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Natal em janeiro

07 de fevereiro de 2019

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Era quinze de janeiro, uma terça-feira. Eu estava curtindo as férias em uma cidade qualquer. Acabara de sair de uma sessão de cinema e resolvi chamar um Uber. Acionei o aplicativo. Apareceu na tela do meu smartphone a foto de um senhor com uma enorme barba branca. A princípio, achei exótico. Fui até o ponto de partida para aguardá-lo.

O veículo estacionou. Conferi a placa e o modelo. Ok. Na hora que abri a porta não fui saudada com um cumprimento tradicional, mas sim com “Ho! Ho! Ho! Feliz Natal!”.

O motorista estava caracterizado de Papai Noel. Eu arregalei os olhos numa mistura de susto e surpresa. Enquanto ele, tranquilamente, depositava três balinhas na minha mão.

Comecei a olhar o interior do carro. Qualquer árvore de natal que se preze perderia feio no quesito decoração natalina.

Havia bolas coloridas por todos os cantos, cada encosto de cabeça tinha como adereço um gorro de Papai Noel, os bolsos traseiros dos bancos estavam recheados de sinos e miniaturas do bom velhinho e na tampa interna que impede a visão do porta-malas havia um arranjo lindo. Tudo com muito capricho e esmero.

Prestei atenção na música. Nada de Beyoncé ou Lady Gaga. Adivinha? “Jingle bells, Jingle bells, jingle all the way...”

Eu deveria ter ficado de boca fechada, mas sabe como é a curiosidade feminina. “O senhor ainda está comemorando o Natal?”. “Sim, minha filha, quando chegar no dia primeiro de janeiro eu tiro tudo”.

Glupt! Nessa hora eu tive dez tipos de medo, todos insuficientes para segurar minha língua dentro da boca. “O senhor quer dizer primeiro de fevereiro, é isso? Pois hoje é dia quinze de janeiro”. “Não, minha filha, no dia primeiro de janeiro eu tiro tudo”.

Nunca discuta com um Papai Noel. Não queira situá-lo no tempo e no espaço. Deixa quieto. Ele deve saber se seguirá comemorando o Natal o ano todo ou vai se livrar dos adereços. Ele me entregando sã e salva ao meu destino é o que importa.

Mas os meus pensamentos não sossegam, são ágeis, cutucam e me informam que ainda faltavam “elas” para completar aquele cenário todo.

Quem seriam elas, caro leitor? As renas.

Deveriam estar no porta-malas afoitas para fazer o seu número. Talvez seja na próxima parada do semáforo. Socoooooorro!

Meus olhos continuavam arregalados. Meu coração disparado. Parecia que eu havia corrido uma maratona, mas não, eu estava sentadinha no banco traseiro de um carro decorado de árvore de natal em plena metade de janeiro.

Ouvi do aplicativo: “Destino de Kátia à direita”. Aleluia!

“Pode ficar com o troco, Papai Noel, e ho, ho, ho para o senhor também”.

No dia seguinte, mais um Uber. Desta vez, o motorista com cara de poucos amigos não estava comemorando nada e veio caracterizado dele mesmo. Nada como as pessoas despidas de qualquer excentricidade para nos situar na previsibilidade dos dias.

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