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Cultura

LEÔNCIO CORREIA (1865-1951)

PATRONO DO CENTRO DE LETRAS DE PARANAGUÁ

Publicado

em

 

UM TOQUE DE AMOR A PARANAGUÁ:

Profa. Dra. Gilka Correia

 

Nasci no doce mês da primavera…

Setembro! A terra em flor! O céu em gala!

E em cada coração – uma quimera.

E em cada boca – uma amorosa fala!

 

Abrindo uma janela no tempo volto a mais de cento e cinquenta anos. Mas, afinal, o que é o tempo? O paradigma quântico que emerge no início do Século XX ensina que vivemos num universo de energia. Então questiono: o que é o tempo? Um processo linear e teleológico de experiências sequenciais? O assunto vem sendo muito discutido, entre filósofos, cientistas e teólogos, desde o início da cultura ocidental até os dias de hoje. Ou o conceito de Tempo e Espaço são construções da mente humana, adquiridos por vivência e indefinível em palavras?

A física quântica abriu a porta para além da visão clássica com a abordagem sistêmica que transcende a fragmentação cartesiana com a identificação significativa do caráter energético da matéria. Vivemos, pois, num imenso mar de energia.

Nas ciências da mente a neurofisiologia nos leva ao caminho da superação das dicotomias mente e corpo, razão e emoção, ambiente subjetivo, ambiente externo. Tudo está em tudo… O Um está no Todo… Nessa percepção do Ser na Sua Totalidade a realidade emerge junto com o observador; ele não é figurante, é participante e, portanto, inseparável dele. O físico Julian Barbour, autor do livro “The end of time”, pesquisador do assunto por mais de quatro décadas, chegou a uma conclusão que me parece mais filosófica do que científica: o tempo não existe. O que existiria, na realidade, é a nossa percepção da passagem do tempo. Assim, no contexto subjetivo da memória, fios invisíveis costuram os matizes e vertentes da emoção e da alma numa revivescência que permite colocar, ora um pé lá, no passado, e ora outro pé cá, no presente, numa única percepção de realidade.

Evocando o tempo-espaço de Paranaguá, o berço da história e da cultura do Paraná, Leôncio Correia, poeta e primo de Leocádio Correia, meu bisavô, através das palavras do poema Minha Terra, retrata os personagens pitorescos da bucólica Paranaguá de antanho, contando as traquinagens das crianças no seu tempo de infância. Crianças da Família Correia, que crescidas, tornar-se-iam homens e mulheres de caráter e rígidos princípios éticos e morais e protagonizaram papéis relevantes na sociedade, na economia, na ciência e na cultura da História do Paraná.

Vivendo por mais de meio século longe de Paranaguá, Leôncio jamais esqueceu sua terra natal. Na maturidade, num toque de amor a Paranaguá, escreve um dos seus mais belos poemas, onde descreve os personagens significativos que povoaram o imaginário da sua infância na metade do século XIX. 

Paranaguá em poesia é som, palavra e ritmo. As imagens poéticas bailam nas ondas sonoras das palavras. Através do ritmo tornam-se linguagem-som. Instantes de melodia e cadência poética. Imagem. Ritmo. Temporalidade.

                   MINHA TERRA

                    Ai! A doce tristeza evocativa

                    De Paranaguá

                    Onde outrora, uma cativa

                    Me adormecia cantando

                    Histórias, em um tom dolente e brando

                    Do Saci-pererê, do Boi-tatá;

 

                    Pelas ruas despovoadas

                    Crescia o capim

Entre as grêtas das calçadas

Nas quais, de um burro manso com o ajutório

Rolava a carroça dágua do tio Gregório

Dlin… dlin… dlin… dlin…

 

Com uma opa branca, chegada a roxo,

De sacola na mão,

À porta de cada casa o Juca Coxo

Gritava com claro acento:

“Pra cera do Santíssimo Sacramento

Meu irmão!”

 

A bandeira do Espírito Santo

-Taran… tan… tan… Taran… tan… tan…

Pelas ruas colhia canto a canto

A esmola para a modesta Festa

Do sublime mistério da alma cristã.

 

O mestre Inácio, rezador de terço

Moreno, e rosto de pelo nu

Como a cabeça… era do meu berço

Um símbolo da vida simples e boa,

Com a eloquência horteloa

Do João Tatu

 

Joaquim Cândido Correia, dia a dia

Alma de justo, coração de escol,

Velhinho, junto à igreja da Ordem ia

Num delicioso martirológio,

Acertar o seu relógio

Às doze horas, pelo sol.

