideal era ter onde dormir. “Fundamentalmente precisamos de um lugar, uma casa de passagem. Seria importante um cadastro realizado ou mesmo utilizar o Centro POP para que fosse feito até uma triagem para que as pessoas pudessem ser levadas para um abrigo ao menos nesses dias de frio intenso”, opinou. Lourenço acredita que poderia ser feito um projeto para que as grandes empresas oferecessem a cada 10 vagas, duas vagas de emprego aos cadastrados no Centro POP para que eles tivessem oportunidade de se reerguerem.

Com 25 anos, o parnanguara Augusto estava morando na rua há algum tempo. “Agora retornei para a casa da minha mãe, mas passei muitos dias de período de frio, de insegurança, entre outros problemas. Cheguei a ficar doente devido ao frio, fiquei no hospital devido à gripe forte”, contou. “Já apanhei porque fui confundido com outro negro. Fui parar no hospital”, ressaltou

Com 41 anos, outro morador em situação de rua, que preferiu não se identificar, contou que está há um mês morando na rua. “Sou de São Paulo. Ouvi falar que Paranaguá era um bom lugar para se morar. Deixei minha família e vim para cá, mas quebrei a cara. A cidade é boa, mas a situação que estou vivendo aqui não é legal”, comentou. O homem não conseguiu emprego e, sem dinheiro, acabou sem ter onde morar. “Os dias frios são terríveis. Fico com o grupo nas proximidades do ginásio, um protege o outro e isso é importante”, disse. Em São Paulo, ele tinha casa e agora está tentando voltar para lá, para a família. “Ganhamos cobertores em doação, mas muitas vezes não temos o que comer”, lamentou.

Parnanguara, uma mulher que preferiu não se identificar, está vivendo há tantos anos na rua que não sabe mais sua idade ou há quanto tempo está nessa situação. “Fui morar na rua após o falecimento do meu pai. Agora já estou mais acostumada com o frio, mas mesmo assim ainda é difícil. Os fins de semana são os mais complicados porque o Centro POP está fechado e nem sempre temos o que comer”, observou a mulher.

Ana veio do Ceará há 25 anos e mora na rua em Paranaguá há cerca de três meses. “Foram problemas na família que me levaram a morar na rua. O tempo frio é o mais complicado. Fico com o mesmo grupo porque acaba sendo mais seguro”, avaliou.

Há 11 anos morando nas ruas, uma parnanguara encontrou em um prédio abandonado a solução para minimizar os problemas. “Já cheguei a dormir no carrinho de coleta de recicláveis, mas agora estou há 10 anos com minha companheira naquele prédio. Agora só as duas moram lá. É melhor para evitar o frio e outras situações. Tem uma pessoa que sempre nos leva doações lá”, comentou.

Os moradores em situação de rua salientaram que é preciso desmistificar que todas as pessoas que vivem na rua são criminosas. “Não se pode julgar todos por alguns. É preciso que as pessoas entendam que não é porque moramos na rua que somos bandidos. Somos pessoas que por um motivo ou outro acabamos nessa situação e queremos nos reerguer”, frisaram.

 

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