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Endireitando

Dinâmica da produtividade no Brasil, concorrência e crescimento econômico

No artigo da semana passada, realizou-se uma análise do relatório do Banco Mundial

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No artigo da semana passada, realizou-se uma análise do relatório do Banco Mundial – “Competências e Empregos: uma Agenda para a Juventude”. A análise dessa semana terá por fulcro o outro relatório do Banco Muncial, intitulado “Emprego e Crescimento: a Agenda da Produtividade”. De acordo com o referido relatório, produtividade é um indicador de eficiência técnica que demonstra como as empresas, indústrias, setores ou o país transforma insumos medidos na produção de bens e serviços.

As duas medidas de produtividade mais comuns são a produtividade do trabalho (PT) e a produtividade total dos fatores (PFT). A PT captura o valor dos produtos produzidos, dividido pelo número de trabalhadores, sendo considerada a medida da quantidade de riqueza gerada por cada trabalhador. Já a PFT é derivada como residual do produto, ou seja, depois de contabilizado o impacto de todos os insumos medidos (especialmente o trabalho e o capital), representando, portanto, a eficiência com a qual todos os insumos serão combinados no processo produtivo. O resultado auferido pelo relatório é claro: não estamos bem em nenhuma dessas medidas.

No Brasil, embora tenhamos recursos naturais abundantes, uma força de trabalho capacitada e empresas competitivas em vários ramos da atividade econômica, como o setor aeronáutico, o agronegócio, o têxtil, o siderúrgico, entre outros, nota-se, que apesar das referidas “vantagens”, o País faz mal uso delas. Em uma comparação com os Estados Unidos da América (EUA), pode-se perceber que grande parte do problema está em nossa ineficiência e consequente, produtividade.

Se as empresas brasileiras tivessem a mesma eficiência de suas concorrentes americanas, nossa produtividade seria aumentada em mais de quatro vezes, e nossa renda per capita, 2,7 vezes. Entretanto, se tivéssemos a mesma estrutura produtiva dos EUA, nossa produtividade aumentaria apenas 68%. A baixa produtividade das empresas brasileiras implica diretamente em nosso padrão de vida, em nosso nível de renda. Para se ter uma ideia dessa disparidade, desde os anos 90, a renda per capita brasileira em termos de paridade de poder de compra (PPC) permanece em torno de 25% dos níveis dos EUA.

As comparações acima demonstram que há algo de errado com nossas empresas e alguns fatores (senão suficientes), podem sim nos fornecer indicações de como aumentar nossa produtividade, são eles: falta de concorrência interna (nosso ambiente de negócios favorece as empresas já estabelecidas e dificulta a entrada de novas empresas, além de dificultar a inovação); falta de concorrência externa (existência de muitas barreiras tarifárias e não-tarifárias); políticas públicas que não fomentam a concorrência e a inovação e fragmentação dos órgãos de governo dedicados a apoiar as empresas (fato que favorece a continuidade de políticas públicas ineficazes).

Para que nosso crescimento futuro seja mais sustentável e inclusivo, proporcionando aos brasileiros a elevação de seus padrões de vida a um nível mais próximo dos países de alta renda é necessário que as políticas públicas relativas aos fatores citados no parágrafo anterior sejam modificadas, o que implicaria no aumento de nossa produtividade. Atualmente, um trabalhador médio brasileiro é apenas 17% mais produtivo do que era há 20 anos, o que nos confere um crescimento da produtividade do trabalho de apenas 0,7% ao ano. Se comparado aos países de alta renda, o crescimento da produtividade do trabalho no período foi o dobro, uma média de 34%.

É importante salientar que trata-se de um ciclo, qual seja: se os trabalhadores produzem mais a cada dia de trabalho (ou levam tempo menor para realizar as mesmas tarefas), a empresa se torna mais competitiva em seu segmento. Quando se torna mais competitiva, a empresa pode baixar seus preços, vender mais produtos, contratar mais trabalhadores e, com o tempo, remunerar melhor (com salários mais altos) seus trabalhadores. Assim, se as alterações nas políticas públicas favorecerem o crescimento de nossa produtividade certamente teremos empregos melhores e um aumento do padrão de vida das pessoas, visto que o aumento da produtividade tende a reduzir os preços e elevar a qualidade dos produtos consumidos.

Para que isso aconteça, as políticas públicas precisam ser revistas. Em um ambiente econômico em que as empresas operam com custos elevados (o chamado Custo Brasil), diminuir esse custo por meio de reformas financeiras, fiscais e administrativas, junto ao aumento dos investimentos em infraestrutura, é fator preponderante, embora não suficiente para o aumento da produtividade. Há décadas essa percepção é sabida e as modificações não se realizam, fato que resulta na má alocação de recursos públicos, no enfraquecimento do crescimento do emprego e renda e nos preços elevados de produtos de baixa qualidade.

Se as mudanças necessárias em relação ao cenário fiscal, financeiro e administrativo estão difíceis de se realizar, há que preocupar com a introdução e desenvolvimento de políticas públicas destinadas à abertura dos mercados brasileiros à concorrência, à redução de custos para a realização de negócios, à eliminação das distorções introduzidas pelo próprio governo e à canalização das despesas públicas voltadas para o apoio à inovação e aos ganhos de eficiência.

O ideal seria que as reformas fossem realizadas nas duas pontas, fato que aumentaria significativamente o potencial de inovação e de crescimento do nosso país, além de fortalecer a integração e o nível de concorrência no mercado interno, reduzindo distorções nos mercados de produtos, capital e trabalho, além de aumentar os investimentos em tecnologias de informação e comunicação, transportes e infraestrutura logística, proporcionando aos brasileiros um incremento em seu padrão de vida, em seu nível de renda, além da diminuição dos preços dos produtos e a melhoria de sua qualidade.

Levando-se em consideração os argumentos e cenários expostos, resta ouvir a opinião dos empresários, das agências de fomento, dos gestores públicos, dos trabalhadores, dos que buscam empregos e melhores oportunidades, dos consumidores em geral. A todos, desejos de uma semana com muitas oportunidades, de trabalho eficiente e produtivo, preços menores e produtos de qualidade, até a próxima quinta-feira.

Professor Dr. Bruno Gasparini – Coordenador do Curso de Direito do Instituto Superior do Litoral do Paraná (Isulpar), advogado, autor, palestrante, mestre em Direito das Relações Sociais, Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento.

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