 

Comandante, passo firme, tele-tefe.

O Comendador Guimarães

Depois Barão, Visconde de Nácar, chefe

Jamais derrotado na liça Ia ouvir missa

Na matriz, aos domingos, com seus capitães.

 

Ou da ciência manejando o gládio

O doutor Leocádio,

Ou da bondade semeando a semente

Era sempre a esperança do doente,

E da pobreza o anjo consolador.

 

O Caetano Pitada

Mestre da banda regional,

Acompanhava a missa cantada

Com sua charanga harmoniosa

Ou atacava, briosa,

Músicas de sabor canonical.

 

Fui um discípulo inquieto

Das duas escolas do lugar,

Aprendi com o professor Cleto

A ler e escrever corretamente,

Porém, foi o mestre Décio – tão paciente! –

Que me ensinou a soletrar.

 

Às vezes – pecado! –

Da casa paterna fugi:

E como era endiabrado,

Viajava para Antonina

– Uma viagem clandestina –

No vaporzinho Marumbi.

 

À noite, pelas ruas da cidade,

Grupos divertidos tocavam berimbau.

E dos lampiões de querosene à frouxa claridade

Esmolava a Belisanda, porta a porta.

E seguindo-lhe a figura hostil e torta,

A garotada a apupava – fiáu! fiau!

 

A velha Alfândega de paredes sujas

Outrora edifício conventual,

Onde, à noite, as corujas

Soltavam pios mal afinados,

Encolhidas nos telhados

Em que crescia o matagal…

 

Colhia, aqui e ali, goiabas,

Camarinhas e araçás, um saco a tiracolo;

E ia comer as jabuticabas,

Quando o sol descia ardo,

– E que boas, assim verdes!

 – na chácara do Leonardo

Lá para os lados do Paiol.

 

O Campo Grande se estendia

Com um mar verde, e, em cima, azul

O céu – essa bacia

Em que se lavam as estrelas…

– E que lindo era vê-las,

Formando o Cruzeiro do Sul!

 

O cemitério do Palmital ficava aquém.

 – o porto silencioso do mistério,

No qual a nau da Vida ferra o pano,

Cercada do imortal, profundo arcano

Que o grande Deus em suas mãos retém!

Na Fonte Nova, as lavadeiras

– Á boca sempre uma canção –

Ensaboavam peças inteiras,

Enchendo de espumas as águas

Que diziam suas mágoas

Nas longas tardes de verão.

UM POUCO DA HISTÓRIA DO POETA DO AMOR

Leôncio correia nasceu em Paranaguá no dia 01 de setembro de 1865 e viveu mais de cinquenta anos no Rio de Janeiro, onde faleceu em 19 de junho de 195???0, quase a completar oitenta e cinco anos. Filho de João Ferreira Correia e Carolina Pereira Correia  ficou órfão aos seis anos, e foi acolhido pelos tios, personagens célebres do campo político local e nacional, tendo tido como patrono o Comendador Ildefonso Pereira Correia, principal empresário ervateiro do estado (do Paraná) e irmão do Senador Correia, alto funcionário do Império e com ampla inserção na Corte.

Após os primeiros estudos em Paranaguá, depois de moço transferiu-se para o Rio de Janeiro para completar sua formação acadêmica.

Foi advogado, escritor, jornalista, poeta, educador e político. Exerceu cargos de diretor da Instrução Pública do Rio Janeiro, diretor do Colégio Dom Pedro II, diretor da Imprensa Nacional, diretor do Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Foi deputado federal e estadual pelo Paraná.

Leôncio Correia foi o pioneiro na homenagem ao Dia da Bandeira: em 1907, ainda diretor da Instrução Pública, tornou obrigatória nas escolas primárias a Festa da Bandeira.

Apesar de ter sido formado em Direito por uma faculdade em Niterói, nunca chegou a exerceu a advocacia e a magistratura. Sempre foi um defensor da liberdade pública. Publicou diversos livros ao lado de Machado de Assis, Olavo Bilac e outros representantes da literatura nacional.

Membro da Academia Paranaense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, da Academia Carioca de Letras, da Federação das Academias de Letras, no Instituto Brasileiro de Cultura, e outras instituições literárias. Foi aclamado como Patrono na fundação do Centro de Letras de Paranaguá em 1960.

