Logotipo

Coordenadora de Núcleo de Prevenção fala de empoderamento da mulher e combate à violência 

20 de janeiro de 2019

Helenize Zanon destaca a importância da denúncia para se poder fazer um mapa da violência

Compartilhe

Helenize Zanon é Terapeuta Ocupacional formada há 30 anos pela Universidade Tuiuti do Paraná, com especialização na área psiquiátrica, tendo trabalhado com dependência química. Dentro de suas experiências profissionais, já trabalhou na Santa Casa de Misericórdia – Hospital Nossa Senhora da Luz em Curitiba e Casa de Saúde São Marcos – Clínica Vale dos Pinheiros em Cascavel.
Dentre os cursos realizados estão Capacitação para Executores em Teste Rápido para HIV, Sífilis e Hepatites B e C nos CTA. Secretaria Estadual de Saúde do Paraná, Divisão DST/AIDS, Hepatites Virais; Curso Para Elas do Projeto Atenção Integral à Saúde da Mulher em Situação de Violência – UFMG; Curso Impactos da Violência na Saúde – Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca – FIOCRUZ; Reforma Psiquiátrica: Cuidar Sim, Excluir Não!; também é  palestrante em temas de sua área de atuação.
Funcionária Pública Municipal de Paranaguá desde o ano de 2010, atualmente ocupa a Coordenação Técnica do Núcleo Municipal Intersetorial de Prevenção às Violências, Promoção da Saúde e da Cultura da Paz, na Secretaria Municipal de Saúde de Paranaguá. Helenize é uma profissional que ama o que faz e busca uma atenção especial a todas as políticas públicas que sua área abrange. Confira nesta entrevista um pouco do trabalho desenvolvido por ela frente ao Núcleo Municipal Intersetorial de Prevenção às Violências, Promoção da Saúde e da Cultura da Paz. 

Folha do Litoral News: Como estão dos trabalhos desenvolvidos pelo Núcleo Municipal Intersetorial de Prevenção às Violências, Promoção da Saúde e da Cultura da Paz?


Helenize: O Núcleo foi criado em julho de 2014, através do decreto 1719 do então prefeito Edison Kersten, sendo que na ocasião recebemos da Secretaria de Estado da Saúde uma verba no valor de R$ 30 mil para a montagem do núcleo. E várias cidades do Paraná tiveram a criação destes núcleos. Foi quando começamos a organizar o trabalho que já vinha sendo feito pela então diretora da Epidemiologia, Thaiana Galvão, que me passou, pois na época estava sendo montado. Foi quando passamos a fazer todo o trabalho em conjunto, foi feito o decreto, e é importante frisar que este decreto nele consta que é formado por profissionais da Secretaria Municipal da Saúde, Educação, Assistência Social, Guarda Municipal (Secretaria de Segurança Pública), dois hospitais Paranaguá e Hospital Regional do Litoral, 1.ª SDP, através do NUCRIA, 9.º Batalhão de Polícia Militar, Conselhos Municipais da Saúde, da Mulher, do Idoso e Conselho Tutelar, essa é a formação. Por isso é intersetorial para que possamos trabalhar as políticas públicas de todas essas áreas e consigamos, de uma forma ou outra, abranger todas as políticas públicas, principalmente, inerentes à violência.

 

Folha do Litoral News: Quais as principais atribuições do Núcleo?

Helenize: Ele é basicamente consultivo e prepositivo. Ele não atende o paciente, não atende vitimas. Atende sim quando existe uma demanda que vem procurar a rede para saber o que tem que ser feito. O Núcleo realiza reuniões mensais e, dentro delas, vemos as dificuldades da rede de atendimento, pois temos uma rede mais fragmentada ainda em Paranaguá em se tratando de vítimas de violência. Um dos trabalhos do Núcleo é ajudar neste fortalecimento da rede de violência. Estar promovendo palestras e prevenções junto à comunidade referente à violência.   

 

Folha do Litoral News: A violência é um problema de grande dimensão que afeta toda a sociedade. Na sua visão o que se deve fazer? 

Helenize: Basicamente vejo que é o trabalho de prevenção que é o que a gente ainda não consegue fazer. Nós temos poucos profissionais e para você trabalhar com a violência tem que gostar de trabalhar com esta demanda, e não são todos que possuem esta capacidade de estar trabalhando com a violência. Não pode trazer isso para o seu lado pessoal, não pode fazer juízo de ideia, e o que basicamente a gente faz é procurar trazer todos os atores envolvidos na demanda e nas políticas públicas, para ver de que forma podemos atingir toda a população. 

 

Folha do Litoral News: Fale um pouco do Centro de referência às vítimas de violência.

