Caro leitor, há objetos que parecem apenas marcar as horas. Mas, quando fazem parte da história de uma cidade, também guardam lembranças, revelam escolhas e nos ajudam a perceber o que fazemos ou deixamos de fazer com o nosso patrimônio.
Em 6 de janeiro de 1913, um jornal de Paranaguá publicou uma queixa: o relógio da Igreja Matriz estava parado havia muito tempo. Sua falta era sentida, sobretudo pela população mais pobre. O texto reconhecia que a Igreja não tinha obrigação de manter aquele serviço, mas defendia que o vigário buscasse auxílio público para consertar o mecanismo e garantir seu funcionamento.
Passaram-se mais de cem anos.
Estamos em 2026, e o relógio da Matriz esta parado novamente e, para nosso espanto caro leitor, temos outros dois relógios parados em Paranaguá, um na Estação Ferroviária e outro no Mercado do Artesanato, todos eles parados há anos.

A coincidência atravessa o tempo e nos convida a pensar.
Em 1913, já se apontava a importância daquele relógio para a vida cotidiana da cidade. Hoje, a situação se repete, embora saibamos ainda mais sobre o valor dos bens históricos e sobre a responsabilidade de preservá-los.
E não se trata de um relógio qualquer o relógio da Matriz, foi presente do prefeito João Guilherme Guimarães, tornando-se parte da história da cidade e da própria memória de sua Igreja. Seu valor não está apenas nas engrenagens, nos ponteiros ou na utilidade de informar as horas. Está também na história que representa e nos vínculos que construiu com gerações de parnanguaras.
Quando um bem histórico fica sem manutenção, o abandono não acontece de uma só vez. Ele começa na falta de atenção, prolonga-se na ausência de providências e acaba transformando um problema reparável em sinal de descaso. O relógio parado, nesse sentido, nos mostra mais do que a interrupção de um mecanismo: revela o quanto ainda precisamos cuidar daquilo que recebemos do passado.
Em 1913, pediu-se auxílio para que o relógio voltasse a funcionar. Em 2026, a pergunta permanece: será que vamos repetir apenas a queixa, ou finalmente unir esforços para devolver movimento a esse patrimônio?
As horas continuam passando.
O relógio, porém, permanece em silêncio.
E talvez esse silêncio seja justamente o chamado de atenção que a cidade precisa ouvir.