A imprensa diária do Rio de Janeiro tratava largamente da vida pública e literária do eminente brasileiro e primoroso poeta, cuja existência tanto engrandeceu as letras nacionais. Republicano histórico, tendo tomado parte na campanha abolicionista, começou a sua vida pública muito moço, no Paraná, seu Estado natal, onde se bateu pela implantação da República. Foi deputado estadual no Paraná, de 1892 a 1897, deputado federal, diretor da Instrução Pública do Rio de Janeiro, diretor do Colégio Pedro II (Internato), diretor da Imprensa Nacional. Durante muito tempo lecionou História Universal na Escola Normal (hoje Instituto de Educação do Rio de janeiro), da qual foi, mais tarde, Diretor. Na política, na imprensa e na tribuna, foi sempre um defensor das liberdades públicas. Era formado em Direito, mas não abraçou a advocacia nem a magistratura. Ao lado de Machado de Assis, Olavo Bilac, Paula Ney e outras brilhantes figuras das letras, desenvolveu grande atividades literárias.

Inegavelmente, sua carreira literária é uma das mais fulgurantes e fecundas do Brasil. Era membro da Academia Paranaense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, da Academia Carioca de Letras, da Federação das Academias de Letras, no Instituto Brasileiro de Cultura, e outras instituições literárias.

RELIGIÃO

Leôncio Correia era espírita. Em 1922 entrou para o Congresso Espírita no Rio de Janeiro. Pertenceu ao Conselho da Associação Espírita Obreiros do Bem, e se tornou presidente da Liga Espírita do Brasil (atual Liga Espírita do Estado da Guanabara). Além disso, foi presidente da Liga Espírita do Brasil – atual Liga Espírita do Estado da Guanabara – no triênio 1939-1942.

No dia 15 de Novembro de 1939, na Associação Brasileira de Imprensa, quando se comemorou o cinquentenário da República Brasileira, Leôncio Correia ocupou a presidência de honra do 1º Congresso Brasileiro de Jornalistas Espíritas.

Vivendo na época crepuscular da ditadura no Brasil não havia liberdade de imprensa, liberdade crítica, nem mesmo liberdade religiosa. As sociedades espíritas estavam sob fiscalização policial. Leôncio Correia como presidente da então Liga Espírita do Brasil foi convocado a comparecer á Polícia Central para efetivar registro porque a censura do regime proibia todas as formas de liberdade do pensamento.

Mesmo sem ter condições de cumprir com seus deveres, Correia participava de tudo o que lhe cabia, foi até a Repartição Policial e deixando suas impressões digitais para serem marcadas como Presidente da Liga Espírita.

Leôncio Correia, já velho, com sua expressão respeitável, não faltou ao cumprimento do dever, foi à repartição policial, e lá deixou as suas impressões digitais, na qualidade de presidente da Liga Espírita. O funcionário da Polícia, um tanto espantado, exclamou, com certo ar de estranheza: “Dr. Leôncio, por aqui? ! E Leôncio Correia, sem perder a sua serenidade imperturbável, respondeu humildemente: “Que vou fazer, meu amigo? São ordens …”

Na evolução da sua vida expressa todas as manifestações de amor, permanecendo fiel à sua essência, fortificando-se e purificando-se, indo do amor á natureza, á Paranaguá – sua terra natal – ao Paraná, ao Brasil, á mulher, mãe, amada, á pura, á casta, em amor inatingível, platônico, a Jesus, ao Criador, a Deus, a Deus Cósmico.

Manejou com maestria as poderosas armas da literatura, seja na tribuna, na imprensa, no parlamento, no magistério e nos altos postos da vida administrativa do país. Sagrou-se como soldado-poeta nos ideais de humanidade e justiça no conturbado período da História do Brasil no final do Século XIX, tendo participado ativamente dos movimentos abolicionista e republicano.

Evoca a partida da sua terra natal numa das mais belas composições, na forma austera do verso alexandrino, de que tanto usou e em que foi um mestre consumado. Em outro poema confessa:

O CICLO DO DESTINO

Moço, assim abalei. Castelã e castelo

Venci num ato heroico. E, dentro desse anelo,

De sonho em sonho, vim rolando até aqui.

 

E o castelo a recuar… Sempre a fugir… aos trancos,

Volto, sem elmo, e sou com os meus cabelos brancos,

O mesmo sonhador do dia em que parti!

