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Novo presidente do IHGP quer buscar recursos para restauração do prédio

27 de janeiro de 2019

Diogo Rodrigues Alves falou dos projetos e do raro acervo que está no espaço

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O artista plástico e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP), Diogo Rodrigues Alves, é natural de São Paulo, mas logo que se mudou para Paranaguá se encantou com a riqueza histórica e artística do município, que é berço da civilização no Paraná. Sua trajetória profissional passa por diretor de arte em agências de publicidade, montou ateliês em Curitiba e, já em Paranaguá, trabalhou com restauro, deu aulas e se integrou definitivamente com a cidade. Em suas palavras, “Paranaguá é um celeiro de muitos talentos de vários segmentos” e, junto com outros artistas, passou a configurar a cena cultural se tornando referência. 

Neste mês, assumiu a presidência do IHGP. Com muitos projetos e atividades em mente, em especial com a ideia de restaurar o prédio do Instituto, assim como os acervos, Diogo busca formas de angariar recursos e tornar o local ainda mais visitado. Confira:

Folha do Litoral News: Quais atividades e projetos do IHGP estão em andamento?

Diogo: O Instituto passou por uma fase, como todo mundo, um tanto quanto delicada que foi muito bem administrada pela Guadalupe Vivekananda. Tanto que estou recebendo o Instituto tudo certo, com a documentação perfeita. Estamos atualizando agora o título de utilidade pública, tivemos uma reunião com o prefeito com vistas a formatar um convênio, pois o Instituto tem sócios, mas na verdade quem ajuda financeiramente são os sócios que fazem doações. Estamos estudando a possibilidade de contribuição de mensalidade dos sócios para auxiliar na manutenção dos custos básicos. Paranaguá, por ser uma cidade litorânea, sofre com a maresia, que é muito prejudicial ao patrimônio histórico, por isso a conservação preventiva que envolve o Centro Histórico tem que ser constante. Para isso precisamos de técnicos, o que tem custos. Paralelo ao IHGP estou à frente da associação Balaio das Artes, que agrega os artesãos e artistas do município há pouco mais de um ano. O nosso objetivo é desenvolver um projeto, tentar viabilizar pela Lei Rounet, para iniciar um processo de restauro do IHGP, como um todo. Há alguns anos, quando a Fundação Municipal de Cultura ainda existia, nós tínhamos uma dotação orçamentária anual como as associações sem fins lucrativos tinham, o que nos ajudava a fazer essa manutenção preventiva, pintura do prédio, conservação das janelas, substituição de telhas, entre outras coisas. Quando a fundação foi extinta, esses recursos foram interrompidos, por uma dificuldade de documentação do próprio instituto. A professora Maria Helena Nízio conseguiu apoio de algumas empresas com recursos para poder fazer algumas coisas. Porém, se fizermos uma análise do Instituto e do Museu da Imagem e do Som, que funciona na sede do Instituto, temos mais de cinco mil itens, que precisam de conservação. Boa parte está exposta, temos uma necessidade de fazer uma revisão de tudo isso, uma nova catalogação do que já existe, precisamos buscar recursos de alguma forma para desenvolver esse processo de conservação preventiva e alguns restauros. Por exemplo, nós temos 18 obras de arte, retratos pintados, que pela paleta de cores pintados por Alfredo Andersen e Rafael. Ou seja, precisa haver um processo de limpeza contínuo para que este acervo permaneça intacto. Se formos levar em consideração que o acervo do IHGP é a memória do município de Paranaguá, vemos a importância dentro de todo esse contexto. 

Folha do Litoral News: Em todo esse tempo que frequenta o IHGP, já se surpreendeu com algum objeto ou documento que encontrou?

Diogo: Sim, sem dúvida. Temos a assinatura de Dom Pedro II em um livro de presença do Clube Literário. Tem móveis do século XVII e XVIII, a chave de ferro da ermida de Nossa Senhora das Mercês, na Ilha da Cotinga, de 1699; tem garruchas, espadas, uma coleção de imagens da arte sacra; uma coleção de pesos que se utilizavam no porto; a urna que fez o translado dos ossos de Leôncio Correa do Rio de Janeiro; além de uma biblioteca maravilhosa. O Museu de Imagem e do Som tem fitas cassetes, vários aparelhos, registros fonográficos de pessoas que não estão mais conosco que os visitantes podem ver lá.

