A sífilis continua sendo um desafio para a saúde pública, principalmente quando o diagnóstico e o tratamento não são realizados a tempo de evitar a transmissão da doença da mãe para o bebê. Em Paranaguá, o trabalho das equipes de saúde tem contribuído para reduzir as notificações de sífilis congênita, que passaram de 84, em 2024, para 69, em 2025. Em 2026, até o momento, o município contabilizava 13 notificações. Os dados foram apresentados pela enfermeira da Atenção Primária da Secretaria Municipal de Saúde, Jessica Cristina de Lima Alípio, integrante do Comitê de Mortalidade Materna e Infantil. Ela também explica como identificar os possíveis sintomas da sífilis, quando procurar atendimento, quais são as formas de tratamento e por que o acompanhamento dos parceiros sexuais é fundamental para interromper a transmissão da bactéria.
Sintomas podem passar despercebidos
Paranaguá é uma cidade considerada endêmica para sífilis, uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada por uma bactéria que entra na corrente sanguínea, algo que ocorre de forma frequente em cidades portuárias. Segundo Jessica Alípio, os primeiros sintomas podem aparecer entre 10 e 90 dias após o contato com a bactéria, período que dificulta a identificação do momento da infecção. “É uma janela de tempo grande. Se a pessoa teve relações desprotegidas com mais de um parceiro nesse intervalo, por exemplo, pode não saber de quem realmente contraiu a infecção”, explica.
Um dos principais sinais da doença na fase inicial é o chamado cancro duro, uma lesão que aparece na região genital de homens e mulheres. A ferida pode se assemelhar a um furúnculo ou abscesso, mas tem uma característica importante: geralmente não provoca dor. “O cancro duro nada mais é do que uma lesão que aparece na região genital. A pessoa percebe uma alteração na pele, que pode formar uma espécie de casquinha dura no meio, mas não dói. Como é indolor e cicatriza sozinha, muitas vezes a pessoa demora a procurar ajuda. Ela pode pensar que foi um pêlo encravado ou alguma outra coisa e não associa aquilo à sífilis”, detalha a enfermeira.
Além da lesão genital, a infecção também pode provocar manchas na pele, que podem ser avermelhadas ou acinzentadas e, geralmente, não causam coceira. Assim como o cancro duro, essas manifestações podem desaparecer espontaneamente, mesmo que a bactéria continue presente no organismo. “Durante esse período, a pessoa também pode apresentar manchas na pele, às vezes avermelhadas, às vezes acinzentadas, que não coçam e também podem desaparecer sozinhas. Mesmo sem os sintomas, ela pode continuar com a sífilis no sangue por muito tempo, sem saber. Só vai descobrir se realizar um teste rápido ou um exame de sangue para detectar a infecção”, alerta. Por isso, a enfermeira enfatiza que o desaparecimento das feridas ou das manchas não significa que a doença foi eliminada. A realização dos exames é fundamental para identificar a infecção e iniciar o tratamento adequado.
Tratamento feito corretamente é eficaz
De acordo com Jessica Alípio, a penicilina benzatina, conhecida popularmente como Benzetacil, é o tratamento de referência para a sífilis. Apesar da eficácia do medicamento, a resistência de algumas pessoas à aplicação, principalmente por causa da dor, ainda representa um obstáculo para a conclusão do tratamento. “O tratamento que consideramos o padrão-ouro hoje é realizado com a Benzetacil. Uma das maiores resistências das pessoas é justamente a dor da aplicação, porém, é um medicamento ao qual a bactéria responde muito bem”, salienta.
A enfermeira explica que o esquema de tratamento depende do tempo de evolução da infecção. Quando a pessoa apresenta sintomas há até um ano, por exemplo, o tratamento indicado pode consistir em uma única dose total de 2,4 milhões de unidades de penicilina benzatina, administrada em duas aplicações no mesmo dia, uma em cada glúteo. “Se a sífilis for descoberta e diagnosticada no começo, dentro de até um ano do início dos sintomas, a pessoa vai receber uma dose total de 2,4 milhões de unidades de Benzetacil. Isso corresponde a duas injeções aplicadas no mesmo dia, uma em cada glúteo. Existe a dor local, mas ela é momentânea, relacionada ao momento da aplicação”, esclarece.