 

Leôncio Correia, conhecido como o Poeta do Amor declara como profissão o seu amor á natureza e á poesia…

 

PROFISSÃO DE FÉ

“EU, de escolas não sei… Canto, como num ninho,

Ou no galho de uma árvore copada,

Gorjeia o passarinho

Ébrio do vinho de ouro da alvorada.

 

Ridículo aos meus olhos não me julgo

Se acaso digo que não me envergonho

Do pranto que derramo, ou da dor que divulgo

Entre a poeira dos astros e do sonho.

E que alma, de não ser, pode gabar-se

O escrínio de uma dor profunda e sombria?

Por isso eu dou à lágrima o disfarce

De uma harmonia

                    ……………………………………………………………………….

Quando em minha alma escuto o canto lindo, logo

Reponta o luar do Sonho…

Concentro-me, medito, monologo,

Componho…

 

Como o divino intérprete de tudo

Que faz a pura glória do Universo,

Há uma voz de luz e de veludo:

– O Verso.

 

O Verso é uma alma que chilreia e fala

E ante a qual o bom Deus, após fazê-la,

Estático quedou a olhar o seu fulgor;

Como uma ave gorjeia e como o raio estala,

Fulgura como o sol, enleva como a estrela,

Perfuma como a flor.

 

Espiritualiza, orna, sublima

Como o sonoro carrilhão da rima

O que é vulgar:

Dá voz aos ventos, faz cantar o abismo,

Enchendo de mistério e misticismo

A alma – tão fria – do clarão ao luar!

 

Ou como um doce riso ou pagando o tributo

À dor ultriz,

Do Verso a Ideia sai como um canário louro,

Como uma abelha da colmeia do ouro

Como da flor o fruto,

E da boca inocente a prece que bendiz.

 

O Verso é a alma imortal da Natureza:

Dentro do metro da canção

Cabe o mar, cabe o céu, cabe toda a grandeza,

Cabe toda a beleza

Da Criação.”

 

Declara seu amor á sua terra natal, Paranaguá:

“Do meu berço as manhãs trago em minha alma,

E há, no meu coração, seu luar tranquilo,

E sangue do seu sol nas minhas veias.”

 

Na maturidade…

 

“Amei-vos sempre; e, agora, que a saudade

É a única testemunha, comovida,

Dos sonhos mortos da primeira idade,

Mais vos amo.”

 

Seguem-se outros versos intitulados “Ao Itiberê”, “Paranaguá”, “O Pinheiro”, “Curitiba”, entre outros.

Amou com ardor a sua pátria dedicando a ela um livro inteiro: “Brasilíada”, que contém poemas de caráter cívico como “O Hino Brasileiro!”, “A Bandeira”, “Meu Brasil”.

Na vida adulta a sua maior produção é o seu amor dirigido a saudar a mulher, mãe, exaltada, a mulher amada, tangível aos sentidos, de reações e atitudes humanas, á mulher casta, pura, inatingível, constantes dos poemas em “Frauta de Outono”.

          Na sua época o poema “Mãe” era tão conhecido com o Ouvir estrelas de Bilac e Mal Secreto de Raimundo Correia. Todos sabiam de cor o seu poema:

 

                    “Tu, que a vida me dando, mãe, me deste

                    Me deste parte da tua, e o teu amor, que enlaça

Meu ser, como uma faixa azul celeste:

Sei que darias, com um sorriso doce,

Para salvar teu filho da desgraça,

A própria vida, se preciso fosse…”

 

Na sequência encaminha-se para o amor da mulher com atitudes humanas e mais tarde se dirige para o ideal da mulher transcendente e sublime, etérea e imaginada, como a purificação do amor romântico na concepção platônica. Primeiramente, a mulher de atitudes terrenas:

            “Mais bela anda do que antigamente

            Vejo-te agora; as formas mais harmoniosas

            E a correção das linhas graciosas

            De flor de carne, amorenada e quente.”

 

            Depois, o deslumbramento da mulher etérea:

 

            “Passas, e um sulco luminoso deixas

            Por onde linda e saltitante, passas,

            …………………………………………………….

 

Sobre a mulher pura:

 

            “De que astro um raio te serviu de escada

            Para a terra baixares, linda e pura,

            Porém de tal pureza, que depura

            As almas vis de crimes carregadas?!”

