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“Se uma mulher negra avança, ninguém fica para trás”

08 de março de 2019

A pedagoga Maria Eunice Celestino fala sobre a força e a representatividade da mulher negra

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Ser mulher em uma sociedade machista já tem os seus percalços, imagina então ser mulher e negra no Brasil. O machismo e o racismo são dois obstáculos que a mulher negra precisa passar para servir de exemplo a toda uma nova geração para que esta não precise enfrentar novamente as mesmas dificuldades, da mesma forma. Isso se chama representatividade, e é isso que torna possível que garotas negras se identifiquem com mulheres fortes que batalharam e alcançaram o seu espaço na sociedade, sem amarras quanto a sua raça, religião ou, pelo simples fato, de ser mulher.

“Olhar uma mulher negra num cargo importante, me dá a possibilidade de sonhar e ver que sim, é possível”, frisou Eunice

A pedagoga, tradutora e intérprete de libras, Maria Eunice Christino Celestino, é natural de Ipaussu, no interior de São Paulo, e mora em Paranaguá. Sua carreira começou pelo magistério, passando pela graduação em Pedagogia pela Uninter, graduação em Letras/Libras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pós-graduada em Libras pela Fael e em Educação Bilíngue para Surdos no Instituto de Maringá. Além disso, ainda é proficiente na língua brasileira de sinais pelo Prolibras, tradutora intérprete no Detran (Departamento de Trânsito), Secretaria de Educação e Ensino Integral e igrejas.

INSPIRAÇÕES E REPRESENTATIVIDADE DA MULHER NEGRA

Nice, como é conhecida, também é palestrante de temas Étnicos Raciais e mãe de duas meninas, Ana Paula e Pauline. Nice conta que quando criança, a sua maior referência enquanto mulher negra era sua irmã Dagmar Christino, que sempre a aconselhava. “Até hoje lembro da forma como nos orientava para caminhar mantendo a coluna reta, sobre as situações futuras que iríamos enfrentar”, relatou Nice.

No decorrer de sua trajetória, outras mulheres negras a inspiraram e estão contribuindo de forma efetiva para esta representatividade, sendo um exemplo não só para mulheres negras, mas às mulheres de forma geral. Uma delas é a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que tem como lema "Todos devemos ser feministas", inspirando celebridades como a cantora Beyoncé e marcas como a Dior.

“Ela diz que somos vulneráveis diante da apresentação de uma história única. Ela sempre comenta em suas palestras como o pensamento dela sobre seus ancestrais mudou quando encontrou escritores africanos”, destaca Nice.

A atriz Taís Araújo também é uma inspiração para Nice. “Ela representa esta geração na luta pelos direitos das mulheres. Gosto do jeito que fala da realidade em se ter filhos negros no Brasil. Nas redes sociais ou nos programas televisionados, ela não teme em debater temas conflitantes como a violência contra professores e a pressão estética social”, disse a pedagoga.

Nice ressaltou a importância de ter mulheres negras em diversos setores como esporte, política, artes, música, educação, jornalismo, cinema etc.

“Olhar uma mulher negra em um cargo importante, me dá a possibilidade de sonhar e ver que sim, é possível. A representatividade traz um novo olhar para as pessoas, abrindo um leque de possibilidades”, citou Nice.

PRECONCEITO

Ao longo de sua carreira profissional, por ser negra e mulher, Nice teve que lutar algumas vezes para combater exclusões. “Há alguns anos, estava à disposição para trabalhar em um evento de entrega de materiais por uma autoridade do Estado aqui na cidade de Paranaguá. Entretanto, após anunciarem que me escolheriam para representar/interpretar, solicitaram que mandassem outra pessoa em hora atividade, pois para minha surpresa a pessoa deveria possuir boa aparência”, relatou Nice.

Outro fato se deu em uma formatura, quando o organizador tentou impedi-la de exercer o seu trabalho de intérprete, sem nenhum motivo aparente.

Como professora, Nice observa também que há preconceitos em sala de aula, mas que existem meios de educar as crianças na busca pelo respeito e igualdade racial.

“Sim, o preconceito existe em sala de aula mesmo que externado inconscientemente. Educação é sermos exemplo, é ação. Ninguém nasce odiando alguém. Não reproduzir esses tipos de atitude é fundamental e sempre tentando educar com sensibilidade, amor, explicando a realidade e as diferenças com respeito em cada fase da criança”, finalizou Nice.

Racismo não é “mi mi mi”

Mapa da Violência 2015 mostra que a taxa de assassinatos de mulheres negras aumentou 54% em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Chama atenção também que no mesmo período o número de homicídios de mulheres brancas tenha diminuído 9,8%, caindo de 1.747, em 2003, para 1.576, em 2013.

“Por que tanto a minha cor incomoda se nem todas as rosas são cor-de-rosa?”

Fotos: Luís Andrioli.

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