Quando não é possível determinar há quanto tempo a pessoa está infectada, ou quando a duração da infecção é superior a um ano, o tratamento pode exigir três doses semanais consecutivas. Nesse esquema, é necessário respeitar o intervalo entre as aplicações. “Quando a pessoa não sabe quando teve os sintomas, a infecção pode ter mais de um ano. Nesse caso, ela vai precisar fazer três aplicações semanais de Benzetacil, uma por semana, com intervalo de sete dias e, no máximo, nove dias, para não perder o intervalo adequado entre as doses”, explica.
O acompanhamento não termina com a aplicação do medicamento. A pessoa precisa realizar exames de sangue para verificar a resposta ao tratamento e avaliar a redução dos indicadores da infecção. “Se a pessoa identifica que aquela lesão é um sintoma de sífilis, procura atendimento e realiza o tratamento indicado, as chances de controlar a infecção são muito boas. Depois, ela precisa fazer o exame de sangue de acompanhamento para verificar se o tratamento realizado foi suficiente”, acrescenta.
Jessica Alípio também esclarece que uma pessoa tratada pode contrair sífilis novamente se tiver novo contato com a bactéria. O tratamento anterior não garante imunidade permanente. “Se a pessoa tiver contato com a sífilis novamente, poderá desenvolver a infecção outra vez. Isso não significa que a primeira sífilis voltou, mas que houve uma nova infecção. A pessoa pode ter sífilis mais de uma vez, porque não existe uma imunidade permanente contra a doença”, ressalta.
Testes rápidos estão disponíveis nas unidades de saúde
A frequência para a realização dos exames depende das situações de exposição e do histórico de cada pessoa. Para quem teve uma relação sexual desprotegida, é importante compreender que o teste realizado imediatamente após o contato pode não detectar a infecção. É necessário aguardar alguns dias e aí sim, realizar o teste rápido. “Se a pessoa teve uma relação desprotegida hoje e chegar amanhã à unidade de saúde para fazer o teste rápido, o resultado pode não acusar a infecção. Toda doença tem uma janela de tempo para ser detectada. No caso da sífilis, esse período pode começar em torno de dez dias e se estender até 90 dias”, explica. A enfermeira ressalta que um resultado negativo logo após uma exposição não exclui a possibilidade de infecção, justamente porque a pessoa pode estar no período em que a doença ainda não é detectável pelo exame.
Para pessoas sexualmente ativas, a realização periódica dos testes é uma medida importante de prevenção. A frequência deve considerar o histórico de relações sexuais e as possíveis exposições. Quem teve relações desprotegidas pode procurar a unidade de saúde para receber orientação e realizar os exames, conforme a necessidade. Os testes rápidos disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) não se restringem à sífilis. Também permitem a investigação de HIV e das hepatites B e C, infecções que podem ser transmitidas sexualmente. “Não é só o teste para sífilis. Nós também fazemos os testes para HIV e hepatites B e C, que também podem ser sexualmente transmissíveis. Muitas dessas doenças são silenciosas e podem permanecer por muito tempo sem apresentar sinais que levem a pessoa a procurar atendimento”, afirma Jessica ao reforçar a importância de realizar os exames para detecção dessas doenças. Outro destaque é de que uma pessoa pode conviver com uma infecção sem saber que a possui. Por isso, não é recomendável esperar o aparecimento de sintomas para buscar a realização dos exames.
Paranaguá registrou 328 notificações de sífilis em 2025
Os dados apresentados apontam que Paranaguá registrou 234 notificações de sífilis em 2024. Em 2025, o número de notificações chegou a 328. Segundo Jessica Alípio, o aumento está relacionado, entre outros fatores, à ampliação do acesso aos testes rápidos e ao fortalecimento da investigação realizada pelas equipes de saúde. “A sífilis é uma doença cujos números podem variar, porque, quanto mais relações desprotegidas uma pessoa infectada tiver, maior será a possibilidade de transmitir a bactéria. Em 2024, tivemos 234 notificações de sífilis. Em 2025, o número chegou a 328. Esse aumento também está relacionado ao trabalho de investigação e à ampliação do acesso aos testes rápidos, que passaram a chegar mais perto da população, nas unidades de saúde”, explica.