           

Á mulher inesquecível:

 

            “Dos meus sonhos foi ela a redourada messe,

            Das flores que aspirei a de melhor fragrância.”

 

Pertencem a esse período: “Amor Sagrado”; “Teu Nome”; “Morte e Amor”; “Não partas”; “A Sua Passagem”; “In Excelsis”, entre outras.

O poeta segue ascendente rumo esferas mais puras, afastando-se da Terra. A mulher divinizada cede lugar ao amor maduro e espiritual: o amor à humanidade, a Cristo, a Deus, e na última fase atinge o Amor-Total, o Amor Cósmico e realizado.

            “Jesus! Vós que espalhais da crença a messe,

            – Da alma humana solicito pastor –

Na boca, que blasfema, ponde a prece

No coração, que odeia, ponde o amor.”

 

Lapidando seus sentimentos Leôncio Correia extravasou o amor purificado em seu estado imaterial e atemporal, declarando-se um enamorado da luz e do sol.

“O sol – pulverizador de ouro – pulveriza,

De ouro mais vivo e cintilante, a terra,

………………………………………………………….

A paisagem bebe a luz em largos haustos.”

Por ironia do destino no final de sua vida, completamente cego, escreve um poema que é um hino de luz, alegria interior, realização artística e realização humana. Encontrou na poesia o bálsamo consolador das suas angústias, em embargo das suas inquietações metafísicas, canta o amor ao Criador, a Deus como testemunha e juiz, ao Deus Cósmico.

Ao final da jornada, no poema “NA ANTEVISÃO DO AMANHÔ, pronuncia uma súplica:

“O sofrimento me tornou piedoso

E pôs-me um doce luar no coração…

Bem o sabes, Deus misericordioso!

Para o bem me fez – ao bem me coso,

Para o que o mal me fez – dou meu perdão!”

 

Apaixonado pela natureza Inúmeros jornais, revistas e os meios de comunicações anunciaram o falecimento do republicano ardoroso e espírita incondicional que deixava profunda lacuna entre amigos, parentes e estudantes.

Todos salientavam a inteligência e a cultura do mestre Leôncio Correia como filósofo e sábio aplicador político; desbravador sensível dos assuntos mais comprometedores perante a Humanidade. Sabia se fazer presente em defesas difíceis, sem ofender a ninguém.

Estudos feitos por vários professores, buscando fatos históricos sobre a vida de Leôncio Correia, constataram na Ilha de Guaratiba, situada na zona oeste do Rio de Janeiro, precisamente na Avenida Gaspar de Lemos, 342, uma escola que consta em sua fachada o nome Escola Municipal Leôncio Correia, dado também como patrono da mesma. No passado essa escola era conhecida como 12ª Escola do 26º Distrito, que fora fundada em 02 de maio de 1933, na administração do Professor Anísio Teixeira quando diretor da Instrução da Educação Primária, do então Distrito Federal.

Leôncio Correia também era grande defensor das plantas. Costumava ressaltar aos estudantes a importância do verde e a tratar com carinho os parques onde as árvores frondosas pudessem ser admiradas e respeitadas. Por esse motivo foi citado como um dos criadores do Dia da Árvore.

Em sua homenagem foi criado o Instituto Leôncio Correia, que funcionava com o ensino primário e admissão, localizado na rua Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

Muitas foram as homenagens que se seguiram após o desencarne de Leôncio Correia salientando a figura forte e segura que sempre demonstrou durante a sua estada terrena. Fazendo parte dessas atitudes de reconhecimento aos fartos atributos a ele, o governador do Estado do Paraná, o senhor Bento Munhoz da Rocha, por ocasião do 1º Centenário do Estado do Paraná, mandou editar as Obras Completas de Leôncio Correia, prefaciadas pelos mais famosos literatos da época, como: Rodrigo Otávio Filho, Andrade Muricy, Othon Costa, entre outros. Todos enaltecendo os grandes méritos do paranaense que ficaria para sempre no coração do povo, não só do Estado do Paraná, como também, daqueles que mantiveram-no como leal amigo e sábio orientador doutrinário. Ainda no Estado do Paraná, mais exatamente em Curitiba, foi fundado, em 1941, o colégio estadual que recebeu o nome de Leôncio Correia. O projeto arquitetônico desse colégio foi realizado no governo de Moysés Lupion.

