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Casarios históricos: o patrimônio de Paranaguá

27 de julho de 2019

Historiador aponta as principais características arquitetônicas dos casarios

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Como é comum em muitas cidades coloniais e imperiais brasileiras, Paranaguá apresenta casarões históricos, especialmente no centro da cidade, com características típicas que mostram os antigos aglomerados urbanos. Aos olhos da população local e de visitantes que não possuem conhecimento aprofundado sobre a cultura e a história da cidade, vários elementos presentes nesses casarios podem passar despercebidos ou serem pouco notados.

O professor, historiador e conservador-restaurador de bens culturais, Luciano Chinda Doarte, tem um vasto currículo na área de história cultural e intelectual, com ênfase em patrimônio cultural, memória, entre outros. Toda essa experiência resultou em um livro, o “Memória, Patrimônio e Sociedade: ensaios sobre interações socioculturais na contemporaneidade”.

Muitos casarios às margens do Rio Itiberê mantêm sua utilização original de comércio

MUITAS PORTAS, PAREDES LARGAS E PÉ DIREITO ALTO

Doarte apontou as características típicas dos casarios encontrados na Rua da Praia e o que elas revelam. “Vemos os prédios com muitas portas para a rua, possibilitando um fluxo fácil de pessoas, uma vez que boa parte desses prédios era usada como comércio; os sobrados (são bons os exemplos dados pelos que estão construídos na Rua da Praia em frente ao Rio Itiberê) que, via de regra, também têm portas à rua para o comércio de toda ordem, mas ainda denunciam um maior capital financeiro de quem os possuía pela possibilidade de se ter uma moradia na parte de cima e um comércio embaixo”, descreveu o historiador.

Esses espaços também eram utilizados para armazenar bens comerciais como cordas, correntes, sacos de alimentos e outros artifícios trazidos pelo mar.

As paredes são largas, dado que o uso de metais para colunas ou para a fundação dos prédios passou a ser usado com mais intensidade no início do século XX, depois da expansão da Revolução Industrial para os Estados Unidos da América. O objetivo do pé direito alto era auxiliar na circulação de ar, especialmente em cidades litorâneas onde as altas temperaturas são comuns.

 “Essas formas de construção dos centros urbanos eram eleitas e redigidas com força de lei nos tempos em que o Brasil foi colônia de Portugal e mesmo durante o Império. As Ordenações Filipinas (de ordem, que tinham força de lei e eram escritas pelos reis), por exemplo, do Rei D. Filipe I, que governou o Reino de Portugal e Algarves, de 1581 a 1598, trazem longos parágrafos sobre como, onde e em que circunstâncias uma janela poderia ser construída e se poderia ou não ser obstruída em algum momento por alguma parede, tentando atenuar as possibilidades de desentendimentos entre vizinhos”, contou Doarte.

ARQUITETURA

As referências arquitetônicas em uma cidade como Paranaguá, com tantos séculos de história, são muitas, como explicou o historiador. “Muitos foram os períodos artísticos pelos quais a cidade passou e pode ter tido ou não contato. Inicialmente, é importante salientar que a cidade possui exemplares do que no Brasil convencionou chamarmos de arquitetura colonial, denunciado por construções que possuem apenas o piso térreo, paredes largas e lisas, sem decorações, portas e janelas em recortes com semicírculos em seus altos, telhados de quatro faces com telhas de barro”, disse Doarte.

Em seguida, o historiador cita a influência do estilo Neoclássico, em função da mudança sociocultural e urbana. “Típico do início do século XIX, o estilo traz paredes altas, largas e lisas, retomando o estilo dos templos sagrados da Grécia Clássica, além de colunas aparentes com suas extremidades, tanto na base quanto no alto com decorações variadas, e intensos motivos decorativos no alto dos prédios”, afirmou Doarte.

O estilo da Art Nouveau, forte entre o fim do século XIX até a década de 1920, também pode ser observado em algumas construções.

“Além de estilos quase que globais, é possível observar estilos mais regionalizados que foram empregados na cidade como o estilo alemão, com decorações sobre a alvenaria que insinuam serem grandes tijolos ou blocos de construção com um aspecto áspero, com espaços entre esses blocos como se fosse em cimento, mas ainda sendo o mesmo material de alvenaria, mas liso e de outra cor, geralmente branco”, descreveu o historiador.

ÀS MARGENS DO RIO ITIBERÊ

Entre tantos prédios históricos pertencentes a Paranaguá, o professor elencou os situados na Rua da Praia. “As margens do Rio Itiberê, com certeza, trazem em si a potência de exemplificar as construções feitas pelos grupos sociais que detinham maior poderio econômico e maior capital simbólico na política e na sociedade”, frisou Doarte.

“Por fim, cito o prédio que hoje é ocupado pelo Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e que foi, em origem, um Colégio Jesuíta. Materialmente o prédio nos dá informações valiosas da colonização com suas paredes em pedra e os arcos no térreo que se abrem para um pátio interno”, declarou Doarte.

DESAFIOS

O secretário municipal de Urbanismo, Koiti Cláudio Takiguti, lembrou que a maior parte dos imóveis históricos em Paranaguá é privada. “Existe uma fiscalização contínua pelas três esferas do Governo, município, Iphan pelo Governo Federal e secretaria de Cultura do Estado. Quando existe a necessidade de serviços de manutenção, a secretaria faz o trabalho de fiscalização, os donos dos prédios fazem os projetos de reforma e solicitam ao município e encaminhamos aos órgãos de Estado para ter uma aprovação. Os critérios maiores acontecem quando há áreas que exigem restauro, em locais tombados pelo patrimônio nacional”, disse Takiguti.


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