Opinião

A Paixão Que Não Enobrece Ninguém

É a única paixão sem grandeza, a única capaz de imbecilizar o homem

Foto: Divulgação

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Por Fonseca.R

Nelson Rodrigues, aquele sujeito que transformou o subúrbio carioca em tragédia grega e fazia cada família parecer mais complicada que a física quântica, disparou certa vez uma de suas sentenças fulminantes: não há nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única capaz de imbecilizar o homem. E antes que você me acuse de estar fazendo política ao falar de política, respire fundo. Estou apenas observando o óbvio, que aliás é a especialidade de quem escreve: dizer o que todo mundo sabe, mas ninguém quer admitir.

Vamos aos fatos. A paixão amorosa, por mais patética que seja, tem seus momentos de glória. O sujeito apaixonado faz burrice, é verdade, mas são burradas que rendem poesia, música, arte. Romeu e Julieta morreram feito tolos, mas ao menos inspiraram Shakespeare. Já viram alguém fazer um soneto imortal sobre seu candidato preferido? Não. Porque a paixão política produz apenas panfleto, post raivoso de internet e briga de família no almoço de domingo.

A paixão religiosa, mesmo quando exagerada, carrega consigo um certo mistério transcendental. O fanático religioso ao menos está dialogando com o infinito, mesmo que seja um diálogo meio esquizofrênico. Já o fanático político está apenas gritando com o vizinho. Um, conversa com Deus, o outro berra com quem votou diferente. Adivinhe qual é mais ridículo?

O que Nelson captou com sua habitual crueldade cirúrgica é que a paixão política não enobrece ninguém. Ela não nos torna melhores, mais sábios, mais generosos. Pelo contrário: transforma pessoas civilizadas em torcedores de futebol sem a desculpa do álcool. Gente que em qualquer outro contexto seria capaz de nuance, de dúvida, de pensamento complexo, vira súbito um primata batendo no peito e rugindo contra a tribo adversária.

O apaixonado político desenvolve uma espécie de daltonismo moral: só enxerga o mundo em duas cores. A cor do seu time e a cor do inimigo. Corrupção? Depende de quem pratica. Mentira? Questão de perspectiva. Autoritarismo? Só é ruim quando vem do outro lado. O cérebro entra em curto-circuito e começa a funcionar no modo binário: meu lado bom, lado deles ruim. É uma lobotomia voluntária, um suicídio intelectual cometido com entusiasmo.

E o pior: essa paixão é contagiosa. Você começa achando que está apenas defendendo ideias, princípios, valores. Daqui a pouco está compartilhando fake news, xingando desconhecidos na internet, rompendo amizades de décadas porque alguém ousou discordar da sua análise política. Sua vida inteira passa a girar em torno disso. Você acorda checando notícias sobre seu político de estimação, passa o dia monitorando o que os adversários estão aprontando, dorme sonhando com a derrota do inimigo. Virou um zumbi político, um morto-vivo ideológico.

A grande ironia é que os políticos, aqueles que supostamente inspiram tanta devoção, raramente são dignos dela. São criaturas pragmáticas que fazem alianças de conveniência, traem princípios quando necessário, mudam de lado conforme o vento. Enquanto isso, seus adoradores se digladiam com fervor religioso defendendo sujeitos que provavelmente trocariam de posição amanhã se fosse conveniente.

Nelson estava certo: não há grandeza nessa paixão. A paixão amorosa nos conecta com outro ser humano. A paixão artística nos conecta com a beleza. A paixão pelo conhecimento nos conecta com a verdade. E a paixão política? Nos conecta apenas com o ódio ao diferente, com a certeza arrogante de que estamos certos e o resto do mundo está errado.

Não estou pregando apatia ou indiferença. Participar da vida pública é importante, votar é um dever cívico, ter posições políticas é natural. Mas há uma diferença entre ter opinião e virar torcedor fanático, entre defender ideias e se lobotomizar em nome delas. A primeira postura é cidadania. A segunda é a imbecilização que Nelson denunciou.

No fim, a paixão política é a única que nos diminui em vez de nos expandir. Transforma pessoas inteligentes em papagaios de slogans, converte seres humanos complexos em cartazes ambulantes. E o mais triste: muita gente acha que está sendo heroica quando na verdade está apenas sendo ridícula.

Como diria o próprio Nelson, se estivesse aqui testemunhando a atual safra de apaixonados políticos: “Estão todos fazendo o papel de idiotas com uma convicção comovente.”


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