 

Leôncio antevendo o final da vida escreveu vários poemas. Apaixonado pela natureza terminou seus dias privado da visão. Com grande serenidade diante da morte confessou que chegara ao termo da trajetória na terra, “sem sobressaltos dolorosos de consciência”.

 

FIM DE JORNADA

 

            “Quase ao termo de longa caminhada

E medindo a extensão da rota obscura

Eis que a saudade amenizar procura

A exaustiva fadiga da jornada.

 

Cai a sombra da tarde! Da alvorada

Já tão longe! Há vestígios da luz pura

Que no pomar dos risos amadura

Dos frutos bons a safra abençoada.”

 

Os sofrimentos nos seus últimos anos de velhice não aquebrantaram a serenidade do seu espírito. Essa tranquilidade transluz surge no seu último soneto que ele mesmo denominou:

CANTO DO CISNE

 

                    Cego – completa escuridão… Tateio

Sem um velho cajado a que me arrime,

Expiação, talvez, de um grande crime,

Mas, onde, quando e como pratiquei-o?

                    Das aves ouço o matinal gorjeio…

                    Invejo-as, e essa nobre inveja exprime

Uma resolução firme e sublime

De encarar a hora extrema sem receio.

Ao Pai celestial Minh ‘alma entrego,

Às margens quase da outra vida, cego,

Mas abrasado de infinito amor.

 

Pelo bom Deus, que me concede ainda,

Quando a minha missão na terra finda,

Esta bendita luz interior.”

         

Sobre o seu livro de poesias preferido, “Frautas de Outono," confessou: “Este livro é toda a minha vida”. Na realidade, as suas páginas comprovam o sentido humano e a profunda grandeza de sua alma e de seu coração, que o consagraram e o imortalizaram na literatura brasileira. Repito o dito de Horácio, nas suas Odes – non omnis moriar.Porque com um livro assim, ninguém, em verdade, morre completamente. (Othon Costa, em Prefácio de “Frautas de Outono”, Rio de Janeiro, 1954).

 

O falecimento de Leôncio Correia, em 19 de junho de 1950, pouco antes de completar 85 anos  foi registrado por toda a imprensa do Rio de Janeiro,  como o eminente brasileiro cuja existência engrandeceu as letras nacionais. Abolicionista e republicano histórico teve sua vida pública e literária amplamente enaltecida desde a sua mocidade.  Foi deputado estadual no Paraná, de 1892 a 1897, deputado federal, diretor da Instrução Pública do Rio de Janeiro, diretor do Colégio Pedro II (Internato), diretor da Imprensa Nacional. Durante muito tempo lecionou História Universal na Escola Normal (hoje Instituto de Educação do Rio de janeiro), da qual foi, mais tarde, Diretor. Na política, na imprensa e na tribuna, foi sempre um defensor das liberdades públicas. Era formado em Direito, mas não abraçou a advocacia nem a magistratura. Ao lado de Machado de Assis, Olavo Bilac, Paula Ney e outras brilhantes figuras das letras, desenvolveu grande atividades literárias. Correia, prefaciadas por nomes ilustres da nossa literatura, como Rodrigo Otávio Filho, Andrade Muricy, Othon Costa, entre outros, todos o enaltecerem sob vários aspectos, a fecunda existência daquele paranaense inesquecível.

Em sua homenagem, fundou-se no Jardim Botânico o Instituto Leôncio Correia, conceituado estabelecimento de ensino primário e admissão.

O ilustre poeta elevou o nome do Paraná tornando-se conhecido como uma das grandes figuras da tribuna e da imprensa. O seu amor a sua terra ficou eternizado quando afirmou: O meu desejo sempre foi diariamente ouvir o nome do Paraná falado, criticado, caluniado, elogiado, combatido, defendido, motejado, engrandecido, malsinado, mas nunca esquecido!

A sua passagem pelo parlamento, pelo magistério e pelos altos postos da vida administrativa sempre foi com brilho e dignidade. Mas destacou-se na cultura na arte literária.

Claudio Murilo publicou em 1957 um livro denominado Leôncio Correia, Poeta do Amor. Sua poesia revela sua alma impregnada de ternura e sentimento. Foi o seu sonho da mocidade e o seu refugio nos dias melancólicos da velhice. Era um homem profundamente humano que sabia amar todos os seres. Amava as cidades, amava a natureza. A esplendida natureza de sua terra natal. Vivendo mais de 50 anos no Rio de Janeiro jamais esqueceu sua terra natal cantada no poema “Minha Terra” onde traduz com eloquência as reminiscências da sua infância vivida em Paranaguá.

