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Trânsito

Com recordes na movimentação ferroviária, TCP CMPort apresenta transtornos no modal rodoviário em Paranaguá

Filas de mais de nove quilômetros de caminhões em direção ao terminal foram observadas em março

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Foto: Prefeitura de Paranaguá/Divulgação

Em março, o Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP) – China Merchants Port Holding Company (CMPort) obteve um recorde histórico na movimentação por ferrovia, alcançando a marca de 14.652 TEUs movimentados pelo modal em questão, crescimento de 7,5% ao antigo recorde registrado em janeiro deste ano. Ao mesmo tempo, neste período, filas e transtornos na Avenida Ayrton Senna e no trânsito de Paranaguá se tornaram itens ainda mais presentes na vida dos moradores, empresários do setor logístico e caminhoneiros, que atuam para colaborar na movimentação portuária de mercadorias pelo modal rodoviário. Na época, mais de nove quilômetros de filas de caminhões chegaram a ser observadas no município. 

Segundo a TCP, o recorde de movimentação ferroviária reforça “a excelente cadeia logística oferecida pelo terminal aos seus clientes, que contam com opções para os mais variados tipos de cargas, privilegiando custo, prazo e qualidade de serviço”, informa. “Dentre os contêineres movimentados no mês de março, houve predominância de cargas de carnes e congelados, um percentual de 68%, seguidas por papel e celulose, que representaram 30% do volume total”, completa a assessoria da TCP.

“Diante dos resultados obtidos no primeiro trimestre de 2022, a expectativa é de um crescimento de 11% neste modal até o final do ano, impulsionado pelo projeto KBT, que deve dobrar o volume de contêineres movimentados na ferrovia paranaense entre os próximos dois e três anos”, afirma o terminal.

Modal rodoviário com problemas

No final de março, a Prefeitura de Paranaguá notificou a TCP em multa diária de R$ 1 mil pela situação, quando foi observado mais de nove quilômetros de fila no contexto rodoviário. A empresa, em nota, afirmou que o transtorno foi gerado devido à instabilidade do seu sistema operacional e que irá atuar para sanar os problemas, com remanejamento de agendamentos e ações para sanar o problema logístico. O setor empresarial, por outro lado, prossegue crítico aos problemas e pede mais modernização e diálogo para que a situação melhore.

Segundo a Prefeitura, a Secretaria Municipal de Urbanismo (Semur) realizou a ação de fiscalização da fila de caminhões em Paranaguá no dia 30 de setembro. “A empresa TCP (Terminal de Contêineres de Paranaguá) foi notificada devido a situação que gera transtornos no trânsito da cidade”, informa o município.

“Notificamos a empresa para que seja regularizada a situação dos caminhões, que devem ficar em pátio apropriado. O Termo de Compromisso Urbanístico (TCU) e o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) determinam medidas mitigadoras para estas situações”, afirma o técnico superior fiscal e urbanístico, João Paulo do Prado Castilho Pereira. “Para cada item descumprido do TCU e do EIV a multa diária é de mil reais”, detalha a Prefeitura.

Setor empresarial de transportes

O diretor-presidente da Transcap, José Carlos Borba, que é gestor de uma das principais empresas do setor de transportes, logística e de armazéns gerais, destacou os problemas enfrentados atualmente junto à TCP. “Em primeiro lugar eu gostaria dizer que o TCP é um terminal de cargas ao qual nós respeitamos muito. É um terminal privado que é muito importante para a cidade, ele nasceu aqui, desde o início tivemos vários problemas com a TCP, mas solucionáveis. Hoje com a grande demanda que o terminal está tendo eu acredito que estão havendo muitas falhas por parte deles”, destaca.

“Uma das falhas mais gravíssimas que eu acho da parte deles é que, eu acredito que eles dizem que esta situação que ocorreu foi por uma manutenção, foi eles escolherem bem o dia de semana para fazer uma manutenção”, aponta Borba, sobre os transtornos do fim de março que ocorreram em dias úteis. “Isso não é correto, não é uma boa desculpa. Porque não escolhe um final de semana ou um feriado prolongado? Eu, como dirigente de uma empresa de transportes hoje, já tenho pedido para eles há tempos, desde o ano passado, porque eles não conseguem colocar os agendamentos via celular para que os caminhoneiros possam fazer por código de barras no telefone”, afirma, destacando que isso é um atraso. “Hoje o caminhoneiro está vindo, descendo a Serra, ou vai carregar 4h da manhã, por exemplo, tem que ter uma pessoa para entregar para ele um papel, o que poderia ser muito bem feito por celular, tendo só o código de barras para entrar no terminal”, acrescenta.

Borba afirma que esta falta de modernização e de agendamento para entrar no terminal causa transtornos. “Com isso (modernização) nós evitaríamos alguns congestionamentos nas avenidas nossas da cidade. Muitas empresas que são de Curitiba, por exemplo, poderiam passar ao caminhoneiro que está em casa o agendamento no horário definido, já vindo ele com o agendamento no telefone ao terminal. Um baita de um terminal desses com este porte não consegue fazer isso. Já solicitei isso a eles em reunião e eles não fizeram”, afirma.

