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Entrevista

Campanha Setembro Amarelo mobiliza sociedade para prevenir o suicídio

A psicóloga Jadja Ruhoff enfatizou que a chave para a prevenção está na disposição das pessoas em ouvir o outro

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O mês de setembro é voltado para a prevenção ao suicídio em todo o mundo, conhecido também como "Setembro Amarelo". Apesar de o assunto por muito tempo ter sido velado na mídia, especialistas na área afirmam o contrário, ou seja, que é preciso falar sobre o assunto. Levar informação de qualidade é, inclusive, uma das maneiras de prevenir que os casos aconteçam e colaborar com a sociedade.

De acordo com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que realiza apoio emocional, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, o Brasil tem uma média de 32 suicídios por dia, cerca de uma morte a cada 45 minutos.

A psicóloga Jadja Ruhoff, que atua no Hospital Regional do Litoral e também em consultórios particulares, é especializada em Terapia Cognitiva e Comportamental. Nesta entrevista, a profissional enfatizou que esses números poderiam ser menos assustadores se as pessoas tivessem mais empatia, estivessem mais dispostas a ouvir seus familiares e amigos e soubesse ajudá-los. Confira:

 

Folha do Litoral News: O tema do Setembro Amarelo é “Falar é a Melhor Solução”. Esta é a melhor forma de prevenção ao suicídio?

Jadja: Sim. Mas também é ouvir. Muitas vezes, as pessoas dão indícios de que há algo errado e os outros não escutam, porque está todo mundo tão centrado nos seus próprios problemas, que acaba esquecendo de ouvir o outro. Por isso, o melhor sempre é falar e estar com os ouvidos abertos ao próximo para saber o que está acontecendo. Quando ouvirmos frases como “minha vida não vale nada”, “eu não tenho mais vontade de fazer nada”, “não vejo mais sentido na vida”, “não vejo mais saída”, coisas assim tanto em crianças como em adolescentes, temos que acolher, não devemos julgar, tentar questionar, vai ouvir e procurar alguém que pode dar este amparo, pode ser uma unidade básica de saúde e, se tiver a possibilidade, procurar um profissional na área de saúde mental na rede privada. Às vezes, a terapia sozinha consegue excelentes resultados e casos mais graves são encaminhados ao psiquiatra. É importante que pessoas próximas, família e amigos, saibam ouvir, dar esse suporte e interpretar esses sinais.

Folha do Litoral News: Qualquer faixa etária está sujeita a passar pelo problema?

Jadja: O pensar a respeito do suicídio não tem idade, nem classe social, nem distingue orientação sexual. Nós atendemos crianças com tentativas de suicídio, por ingestão de medicamentos para acabar com seus problemas, por isso os pais precisam ficar muito atentos com o que tem disponível em casa. Muitas vezes, o suicídio não é o “querer morrer”, é o “querer acabar com os problemas”. Precisamos desmistificar algumas coisas também, dizem que “cão que ladra não morde”, mas é um mito. Se a pessoa chegou ao ponto de pensar em colocar fim na própria vida por causa de um sentimento tão intenso, é porque ela não encontra mais solução. 

Folha do Litoral News: Todas as pessoas que tentam suicídio têm depressão?

Jadja: Isso também é um mito. Muitas vezes, a depressão está ligada, mas não é sempre. Podem ocorrer fatores isolados, o suicídio é multifatorial. Pode ter uma doença mental envolvida, pode ter abuso de substâncias químicas, pode estar passando por um momento de perda, de desemprego, uma situação difícil na escola, uma separação etc., são vários critérios. 

 

Folha do Litoral News: Você acha que a sociedade ainda não dá o devido valor às doenças emocionais? 

 

Jadja: Com certeza. Muitas vezes pensam que a pessoa que está passando por um problema emocional está querendo chamar a atenção. Ainda que ela quisesse chamar a atenção, a gente frisa muito isso para as famílias que atendemos, e se ela conseguisse? E se ela, através dessa tentativa, desse pedido de socorro, tivesse sucesso na tentativa de suicídio? Precisa chegar a esse ponto? É uma discussão muito mais ampla. Tudo tem uma interligação. Se as pessoas conversassem mais, se parassem para pensar mais no outro, se colocassem no lugar do outro, a gente não chegaria nesses extremos. Em um simpósio realizado no Hospital San Julian, ouvi muito sobre os fatores de proteção contra o suicídio. Ter amigos, uma boa relação familiar, crianças pequenas em casa, animais de estimação, praticar atividades físicas, ter uma crença são coisas que dão esperança e o fator central do suicídio é a desesperança. É muito mais difícil lidar com questões emocionais do que físicas. Mas, a partir do momento que você começa a enfrentar seus problemas emocionais, você vê que não é tudo aquilo que imaginava.

Folha do Litoral News: A depressão pode ser hereditária?

Jadja: A maioria das doenças psíquicas tem componentes hereditários. Mas não tem como sabermos o quanto aquilo pesa porque o ambiente que a pessoa está inserida é muito importante. Mesmo que haja uma predisposição, se você estiver em um ambiente favorável e saudável, talvez você nunca desenvolva.

Folha do Litoral News: Falar sobre o suicídio na mídia pode incentivar o ato para quem está passando por algum sofrimento?

Jadja: Precisamos falar da forma correta. O pensar a respeito disso precisa ser conversado, que se trata de um momento que a pessoa está passando, que existe tratamento. Existe uma forma de divulgar, mostrando que o problema pode ser tratado. O Setembro Amarelo é uma forma de divulgar mais o tema na mídia. 

Folha do Litoral News: Como procurar ajuda?

Jadja: A partir do momento que você observar uma mudança de comportamento em uma pessoa próxima a você, escute. Não deixe essa pessoa sozinha, encaminhe até uma unidade básica de saúde, vá junto, porque a pessoa que está assim, não tem mais forças, está muito fragilizada, por isso vá junto. Se for menor de idade, converse com o pai ou com a mãe com cuidado para que sejam tomadas providências. Isso não pode ficar escondido. Quem está sentindo uma vontade, que está planejando, busque uma pessoa com a qual você possa falar sobre o assunto. Existe o número 188 e o site “www.cvv.org.br” para as pessoas que se sentem muito sozinhas e já não confiam em mais ninguém. A gente precisa olhar mais para as pessoas que estão ao nosso lado em casa. No caso de pai e mãe, a orientação que a gente dá é mostrar que vocês estão do lado dos filhos. O que a gente vê é muito conflito. Mesmo quando os filhos não se abrem muito, é importante você mostrar que está ali, dizer “se você tiver com algum problema, saiba que eu estou aqui, independente do que estiver acontecendo”, pois temos que respeitar.
 

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