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Inclusão dos surdos é uma realidade na educação em Paranaguá

28 de setembro de 2019

Professora Gisele possui 22 anos de atividades junto à comunidade surda do litoral.

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A professora Gisele Cuch é natural de Paranaguá e sempre demonstrou interesse pela educação especial. Após concluir o magistério no Instituto Estadual de Educação Dr. Caetano Munhoz da Rocha, local onde trabalha, se especializou na educação especial.

Graduada em História, cursou pós-graduação em Educação a Distância, Libras e Educação Especial, incluindo todas as deficiências. Trabalha desde 1997 com surdos, sendo uma das primeiras professoras a atuar neste segmento no litoral do Paraná.

Nas últimas semanas, a professora participou e realizou várias atividades envolvendo o Setembro Azul. Trata-se do mês da visibilidade da Comunidade Surda Brasileira, fazendo com que sejam realizadas ações de conscientização e homenagens a essa população.

A professora Gisele é tradutora e intérprete de Libras. Atualmente, há leis em vigor que regulamentam a profissão e determinam a formação desse profissional. Uma dessas leis é a n.º 12.319 de 1.º de setembro de 2010, a qual regulamenta a profissão de Tradutor e Intérprete de Língua Brasileira de Sinais. É sobre os avanços na educação para surdos que ela fala nesta entrevista. Confira:

 

Folha do Litoral News: Como está a inclusão dos surdos na educação e no mercado de trabalho em Paranaguá?

Gisele: A inclusão dos alunos surdos na educação teve um grande avanço. Nós podemos ver que com a legislação de 2002 e o decreto de 2005 houve um bom avanço na questão da inclusão de alunos surdos nas escolas até mesmo nas universidades, pois eles têm apoio do tradutor intérprete de Libras. Já no mercado de trabalho fica mais complicado, porque ainda existem muita resistência e dificuldade das empresas em contratar o surdo pela questão da comunicação.

Folha do Litoral News: Qual a importância do conhecimento de Libras por parte da comunidade no processo de inclusão?

Gisele: É extremamente importante que a comunidade e a sociedade conheça e aprenda a língua brasileira de sinais. O sonho que nós temos seria que a disciplina de Libras fosse implantada desde a educação infantil e no Ensino Fundamental de 1.º ao 5.º ano para as novas gerações para as crianças já irem aprendendo de uma forma natural a língua brasileira de sinais ou, pelo menos, o básico. O Instituto Estadual de Educação oferta gratuitamente, através da Secretaria de Estado de Educação, o Centro de Línguas Estrangeiras Modernas. Nós temos agora a Libras, totalmente gratuito com certificado e resolução pela Secretaria de Estado da Educação. Quem quiser fazer, aproveita que as inscrições abrem em novembro. O curso dura dois anos.

Folha do Litoral News: Atualmente, os estabelecimentos de ensino estão preparados para receber os alunos surdos?

Gisele: Ainda há um grande caminho a se percorrer em relação à inclusão, porque falta adaptação de material destinado aos surdos e critérios diferenciados na avaliação de Língua Portuguesa. Nós precisamos melhorar isso para receber com mais efetividade os surdos nas escolas. Com o tradutor e intérprete de Libras e como essas adaptações curriculares vamos ter uma educação mais inclusiva.

Folha do Litoral News: As atividades alusivas ao Setembro Azul atingiram seus objetivos?

Gisele: Na verdade, as comemorações em relação ao Setembro Azul são sempre por parte da educação. Como vimos neste mês, a Escola Bilíngue para Surdos Nydia Moreira Garcêz realizou uma festa no dia 26, que é o Dia do Surdo. Toda a comunidade surda esteve reunida com familiares, professores, tradutores-intérpretes se confraternizando. Realizaram apresentações mostrando seus talentos. Mas não vemos isso ainda por parte da sociedade. Essas atividades do Setembro Azul ainda estão restritas na educação.

Folha do Litoral News: Uma lei foi aprovada pela Câmara de Vereadores em Paranaguá estabelecendo a obrigatoriedade de um intérprete de Libras nos eventos municipais. O que isso representa?

Gisele: A lei que foi estabelecida na Câmara, a qual aprova a presença do tradutor-intérprete de Libras nos eventos municipais e até mesmo nas sessões da Câmara, é um avanço muito grande. Ficamos felizes porque o surdo é um cidadão. Ele não está somente na escola, ele está no comércio, na saúde e em todos os segmentos. Ele necessita conhecer e saber as legislações do nosso município e para onde estão sendo destinados os recursos. Após essa aprovação vamos aguardar para ver como é que vai ocorrer na prática.

Folha do Litoral News: Quais foram os principais avanços obtidos na busca por uma sociedade mais igualitária nos últimos anos em Paranaguá?

Gisele: Temos visto alguns avanços em relação à inclusão. Não só de pessoas surdas como também com pessoas com deficiências no geral. Podemos citar a oficina de Libras, que é realizada no município para as crianças do Ensino Fundamental de 1.º ao 5.º ano. Isso já é algo que vem ocorrendo há alguns anos. Outro avanço que podemos citar foi a instalação de um parquinho no Aeroparque para crianças com deficiência. Desta forma eles passam a ter um espaço só delas. Isso é bacana porque querendo ou não muitas vezes as crianças precisam de um espaço reservado para que não se machuquem. Desta forma não ficam disputando os brinquedos com outras crianças.

 

Folha do Litoral News: Qual importância de Paranaguá manter uma escola para surdos como o CEDAP?

Gisele: A Escola Bilíngue para Surdos Nydia Moreira Garcez é extremamente importante para a comunidade surda porque desde cedo eles aprendem a língua brasileira de sinais, criando laços e fortalecendo sua própria identidade. Chegando lá, a criança percebe que existem outras que falam a mesma língua que ela. Na escola, eles encontram outras pessoas que sinalizam assim como ela. Essa questão da identidade se fortalece na escola pelo fato de oferecer a educação bilíngue que é a Língua Portuguesa e a Língua de Sinais. Isso é de extrema importância para o aspecto cognitivo e para o crescimento da pessoa surda. É a única escola do litoral que atua de forma específica na educação bilíngue para surdos. A escola merece uma salva de palmas.

 

 


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