Em 2026, até o momento, o município contabiliza 237 notificações de sífilis. A enfermeira faz uma ressalva importante sobre os números: notificações não devem ser interpretadas automaticamente como casos confirmados de infecção ativa. Cada notificação dá origem a uma investigação para esclarecer a situação da pessoa. “É importante diferenciar notificação de caso confirmado. Toda notificação gera uma investigação para verificar a situação. Uma pessoa que já teve sífilis pode continuar apresentando resultado positivo no teste rápido ao longo da vida, mesmo depois de ter sido tratada. Isso não significa necessariamente que ela esteja com a infecção ativa. Pode ser uma cicatriz sorológica, ou seja, uma marca que permanece nos exames depois de uma infecção anterior”, esclarece.
A investigação, portanto, é necessária para que os profissionais de saúde avaliem o histórico do paciente, os resultados dos exames e a possibilidade de uma infecção ativa ou de uma nova exposição à bactéria. Em relação ao perfil das pessoas notificadas, a enfermeira informa que o público masculino representa a maioria dos registros, chegando a 57%.
Sífilis congênita: redução de 84 para 13 notificações
Um dos resultados destacados pela enfermeira é a redução das notificações de sífilis congênita, transmitida da gestante para o bebê durante a gravidez. Em 2024, Paranaguá registrou 84 notificações dessa forma da doença. Em 2025, o número caiu para 69. Em 2026, até o momento, foram contabilizadas 13 notificações.
Segundo Jessica Alípio, os registros incluíram situações em que as gestantes não realizaram o tratamento adequado durante a gravidez ou não sabiam que estavam infectadas, em alguns casos por não terem feito o pré-natal. “Em 2024, tivemos 84 notificações de sífilis congênita encaminhadas ao Ministério da Saúde. Isso significa que tivemos situações de bebês expostos à doença porque as mães não trataram corretamente a sífilis durante a gestação ou nem sabiam que estavam infectadas, muitas vezes porque não realizaram o pré-natal. Em alguns casos, a infecção foi detectada somente no momento do parto, quando é feito o teste rápido”, relata.
A sífilis congênita exige cuidados específicos com o recém-nascido. Conforme explica a enfermeira, os bebês podem precisar de internação, tratamento e acompanhamento por diferentes especialidades médicas, além da realização de exames ao longo do primeiro ano de vida. “Depois, o acompanhamento da sífilis no bebê é bastante custoso. É um sofrimento para essa criança. O bebê precisa passar pelo otorrinolaringologista para verificar se existem sequelas auditivas, pelo oftalmologista para avaliar possíveis sequelas na visão e pelo neurologista. Também pode ser necessário coletar o líquor, por meio de um procedimento na região da coluna, para verificar se houve comprometimento neurológico relacionado à sífilis. Além disso, são realizados exames de sangue periódicos durante o primeiro ano de vida”, lamenta.
A enfermeira ressalta que a prevenção e o tratamento adequado durante a gestação podem evitar essa série de procedimentos e sofrimentos para a criança. “Às vezes, por causa de uma dose de Benzetacil que não foi realizada durante a gestação, a criança acaba passando por internação, tratamento e vários exames depois do nascimento. É um sofrimento para ela. Por isso, é tão importante que a gestante faça o pré-natal, realize os exames e, se houver diagnóstico de sífilis, receba o tratamento adequado”, enfatiza.
A redução das notificações é considerada pela profissional um resultado importante do trabalho realizado pelas equipes de saúde. “Para nós, é uma vitória muito grande perceber que as coisas estão mudando. As pessoas estão se conscientizando, as equipes estão se aprimorando, conseguindo detectar a doença, conversar com os pacientes e realizar o tratamento. Conseguir reduzir esses números é muito significativo”, afirma.
