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Endireitando

Crescimento econômico, empregabilidade e o futuro da juventude brasileira

A divulgação de dois recentes relatórios do Banco Mundial revelou dados que ilustram a grande preocupação da atual geração

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A divulgação de dois recentes relatórios do Banco Mundial – “Competências e Empregos: uma Agenda para a Juventude” e “Emprego e Crescimento: a Agenda da Produtividade” – revelou dados que ilustram a grande preocupação da atual geração com o futuro dos jovens brasileiros. Isso se deve ao fato do país estar vivenciando o auge de sua transição demográfica, fato que impulsiona o “capital humano”, fundamentalmente dos jovens, a fator preponderante para que o Brasil possa alcançar melhores níveis de desenvolvimento e prosperidade compartilhada.

No artigo dessa semana, nos dedicaremos ao primeiro dos relatórios citados que, centrado na avaliação dos principais desafios que os jovens brasileiros enfrentam para alcançar índices mais altos de empregabilidade e produtividade no mercado de trabalho, denota a distância entre os gastos realizados nos últimos anos com políticas públicas sociais e sua efetividade, fundamentalmente em relação aos jovens. De maneira geral, percebe-se que as políticas públicas priorizam os que já estão incluídos e os idosos, negligenciando o engajamento econômico dos mais jovens. Para que o futuro almejado seja alcançado, os jovens deverão estar no centro de uma agenda de reformas de políticas relativas a competências e empregos.

Em um País demograficamente caracterizado pelo “envelhecimento da população”, o perfil demográfico brasileiro muito em breve se comparará ao dos países europeus, qual seja, aumento do número de idosos e declínio da população em idade ativa (brasileiros com idade entre 15 e 64 anos). Entretanto, nosso país se encontra em um nível muito mais baixo de desenvolvimento econômico e valor agregado per capita, o que seguramente exigirá uma elevação da produtividade do trabalho. De tal fato, resulta a questão: estamos preparados para isso? Nossa juventude será capaz de nos proporcionar tal acréscimo? Como as políticas públicas podem enfrentar tal questão?

É notório que nas últimas décadas nossos avanços em relação à erradicação do analfabetismo, à universalização do ensino fundamental e ao acesso ao ensino médio foram consideráveis, embora subsistam muitas preocupações com a qualidade de nossa educação, bem como com as competências (cognitivas, técnicas e socioemocionais) que os estudantes estão adquirindo. Esses dois aspectos, qualidade e aquisição de competências, são fundamentais para que o conhecimento, o saber como fazer algo, se transforme na própria realização, ou seja, em se tornar capacitado para exercer determinada tarefa, emprego ou função.

Em poucas palavras, as competências cognitivas são as competências fundamentais, de ordem acadêmica, constituindo o alicerce de aprendizado da maioria dos estudantes e normalmente aprendidas no ensino fundamental, mas desenvolvidas ao longo de toda a vida. São competências simples, como ler, contar, dizer as horas, dirigindo de modo central a capacidade cerebral para pensar, raciocinar e prestar atenção.

Já as competências socioemocionais são aquelas aprendidas durante as interações sociais, interpessoais e com as estruturas sociais, exteriorizando-se a partir de comportamentos, atitudes e valores e determinando a maneira como a pessoa pode reagir em diversas situações. Por fim, as competências técnicas definem-se pelo conhecimento e experiência necessários para se realizar determinada tarefa. Normalmente tais competências são aprendidas depois das competências cognitivas e socioemocionais, em anos posteriores de escolaridade básica, a exemplo do ensino médio, da escola técnica ou da educação superior.

Além da qualidade da educação e da aquisição de competências, as políticas públicas para a formação de jovens devem levar em consideração as particularidades de nosso país, como nossa grande extensão territorial, a dispersão relativa da população, a desigualdade geográfica de crescimento e desenvolvimento, a lenta integração econômica, o relativo fechamento da economia, a descentralização da implementação das políticas sociais (educação, trabalho e proteção social), entre outras.

Tendo consciência da existência de todos esses fatores, é premente a necessidade  em melhorar os resultados das políticas públicas focadas em competências e empregos dos jovens brasileiros para que haja um consequente aumento da produtividade, de modo a superar a atual tendência de desengajamento dos jovens, refletida na distorção idade-série, nos altos índices de repetência ou mesmo nos empregos informais e/ou de baixa remuneração que hoje são ocupados por essa parcela da população.

Nos dias de hoje, pode-se considerar que mais de 50% dos jovens estão em risco de desengajamento, seja porque não estudam ou trabalham, ou ainda, estudam e/ou trabalham, mas sem oportunidades de aquisição de capital humano. Um número alarmante, proveniente do Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2018 é o seguinte: com base nas tendências atuais, o Brasil levaria mais de 260 anos para atingir as notas médias dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em desempenho na leitura.

Se levarmos em consideração todas as questões expostas, teremos um futuro econômico preocupante, com baixos índices de produtividade e desenvolvimento, com uma população ativa envelhecida e postos de trabalho ocupados por jovens formados por uma educação de baixa qualidade e sem as competências necessárias para alavancar a tão sonhada “ponte para o futuro”. Diante desse quadro, resta ouvir a opinião dos jovens, dos pais, dos educadores, dos gestores educacionais, dos empresários, dos empregadores, dos empreendedores para que, juntos possamos desenvolver e implementar políticas públicas eficazes. A todos esses, meus votos de uma semana com educação de qualidade, aquisição de competências, empregabilidade e produtividade, até a próxima quinta-feira.

Professor Dr. Bruno Gasparini – Coordenador do Curso de Direito do Instituto Superior do Litoral do Paraná (Isulpar), advogado, autor, palestrante, mestre em Direito das Relações Sociais, Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento.

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