Religiosidade

O Rocio na arte, na fé e na memória dos parnanguaras

O Rocio é, há séculos, a alma que inspira a arte parnanguara e a fé que se transforma em beleza, tradição e memória

Nossa Senhora do Rocio está presente em cada canto da cidade, nas cores das fachadas antigas, nas pinturas que adornam capelas e salões, nas esculturas de madeira esculpidas com fé, nos bordados que contam histórias silenciosas (Foto: Folha do Litoral News)

Nossa Senhora do Rocio está presente em cada canto da cidade, nas cores das fachadas antigas, nas pinturas que adornam capelas e salões, nas esculturas de madeira esculpidas com fé, nos bordados que contam histórias silenciosas (Foto: Folha do Litoral News)

Em Paranaguá, a devoção a Nossa Senhora do Rocio não se limita ao Santuário ou às celebrações de novembro. Ela está presente em cada canto da cidade, nas cores das fachadas antigas, nas pinturas que adornam capelas e salões, nas esculturas de madeira esculpidas com fé, nos bordados que contam histórias silenciosas. O Rocio é, há séculos, a alma que inspira a arte parnanguara e a fé que se transforma em beleza, tradição e memória.

A devoção que começou nas águas da baía, com o encontro da pequena imagem no século XVII, foi se enraizando no coração do povo e floresceu em formas diversas de expressão cultural. A cada geração, novos artistas encontraram em Nossa Senhora do Rocio uma fonte inesgotável de inspiração. As representações da Padroeira multiplicaram-se em pinturas, esculturas, vitrais, murais e ícones populares, refletindo tanto a religiosidade quanto a identidade estética da região.

O Missionário Redentorista e Reitor do Santuário Estadual de Nossa Senhora do Rocio, Padre Dirson Gonçalves convida os moradores a enfeitar suas casas para a passagem da Santa. “Se você mora em uma dessas ruas, por exemplo, na Bento Munhoz da Rocha Neto, que será inteirinha cortada pela procissão, pode decorar a sua casa, enfeite, e principalmente as pessoas que moram na Professor Cleto, ela também recebe a passagem da Santa, que sai do Santuário e vai até a Catedral”, convida o padre Dirson.

O Missionário Redentorista e Reitor do Santuário Estadual de Nossa Senhora do Rocio, Padre Dirson Gonçalves convida os moradores a enfeitar suas casas para a passagem da Santa (Foto: Folha do Litoral News)
O Missionário Redentorista e Reitor do Santuário Estadual de Nossa Senhora do Rocio, Padre Dirson Gonçalves convida os moradores a enfeitar suas casas para a passagem da Santa (Foto: Folha do Litoral News)

“A ‘Corrida e Caminhada com a Mãe do Rocio’ também passará por ali. Então, as pessoas vão estar correndo e vendo as homenagens, as faixas, bandeiras, várias manifestações na fachada”, destaca o padre Dirson. 

Academia e relação de fé com a Mãe do Rocio

Bruno Elias Zacharias, devoto de Nossa Senhora do Rocio e proprietário de uma academia, explica que o hábito de realizar adornos em homenagem à Padroeira de Paranaguá é uma tradição familiar, herdada de sua avó. O espaço onde hoje funciona a academia era, antigamente, a casa dela. Pelo local, passam milhares de pessoas junto à imagem da Santa durante a procissão.

 “Eu acompanho a procissão desde criança, essa casa onde hoje é a minha empresa foi a casa da minha avó. Então a gente sempre colocou uma mesinha com uma imagem de Nossa Senhora aqui para abençoar quando Nossa Senhora vinha do Rocio e passava por ela. Minha avó não acompanhava a procissão, mas ela ficava aqui esperando a Santa passar e isso era sempre muito guardado por”, relembrou Bruno.

 Bruno Elias Zacharias, devoto de Nossa Senhora do Rocio e proprietário de uma academia, explica que o hábito de realizar adornos em homenagem à Padroeira de Paranaguá é uma tradição familiar, herdada de sua avó (Foto: Folha do Litoral News)
Bruno Elias Zacharias, devoto de Nossa Senhora do Rocio e proprietário de uma academia, explica que o hábito de realizar adornos em homenagem à Padroeira de Paranaguá é uma tradição familiar, herdada de sua avó (Foto: Folha do Litoral News)

Em homenagem à Santa, Bruno utiliza balões, tecidos e flores, e realiza a distribuição de água aos fiéis. “Acompanhar a procissão é sempre uma emoção muito grande. Eu tenho alguns familiares e alunos que ficam aqui ajudando a distribuir água. E eu acredito que é uma forma de colaborar com os romeiros, aquecer o coração deles que já vem pedindo, agradecendo, e nós também agradecendo a passagem dela por aqui. Então, para nós, é incrível”, concluiu.

Os traços delicados do manto azul e dourado da Santa, o olhar sereno e a coroa de estrelas tornaram-se símbolos recorrentes nas obras locais. Nas mãos dos artesãos e artistas, a imagem de Nossa Senhora ganhou rostos, texturas e estilos, mas sempre manteve o mesmo significado com a presença protetora e maternal que acompanha Paranaguá ao longo de sua história.

