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Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá

CORMORANT - Segunda Parte

21 de setembro de 2019

Em Paranaguá, a população revoltou-se contra a quebra da soberania nacional, em parte incentivada pelos que lucravam com o comércio de escravos, outro grupo era formado pelos jovens movidos pelo sentimento nacionalista. Um grupo, a maioria homens dos navios apresados se dirigiu à fortaleza da Ilha do Mel e solicitou o apoio do capitão comandante da guarnição para lavar a honra do Brasil. Juntos colocaram a bateria composta por doze canhões, que não estavam em condições para funcionar.

Por volta de nove horas de 1.° de julho de 1850, o Cormorant estava passando ao largo da Fortaleza da Ilha do Mel, em direção à saída da baía, rebocando os navios apreendidos. O comandante da fortaleza enviou um escaler para interceptar e entregar um ofício solicitando a liberação dos barcos brasileiros e que se isso não fosse aceito, abririam fogo. O escaler não conseguiu entregar o ofício. Ao se aproximar, o barco inglês executou um tiro de pólvora seca. Entendendo como uma agressão ao escaler, os homens que estavam na fortaleza atacaram a corveta britânica na hora que esta saía da baía rebocando os navios apreendidos.

Após aproximadamente 40 minutos de bombardeio recíproco, o Cormorant, que tinha poder de fogo maior que a fortaleza e não usou totalmente, preferiu rumar para a enseada das Conchas para consertar as avarias. Para escapar com maior rapidez, incendiou dois navios apreendidos e guareceu o terceiro, rumando para Serra Leoa. Os tiros dos brasileiros acertaram o cruzador e um dos navios rebocados, matando um marinheiro inglês e ferindo gravemente outro. Na fortaleza, apenas feridos leves.

A repercussão do incidente foi curiosa. O Presidente da Província do Paraná elogiou oficialmente a guarnição da fortaleza e os civis que participaram do combate. No entanto, o Governo Imperial do Brasil, por motivos políticos, teve que se retratar perante a Inglaterra e o capitão Joaquim Ferreira Barboza, comandante da fortaleza, foi rebaixado de posto.

No Paraná, o episódio contribuiu para o aumento do sentimento separatista em relação à Província de São Paulo e selou a união de Paranaguá e Curitiba neste objetivo comum. Até então, as duas cidades mantinham uma rivalidade pela liderança na região, dividindo forças, o que impedia que o movimento emancipacionista tivesse sucesso. O Paraná conseguiu sua emancipação três anos depois, em 1853.

Como consequência ao episódio Cormorant, era necessário acalmar os ânimos britânicos através de alguma ação prática ou a situação poderia terminar num conflito naval entre os dois países. O ministro da Justiça, Eusébio de Queirós, apresentou um projeto de lei extinguindo o tráfico negreiro de forma definitiva. Dois meses após o combate em Paranaguá a lei foi aprovada. O Brasil também, passou a patrulhar as águas territoriais com a Marinha Brasileira. Apesar de que, na prática, essa lei e esses patrulhamentos também se tornaram algo “para inglês ver”, porém, é considerado o primeiro grande passo em direção à abolição da escravidão no Brasil.

 

João Carlos Santos Rocha

Diretor de História - IHGP

 

 

 

 

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