Helenize: Esta é uma proposta que temos desde o ano passado, quando ficamos mais focados, não deixando de lado o trabalho com todos os tipos de violência, mas focamos mais a violência contra a criança. Por isso, montamos na intersetorialidade, junto com o Poder Judiciário e as polícias, um fluxograma de atendimento das crianças vítimas de violência. Hoje já temos dentro da Secretaria de Saúde, na parte de atenção primária, sabemos para onde são encaminhados os atendimentos profiláticos, que têm que ser realizados em até 72 horas, que é algo muito importante e tem que ser realizado nos abusos sexuais, para que se possa prevenir as DSTs, o HIV e Hepatites. Este ano, estamos procurando enfatizar mais a violência contra a mulher que está aumentando assustadoramente. O ciclo de violência não está estanque. Elas não têm coragem de sair deste ciclo de violência, e temos tentado de uma forma ou outra construir alguma forma de estar abrangendo isso. Hoje, nós capacitamos todas as unidades básicas para as fichas de notificação de violência do Sinan. Precisamos ter a ficha, que vai para o Ministério Público, sendo digitada dentro do Departamento de Epidemiologia. São fichas que são basicamente de números. Precisamos de números, de quantas vítimas, onde está acontecendo mais, e esta ficha de violência é compulsória, mas ela não vai para a delegacia, para a polícia, ela não é um Boletim de Ocorrência, uma denúncia. É simplesmente para que o Núcleo de Prevenção possa perceber quais são os bairros mais violentos, qual tipo de mulher está mais envolvida com a violência, onde as crianças sofrem mais abusos, dentre outros. Então nós capacitamos as unidades básicas, porém a gente vem percebendo que em outras cidades de maior porte existe a Casa da Mulher Brasileira, que não podemos ter devido ao número populacional. Mas conversando com a Secretaria de Saúde e com os representantes do Núcleo percebemos a vontade de se fazer um centro de referência.  

 

Folha do Litoral News: E como seria seu funcionamento? 

Helenize: Neste Centro de Referência, a vítima de violência seria atendida, não só a mulher, mas todas as vítimas de violência. Ela iria para este centro, onde receberia atendimento médico, de enfermagem quando for o caso de machucaduras, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional e um fisioterapeuta, pois a gente sonha alto é claro, e também a parte judiciária e estamos vendo isso com a delegada Maria Niza, que é uma grande parceira do Núcleo, de nós podermos fazer este atendimento lá diretamente, pelo que chamamos de revitimização. Esta mulher ou esta criança vítima de violência é repetitiva ao contar a sua história. Ela é chamada várias vezes a relatar a situação, ela conta para o policial, conta para a enfermeira, conta para o médico, se for o caso para o Conselho Tutelar, etc., e neste centro estaríamos fazendo todo este trabalho com a vítima e ela falaria só uma vez o fato ocorrido. É um plano e existe uma Lei de abril de 2017, onde a gente fala em revitimização da criança, e em Paranaguá hoje existe este trabalho na Vara da Infância e Juventude de onde as crianças além de vítimas podem ser também testemunha. Este é o intuito de fazermos o centro de referência, para que possamos acolher melhor, humanizarmos este atendimento e este é o trabalho que o Núcleo de Prevenção quer fazer.     

 

Folha do Litoral News: O que poderia nos falar sobre o empoderamento da mulher? 

Helenize: É trazer para si o poder de si próprio. Quando comentamos que a mulher quer igualdade de direitos, e se formos olhar nas leis, elas são até mais favoráveis à mulher, pois temos algumas leis a mais, temos a lei do Feminicídio, Lei Maria da Penha, porém não buscamos os nossos direitos de fato. O que acontece com a mulher, ela tem medo, tem vergonha de procurar ajuda. Porque tem o medo de romper o ciclo de violência no seguinte sentido carência efetiva ou econômica, o que será da minha vida, para onde eu vou? Quando falamos que a mulher tem que trazer para si a responsabilidade de ela procurar ajuda, procurar os seus direitos no sentido de conhecer as leis, estar em igualdade em todas as formas. Quando ela consegue trabalhar a autoestima e autoconhecimento ela consegue passar isso para outras mulheres perto dela e se unirem para buscar realmente os seus direitos. Desta forma vai quebrar paradigmas e um círculo que é a violência moral, física e psicológica, e quando isso não acontece acabam acontecendo outras violências como a sexual e as mortes. É um ciclo que precisa ser parado com coragem. E neste ano o Núcleo estará trabalhando mais nesta situação para que a mulher possa conhecer seus direitos. Trabalhamos em conjunto com o CREAS e é muito importante falar, que as mulheres que têm seus direitos violados já são procurados nos Creas, e nos Cras também. A Assistência Social e a Saúde trabalham em conjunto pela relevância dos seus serviços que prestam.  Temos que falar sempre que se deve romper este ciclo de violência.    

 

Folha do Litoral News: Qual a mensagem que deixa a população quando a Prevenção às Violências, Promoção da Saúde e da Cultura da Paz?

Helenize: Como nós trabalhamos com todos os tipos de violências quero deixar a mensagem que não tenham medo de rompê-la, não tenha medo de denunciar. Quando começar a sofrer agressões verbais, ameaças, cerceamento de sua liberdade, tenha coragem de procurar ajuda e romper este ciclo, para que mais tarde você não venha a sofrer uma violência maior, para as mulheres falo isso. Para as crianças digo: mães e pais cuidem das crianças, a negligência, não as privem de coisas básicas como bem-estar, saúde e brincadeiras, cuidem de suas crianças. Para os idosos: vocês possuem seus direitos e façam valê-los, vocês também estão inclusos nas violências, não deixem que ninguém negligencie com você, que utilizem seu dinheiro por pessoas que não estão para te ajudar. A população LGTB não tenha medo coloque e se ponha, pois você também precisa ser protegido, pois os números de violência contra a população LGBTs também são assustadores. Precisamos deixar os nossos preconceitos de lado. E aos profissionais que trabalham com violência costumo falar, não tenha juízo de valores, você trabalha e não pode ter diferença de sexo, cor, raça, seja o que for. Você é um profissional da saúde saiba acolher e saiba ter um atendimento humanizado a esta pessoa que te procura.   
 

Colunistas