O empresário afirma que outra questão é a ausência das chamadas “janelas” para adentrar ao terminal. “Hoje eu estou implorando para eles janelas para clientes meus que já tiveram liberadas as cargas, que já deviam estar dentro e não tem janela. Estou aqui com de 10 a 50 caminhões hoje para carregar carga que está lá dentro e que só não saiu por falha deles”, explica, destacando que os funcionários da Transcap atuam até mesmo durante a madrugada para achar espaço aos clientes para adentrar na TCP. “Clientes com 50 contêineres, muitas vezes não consigo tirar 10 deles”, explica, destacando a espera, muitas vezes, de mais de quatro dias para conseguir agendamento. 

“Somos também penalizados se perder a hora do agendamento em duas horas em R$ 337,34 do chamado No-show. A empresa tem que pagar, mas cobramos No-show deles das horas e dias que os caminhões ficam parados? Se fossemos cobrar, olha a fortuna que ia dar. Uma das coisas que a TCP tem hoje e que joga contra nós é que eles são únicos”, explica, destacando a falta de diálogo e cobrança do chamado No-show por perda de agendamentos até mesmo de caminhoneiros que sofreram acidente de trânsito e acabaram perdendo a janela. “É um desabafo meu como gestor do transporte. Se eu tivesse com outras 10 transportadoras aqui hoje, falariam a mesma coisa. Eu fico triste com isso, porque eu luto por eles, eu brigo por eles. Quando eu vou em outros lugares que falam mal da TCP eu defendo e falo que o terminal foi uma das melhores coisas que aconteceu na cidade, mas com outros gestores, pois esta gestão está deixando a desejar para Paranaguá e para o setor de transportes”, ressalta.

José Carlos Borba, diretor-presidente da Transcap, pede que TCP faça agendamento por celular aos caminhoneiros para solucionar filas, não realize cobrança do No-show e que dialogue mais com empresários do setor de transportes da cidade

O diretor-presidente reclama o fato da falta de diálogo com a TCP. “Eles não são acessíveis, dificilmente você consegue se comunicar com eles”, explica, destacando que eles podem até receber em reunião, mas que não acatam os pedidos, dando o exemplo do agendamento prévio por celular solicitado por Borba em 2021. “Jamais eu gostaria de fazer uma crítica como estou fazendo hoje. Isso que está acontecendo nos últimos dias afetou muita gente por dentro”, explica. “Motoristas ficaram parados na beira da BR, sem banheiro, sem condições, sem uma água ou café, com chuva, é algo desumano”, explica, reforçando que a TCP foi importante para organização do recebimento de contêineres, bem como quando implementou recentemente o agendamento de forma agilizada, mas que mais melhorias são necessárias. “Hoje eu tenho estacionamento aqui dentro do pátio para a nossa empresa, mas tem muitos que não tem. Porque eles não têm eles terão que ser sacrificados? Não. Isso poderia ser evitado com um mero agendamento por um simples celular”, destaca.

“Precisamos que eles melhorem. Eu como gestor da área de transportes estou aberto para conversar com eles, para trocar ideias. Na gestão anterior tínhamos uma abertura, sentávamos para conversar, com a parte financeira, com gestores, eles mandavam pessoas do comercial conversar com a gente, saber o que precisávamos”, afirma Borba da Transcap, destacando que a cobrança do No-show é errada e muitas vezes faz com que o caminhoneiro não tenha lucro nenhum. “Acho muito difícil haver algum tipo de malandragem, porque todos nós temos responsabilidade. Quando se perde o agendamento é porque algo grave aconteceu”, afirma. 

Sobre as multas aplicadas pelo município à TCP pelos transtornos gerados no contexto urbano de Paranaguá, Borba acredita que a decisão foi acertada. “O município fez sua parte. Tem que aplicar mesmo, porque, se eles aplicam em nós, porque não pode aplicar multa neles? Está mais do que certo. Eles precisam se programar”, afirma. “Eles não podem ser o dono da razão. Os nossos funcionários imploram por janela”, explica, destacando que colaboradores, nas sextas-feiras, por exemplo, só conseguem abrir janelas aos caminhões na segunda-feira seguinte. “Temos clientes de viagem hoje que não conseguem tirar carga por não abrirem janela”, explica, destacando que, caso haja erro, que eles trabalhem dobrado para corrigir os equívocos, como ocorre na Transcap e outras empresas. “Eles poderiam trabalhar em turno extraordinário. Poderiam conversar com a mídia, dar uma explicação para a sociedade, pelos veículos de comunicação, com contexto, convencimento”, informa.

“É o único terminal de contêineres que temos hoje em Paranaguá, o TCP tem que atender bem. Perdemos muitos clientes para terminais de Santa Catarina. Vários terminais do Brasil fazem agendamento por celular ou on-line, isso é algo muito fácil de ser resolvido. Quero reforçar também que acabem com o No-show, não é justo algo a ser pago. Eles fazem isso para que se evitem perder janelas, para que não fiquem janelas sobrando, mas existem outras formas de resolver isso, outras regras a serem cumpridas, mas não cobrar”, ressalta. “Que eles façam agendamento por telefone aos caminhoneiros. Isso vai tirar muitos caminhões nas ruas, BR e na beira dos postos, bem como funcionários  aguardando até mesmo na madrugada para entregar um papel. Isso é coisa do passado”, salienta José Carlos Borba, destacando que está há quase 23 anos na Transcap e desde os anos 80 no setor de transportes. “Estou vendo hoje essa ineficiência que só vem prejudicando a todos nós da área de transporte”, finaliza.