Folha do Litoral News: Então o acervo pode ser referência para diversas áreas profissionais e também para acadêmicos.

Diogo: Sim, arquitetos, historiadores, estudantes, acadêmicos que estão defendendo teses. O espaço tem sido bastante utilizado, durante os meses de dezembro, janeiro e fevereiro, é muito visitado por turistas. Estamos estudando um convênio com a prefeitura para ter uma pessoa para ficar todos os dias, mas atualmente abrimos às segundas, quartas e sextas-feiras, das 13h30 às 17h. Quando algum historiador precisa, ele nos solicita e marcamos um horário. Recebemos muitas pessoas de fora, vamos receber agora uma pessoa que está defendendo uma tese de mestrado em Brasília. O Instituto é internacional, porque recebe pessoas de todos os países da América do Sul, Europa, que são turistas e pesquisadores, que encontram em Paranaguá o que não encontraram em outros lugares. Se pensarmos que Paranaguá é o berço da civilização e que boa parte dessa história está guardada no Instituto, temos muita coisa digitalizada em uma computador, em que um pesquisador pode ter acesso ou entrar no site do IHGP. 

Folha do Litoral News: Os pesquisadores dão muito valor ao espaço, é preciso também mais envolvimento da comunidade para continuar o trabalho?

Diogo: Estamos pensando em uma forma simpática e singela para integrar a comunidade. O Instituto completou 87 anos, foi fundado em 26 de setembro de 1931 e até hoje mantém o foco, que é investigar a rica história e geografia de Paranaguá. O que eu vejo na cidade, desde que comecei a atuar na área, é a falta de técnicos, pessoas especializadas na área. Eu como artista, sempre me interessei por restauro, quase como autodidata na área, tenho feito alguns trabalhos de conservação preventiva, mas quando vem algo muito complexo, não temos um técnico para isso. Temos que contatar em Curitiba, mas tem um custo, que não é pequeno, porque a grande maioria desses materiais utilizados, seja papel, pedra, tela ou madeira, é um material caro, são produtos químicos às vezes importados. Essa conscientização faz falta e Paranaguá por ter essa carga histórica, quase um museu a céu aberto, pois se andarmos olhando para o chão temos uma história em Paranaguá, se olhar no nível do olhar, temos outra história, se olhar para cima na Rua Quinze de Novembro, por exemplo, ou mesmo na Rua da Praia temos outra história. A simbologia que está exposta em Paranaguá é riquíssima. Na Rua Conselheiro Sinimbu, por exemplo, temos uma tampa de, aproximadamente, 30x20 cm com um registro de água feito na Inglaterra. Perto da Igreja Matriz, temos uma tampa de esgoto de 1914. Temos azulejos portugueses, influência Moura, Árabe entre outras nacionalidades e origens. O que falta em Paranaguá é uma falta de pertencimento, a grande maioria da comunidade, cerca de 30% é daqui e o restante é de fora, que não criou vínculo com a cidade. Eu criei esse vínculo porque estou dentro do conceito do belo, eu atuo nessa área, a minha visão é outra. Estou no conselho do patrimônio histórico, no conselho de cultura. Aprendi a ter esse pertencimento e é uma forma de gratidão pelo que conquistei aqui no meu lado profissional. Queremos manter o que já foi feito pela gestão anterior e procurar um novo aprimoramento nesse contexto, buscar desenvolver um restauro no prédio, criar uma reserva técnica, fazer uma área de exposição mais limpa, onde possa haver exposição temática, com palestras a respeito dos temas, movimentar o espaço. O IHGP merece esse carinho, basta vermos a comoção após o incêndio no Museu do Rio de Janeiro, quanto da história do Brasil foi perdida. O nosso Instituto Histórico não tem só a história de Paranaguá, tem a história do Paraná e, se formos menos humildes, temos com certeza uma participação na história do Brasil, pela representatividade que o porto e a história de Paranaguá têm em épocas passadas, quando a cultura parnanguara era vista com outro olhar. 
 

 

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