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Paranaguá 372 anos

Paranaguá vai ganhar Dicionário Caiçara

Linguagem caiçara data do século 18 e se mantém nos dias atuais

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Quem mora em Paranaguá sabe que a comunidade caiçara tem um jeito diferente de falar e até mesmo uma linguagem própria. São palavras que se perdem no tempo e se fortalecem através das gerações, dando mais destaque à identidade cultural parnanguara.

São tantas palavras com significados voltados para o dia a dia da comunidade local, que dois pesquisadores da cultura caiçara estão montando um dicionário. Aorelio Domingues e Zé Muniz já estão com 80% do trabalho concluído para mostrar a dimensão e o valor da linguagem caiçara.

Zé Muniz há 20 anos vem coletando informações para a criação do dicionário caiçara

De acordo com Zé Muniz, já são muitos anos de pesquisas. “Como sou professor de história, estamos registrando muitos aspectos da nossa cultura, como o fandango, a romaria do Divino, a construção da canoa, lendas e mitos. O falar caiçara é mais um desses tópicos que tinha iniciado há mais de 20 anos. E em 2020 resolvemos dar uma adiantada”, explica.

De acordo com Muniz, o trabalho conta com o apoio da comunidade, ou seja, nesse estudo estão sendo aproveitadas as redes sociais para estabelecer o contato com grupos de fandango e pessoas envolvidas no circuito caiçara. Desde Paraty, no Rio de janeiro, passando por Ubatuba, Peruíbe, Cananeia, Iguape e aqui no litoral do Paraná, onde tiramos várias contribuições para a pesquisa”, ressalta.

Aorelio Domingues, que também é pesquisador, está envolvido no trabalho. Há muito tempo ele também tinha iniciado a tentativa de escrever, como dizem os amigos: “um novo dicionário Aurélio da língua portuguesa”. O objetivo é dar mais visibilidade para os vocábulos caiçaras.

Resultado da miscigenação

O trabalho já resulta em 150 páginas digitadas com a possibilidade de que se torne também um material didático, podendo ser utilizado nas escolas de Educação do campo. O material ressalta, ainda, a formação do vocábulo caiçara como resultado da miscigenação.

Aorelio Domingues conta que comunidades tradicionais preservam palavras do português arcaico

Aorelio explica que até meados do século XVIII ainda se falava fluente as línguas indígenas, somente em 1759 se oficializou o português, por intermédio de uma provisão real de 1757. “De lá para cá, tudo foi se misturando e ganhando sotaques, mesmo porque nem todas as coisas daqui tinham nome e o que se usava eram as nomenclaturas indígenas. Além disso, as comunidades tradicionais preservam palavras do português arcaico, as quais também vão se misturando. Assim como palavras indígenas sofrem adaptações por causa do sotaque e da dificuldade de se falar fonemas indígenas”, destaca.

Neste sentido, Aorelio cita alguns exemplos como as palavras iniciadas em NH, por exemplo: nhundu, nhopecanga, nhacatiró, nhambauva, que com o tempo ganharam som de J ou I, jundu, jacatirão, imbaúva e outras.

“Principalmente nomes de árvores são de desconhecimento das pessoas em geral, então quando a conversa está no universo das florestas, muitas palavras vêm à tona, tanto nomes de árvores como modo de viver na mata. Isso se repete no mar e em práticas de comunidades tradicionais”, complementa.

Linguagem caiçara

Outro exemplo citado por ele é em relação a uma atividade no mato. “Fradeie a grota pra não se inlear no varaço de nhopecanga, tá revendo água no nhassapê e é perigoso se pinchar argures”.

Exemplo no mar: “no calão não na arpoeira, eu tô no paneiro da proa e ato na patilha, você na bordadura da popa inlea a arpoeira na poita”.

Na casa da farinha: “tá só tavevê a luzerna que você fez! Tanta icha de tabucuva pra ardê e a massa tá na vivuia ainda. Venha, mas espane pra não embolar senão vai virar biju. Deixa a piririca na gamela”.

Pode parecer estranho para quem não conhece, mas pessoas se comunicam assim entre as comunidades caiçaras. Tudo isso ficará mais claro ainda quando o dicionário estiver em mãos.

Os termos mais comuns em Paranaguá são: Coisa bobo (idiota), lemarde (grande), Vadico (quando se refere a alguém), Meu Bonje (meu Deus), Meu caneco (nossa!), vede (olha), de varde (sem fazer nada), hum disque (colocar em dúvida) e outras.