Nas procissões e festividades, a arte também se faz presente. As ruas se transformam em galerias vivas, com tapetes coloridos, estandartes bordados, arcos de flores e imagens ornamentadas que desfilam em meio à multidão. Cada detalhe é pensado com devoção, transformando o ato de fé em espetáculo visual e coletivo. A tradição dos ornamentos e adereços, transmitida de geração em geração, demonstra o cuidado e o amor com que o povo celebra sua Padroeira.

Família decora sua residência há mais de 40 anos 

A devota de Nossa Senhora do Rocio, Alessandra Pinto, explica que o hábito de decorar a casa em homenagem a Santa acontece há pelo menos cerca de 40 anos na família. “Moramos na rua principal onde passa a procissão e para nós é um privilégio, é uma bênção, são muitos fiéis. Então, da janela da nossa casa poder ver é gratificante”, ressaltou.

“É a mãezinha do céu. Acredito que todos que todos que a busca tem a esperança de alcançarem seus desejos, sonhos, a cura”, expressou a devota Alessandra Pinto (Foto: Folha do Litoral News)
“É a mãezinha do céu. Acredito que todos que todos que a busca tem a esperança de alcançarem seus desejos, sonhos, a cura”, expressou a devota Alessandra Pinto (Foto: Folha do Litoral News)

“É a mãezinha do céu. Acredito que todos que todos que a busca tem a esperança de alcançarem seus desejos, sonhos, a cura”, expressou.

A literatura popular e a música também guardam o perfume do Rocio. Versos, orações e cânticos narram a história da Santa, as graças alcançadas e o sentimento de proteção que ela representa. Poemas e canções surgem como testemunhos do coração, traduzindo em palavras e melodias o que o olhar e o gesto muitas vezes não conseguem expressar. É o encontro entre a fé e a arte, onde cada expressão se torna um ato de louvor.

O Santuário Estadual do Rocio é, por si só, um monumento de arte e espiritualidade. Sua arquitetura mistura tradição e modernidade, e o interior abriga obras sacras que emocionam e encantam. As pinturas, vitrais e esculturas revelam o talento de artistas que deixaram sua marca na história da devoção, transformando o templo em um espaço de contemplação estética e espiritual.

Nos bairros e comunidades, a presença da Padroeira se manifesta em pequenos altares domésticos, em quadros nas paredes, em nichos floridos nas esquinas. São expressões simples, mas repletas de significado, que mantêm viva a ligação entre fé e cotidiano. A imagem da Santa acompanha o nascer e o pôr do sol sobre a baía, como se estivesse sempre a abençoar a cidade que escolheu proteger.

Acompanhando a Procissão, mas com a casa enfeitada

“Muitas bençãos recebidas pela mãezinha do céu”, afirma Lucimara Malaquias Lopes sobre as bençãos alcançadas através de Nossa Senhora do Rocio.

“Muitas bençãos recebidas pela mãezinha do céu”, afirma Lucimara Malaquias Lopes sobre as bênçãos alcançadas através de Nossa Senhora do Rocio (Foto: Folha do Litoral News)
“Muitas bençãos recebidas pela mãezinha do céu”, afirma Lucimara Malaquias Lopes sobre as bênçãos alcançadas através de Nossa Senhora do Rocio (Foto: Folha do Litoral News)

Lucimara acompanha todo o trajeto de ida e volta da procissão descalça, como forma de agradecer pelas bênçãos recebidas. “Eu vou na procissão, acompanho-a na ida e volta e descalça, agradecendo as bênçãos. É uma gratificação. Eu enfeito com bexigas, flores, tudo para recebê-la e agradecer”, concluiu.

O Rocio também é tema de exposições, projetos culturais e manifestações populares, que buscam preservar e divulgar a herança artística e devocional de Paranaguá. Cada peça, cada traço, cada nota musical é uma forma de manter viva a história e de transmitir às novas gerações o valor de uma fé que moldou a cultura local.

A presença de Nossa Senhora do Rocio na arte é, portanto, um reflexo do coração do povo parnanguara. É a fé transformada em expressão, o sagrado dialogando com o belo, a memória se perpetuando nas mãos que criam e nas almas que acreditam. Em cada obra inspirada pela Padroeira, há um pouco da história da cidade e muito do amor de um povo que aprendeu a traduzir sua devoção em forma, cor e sentimento.

Assim, o Rocio não é apenas uma devoção religiosa, é também um legado cultural, um patrimônio imaterial que transcende o tempo e une gerações. É a prova de que a fé pode ser arte e que a arte, quando nasce do coração, também é uma forma de oração.

E enquanto as águas da baía continuam a refletir o brilho do santuário, a imagem de Nossa Senhora do Rocio segue viva não apenas nos altares e nas procissões, mas em cada obra, em cada gesto e em cada memória que fazem de Paranaguá um lugar onde a fé se eterniza em arte.


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Elano Squenine

Estudante de Jornalismo desde 2025 pela Uningá, Elano Squenine atuou como repórter, pauteiro e produtor em uma emissora de rádio. Atualmente, ele exerce suas funções na Folha do Litoral News como coprodutor (MEI).

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