Othon Costa no prefacio de “Frauta de Outono” afirma que se pode dizer Leôncio foi carioca pelo espirito e paranaense pelo coração. Parecia rever na majestosa baia da Guanabara a beleza nativa da baia de Paranaguá. Enamorado da luz e do sol eram duas portas abertas para o Atlântico e para o seu destino. A sedução da metrópole não conseguiu apagar do seu coração, as vivíssimas reminiscências de sua cidade natal, aquela encantadora e tranquila cidade plantada à margem do rio Itiberê, cujas águas límpidas ficaram para sempre a murmurejar na suave sonoridade de seus versos.

No prefácio de Frauta de outono, seu livro de poesias. Othon Costa afirmou: Este será o grande livro de Leôncio Correia. Porque com um livro assim, ninguém, na verdade, morre completamente. Ele mesmo confessou: “Este livro é toda a minha vida”.

 

OBRAS

Deixou diversos livros publicados, dentre os quais estes: Barão do Serro Azul, A Boêmia do Meu Tempo (crônicas), Brasiliada (poema), Evocações (crônicas), Frauta de Outono (poesias), Panóplias (crônicas), Perfis (sonetos), A Verdade Histórica sobre o 15 de Novembro, Meu Paraná (crônicas e versos), Vultos e Fatos do Império e da República (ensaio), Parlendas e Palestras (discursos), entre outras.

 

No plano espiritual, além das fronteiras da morte o poeta continua, vez por outra, a nos deleitar com suas magníficas produções. Uma delas está publicada no “Parnaso de Além-Túmulo“, obra mediúnica de Francisco Cândido Xavier. Para encerrarmos esta singela biografia permito-me reproduzir um poema psicografado pelo Chico Xavier e que foi estampado, em 1955, nas páginas do “Reformador”:

RESSURREIÇÃO

 

Triste viajante na floresta escura,

Tateando na estrada erma e sombria,

Alcancei a aflição do último dia,

Esmagado na sombra da amargura…

Mas, além do pavor da sepultura,

Eis que a paz novamente a graça da alegria,

E, ave exalçando a graça da alegria,

Embriaga-me a luz vibrante e pura!

Glória às dores da vida transitória!…

Não traduzo o meu grito de vitória,

Por mais que a minha fé se estenda e brade;

Cego que torna a ver, além do mundo,

Canto somente a luz de que me inundo,

Nos caminhos de sol da eternidade.

(WANTUIL, Zêus, Grandes Espíritas do Brasil. FEB, 1ª edição. RJ, 1955,

HOMENAGENS

Homenagens – Como parte das comemorações do 1º centenário do Estado do Paraná, o então governadorBento Munhoz da Rocha a mandou editar as Obras Completas de Leôncio Correia, prefaciadas por nomes ilustres da literatura brasileira, como Rodrigo Otávio Filho, Andrade Muricy e Othon Costa, entre outros.

 

Selo comemorativo emitido pelo ECT Correios e Telégrafos por ocasião do centenário de sua morte.

 

No Centro Histórico de Paranaguá encontra-se a Biblioteca Leôncio Correia e uma Escola de Educação Integral com o seu nome.

Os restos mortais de Leôncio Correia estão no Panteão do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá ao lado da poetisa Julia da Costa.

Em  Curitiba, no bairro Bacacheri encontra-se o majestoso prédio do Colégio Estadual Leôncio Correia, fundado em 1941, com Ensino Fundamental e Ensino Médio. O projeto arquitetônico foi concebido no governo deMoysés Lupion  que adotou a linguagem neocolonial e a clássica configuração em "U".

A Biblioteca Pública do Paraná em Curitiba-Pr possui as obras de Leôncio Correia disponíveis no segundo andar reservado a autores paranaenses.

Referências

– Esses moços do Paraná – Livre circulação da palavra nos albores da República – Silvia Gomes Bento de Mello, 2008.

– Imprensa e Política no Paraná: Prosopografia dos redatores e pensamento republicano  no final do século XIX: Amélia Siegel Corrêa, 2006.

– Galeria de ontem e de hoje: Livro primeiro da galeria de ontem. David Carneiro, editora Vanguarda, 381, 382.

– Leôncio Correia, Poeta do Amor. Caudio Murilo. Editora Prata da Casa Curitibana, 1957.

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