Mesmo com a redução, o tratamento dos parceiros ainda é um desafio
Apesar dos avanços, Jessica Alípio aponta que a adesão dos parceiros sexuais das gestantes ao tratamento continua sendo uma das principais dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde. Quando uma gestante recebe o diagnóstico de sífilis, é fundamental que o parceiro também seja avaliado e receba o tratamento indicado, para evitar novas transmissões e reinfecções. “O nosso maior problema, até hoje, não é a mãe, porque ela na maioria das vezes, trata. O problema é o parceiro, que muitas vezes não faz o mesmo. Ele se recusa a fazer o tratamento na unidade de saúde. Às vezes, comparece, recebe toda a orientação, entende o que o bebê pode ter, mas, quando a equipe pede para aguardar um pouco enquanto prepara a medicação, ele vai embora porque precisa receber duas injeções de Benzetacil”, lamenta.
Segundo a enfermeira, essa dificuldade não é exclusiva de Paranaguá, mas um desafio enfrentado em diferentes regiões do país. “Essa dificuldade de tratar o parceiro existe em nível nacional. Nós também participamos de treinamentos do Ministério da Saúde sobre os indicadores da sífilis, e sabemos que essa é uma questão enfrentada em todo o Brasil”, explica. A profissional destaca que o trabalho das equipes da rede municipal, desde a orientação até a realização do tratamento, tem contribuído para melhorar os indicadores locais. Para ela, a conscientização dos pacientes e a atuação dos profissionais são fundamentais para manter a redução das notificações de sífilis congênita.
Exame e acompanhamentos podem ser realizados nas unidades básicas de saúde
As pessoas que desejam realizar o teste para sífilis podem procurar qualquer unidade básica de saúde de Paranaguá. Embora o município também disponha do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), localizado no setor do Centro de Diagnóstico João Paulo II, a orientação é que os moradores procurem preferencialmente a unidade mais próxima de sua residência. “O CTA é um serviço específico para o aconselhamento, mas orientamos que as pessoas procurem a unidade de saúde mais próxima de casa. O acompanhamento e as orientações também são realizados pela equipe da Atenção Básica. Quando se trata de sífilis, todo esse atendimento pode ser feito na unidade básica”, informa.
Ela ressalta que as unidades básicas de saúde contam com a medicação necessária para iniciar o tratamento assim que houver diagnóstico e indicação clínica, sem que o paciente precise buscar o medicamento em outro local do município e retornar posteriormente para a aplicação. “Hoje, as unidades básicas têm Benzetacil disponível para que o tratamento possa ser iniciado imediatamente. A pessoa não precisa ir até a farmácia do município buscar a medicação e depois voltar para aplicar. Uma vez que ela tem o diagnóstico, já pode iniciar o tratamento na própria unidade. Antes da aplicação, também pode ser feita a coleta de sangue para avaliar a titulação, que é uma medida utilizada para acompanhar a situação da sífilis no sangue”, detalha.
Graves complicações
Além da transmissão sexual e da possibilidade de transmissão durante a gestação, a sífilis não tratada pode evoluir e provocar complicações graves ao longo dos anos ao paciente. Jessica Borges alerta que, nas fases iniciais, a ausência de sintomas pode fazer com que a pessoa não perceba a necessidade de procurar atendimento. “Nos primeiros dez anos, a pessoa pode não sentir nada relacionado à evolução da doença, mas aquelas lesões que apareceram no começo e que ela não identificou como sífilis, podem dar lugar a manifestações internas no organismo. A doença pode provocar lesões na pele e nos órgãos e também atingir o cérebro”, alerta.
Quando há comprometimento do sistema nervoso, a condição é chamada de neurossífilis e pode provocar manifestações neurológicas, incluindo convulsões. “Se a sífilis atingir o sistema nervoso, a pessoa pode desenvolver neurossífilis e apresentar complicações, como convulsões. Por isso, tratar a doença ou, pelo menos, procurar atendimento para saber se teve contato com a bactéria é o caminho para evitar que, muitos anos depois, ela receba um diagnóstico de sífilis tardia”, explica.
Jessica reforça que a resistência à aplicação do medicamento não deve impedir a busca por atendimento. O diagnóstico precoce, a realização dos exames, o tratamento completo e o acompanhamento dos pacientes são medidas essenciais para interromper a transmissão e evitar complicações. “A sífilis tem cura, mas as pessoas ainda têm resistência porque o tratamento é feito com Benzetacil. É importante procurar a unidade de saúde, realizar os testes e, se houver diagnóstico, seguir corretamente o tratamento indicado”, conclui.