TCP e filas no fim de março

Em comunicado, a TCP, que é a empresa que administra o Terminal de Contêineres de Paranaguá, informou que no caso específico das filas na noite do dia 29 de março, o seu sistema operacional interno passou por um período de instabilidade, ocasionando lentidão e com isso acúmulos e filas. “A empresa informa também que os sistemas estão sendo restabelecidos e que está empregando os seus melhores esforços para amenizar os impactos gerados à toda cadeia logística”, complementa.

Devido ao ocorrido, a TCP afirma que executou alguns ajustes para normalizar o fluxo operacional. Entre eles estão as seguintes ações: “os agendamentos poderão ser remanejados com comunicação prévia, dessa forma a TCP entrará em contato caso se faça necessário; aos caminhoneiros, recomendamos que não se dirijam às filas caso não possuam agendamento prévio”. 

“A empresa lamenta o imprevisto e agradece a compreensão dos clientes e de seus prestadores de serviço, de toda comunidade portuária de Paranaguá, demais usuários do Porto e moradores da cidade”, finaliza em nota a TCP.

Empresa aborda implementação de nova forma de agendamento, EIV e outras questões

Após obter acesso à matéria no site da Folha do Litoral News na tarde da sexta-feira, 2, a TCP se posicionou sobre o caso respondendo questionamentos feitos em torno das filas, do EIV, possibilidade de nova forma de agendamento, diálogo com o setor de transportes e comunidade, bem como cobrança do No-show. “As filas atípicas que se formaram no mês de março ocorreram devido a uma falha sistêmica que perdurou por três dias. A empresa lamenta por eventos como este, mas afirma que são pontuais. Todo o sistema de gates e o próprio gate serão renovados nesse ano. Além disso, o SAV, que é o pátio de triagem, ganhou em 2022 um espaço com sala de descanso, banheiro e chuveiro. Também foram adicionados seguranças 24h no local e controladores de tráfego para o suporte dos caminhoneiros. Visando a segurança e comodidade de todos, ainda nesse mês será anunciada uma nova área para travas e destravas de locker, bem como banheiros dentro do terminal para os caminhoneiros”, informou a assessoria da TCP à Folha do Litoral News.

Segundo a empresa, já está em andamento a implementação de agendamento para caminhoneiros via celular para adentrarem ao terminal. “Contamos com o auxílio de grandes empresas de transporte nesta fase de desenvolvimento do aplicativo. O lançamento deverá ocorrer ainda esse ano. Acreditamos que a comunicação com o caminhoneiro ficará mais fácil e dinâmica, e os processos não terão mais necessidade de documentação física e uso de papel”, completa.

Em nota, TCP afirmou que situação no fim de março foi causada por instabilidade no sistema e pede para que caminhoneiros não entrem nas filas sem agendamento prévio

De acordo com a TCP, a cobrança de No-Show trata-se de uma medida disciplinar que objetiva melhorar a produtividade no complexo portuário de Paranaguá. “A cobrança foi construída com base em outros portos do Brasil e do mundo para aumentar a aderência das grades de carga e descarga. A ação surtiu efeito desde sua implementação e tivemos melhoras nos indicadores de aderência, além da redução ano após ano no número de No-Shows que, atualmente, representa apenas 1% dos agendamentos programados e que recebem a cobrança. Pouco antes do início da cobrança desta taxa, este percentual era de 6%”, detalha “Vale a mencionar que, para contêineres vazios, a cobrança foi reduzida de R$ 337,34 para R$ 100,00 (uma das mais baixas do país), além do fato de que nenhuma tarifa sofreu reajuste de inflação nos últimos anos”, acrescenta.

A empresa também afirma que cumpre com o Estudo de Impacto de Vizinhança. “As medidas apresentadas em seu EIV são apresentadas periodicamente à Prefeitura Municipal, inclusive com o acompanhamento da mesma de forma rigorosa quanto aos compromissos assumidos”, detalha.

Com relação à alegação do setor de transporte de que haveria pela TCP uma falta de diálogo com empresários e comunidade parnanguara, o terminal afirma que “não concorda com este apontamento”. “A empresa se reuniu nesse ano mais de uma vez com sindicatos de transporte, além de receber vários empresários da retroárea constantemente no terminal, como depots, armazéns gerais e transportadoras. Além disso, as áreas Comercial e de Atendimento ao Cliente atuam de forma muito próxima dos usuários exportadores, importadores, armadores, transportadores e despachantes aduaneiros para acompanhar e desenvolver de forma proativa seu nível de serviço”, finaliza a assessoria do terminal. 

Confira o vídeo das filas na Avenida Ayrton Senna:

Com informações da Prefeitura de Paranaguá