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Crônicas

Kátia Muniz é formada em Letras e pós-graduada em Produção de Textos, pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá (hoje, UNESPAR). Foi colaboradora do Jornal Diário do Comércio por sete anos, com uma coluna quinzenal de crônicas do cotidiano. Nos anos de 2014, 2015 e 2016 foi premiada em concursos literários realizados na cidade de Paranaguá. Em outubro de 2018, foi homenageada pelo Rotary Club de Paranaguá Rocio pela contribuição cultural na criação de crônicas.

Não lembro

22 de agosto de 2019

Uma mulher me cumprimenta do outro lado da rua. Não faço a menor ideia de quem seja. Então, sigo à risca a proposta dos personagens da animação “Os pinguins de Madagascar”, ou seja: sorrio e aceno. Que ela leve de mim a impressão da simpatia, mas que jamais descubra que não sei até hoje quem ela é.

Meu melhor amigo tem memória de elefante. Quando nos encontramos ele começa a revirar o baú de lembranças e dispara: “Você lembra de beltrana?” Respondo: “Quem?” “Beltrana, irmã de sicrana”. Diz nome e sobrenome na esperança que meus neurônios captem a informação. Não faço ideia de como ele sabe de cor o nome completo de um monte de gente. Eu que mal lembro o que comi no almoço, faço um esforço descomunal para lembrar quem são as criaturas mencionadas por ele, em vão.

Vago pela casa atrás dos meus óculos de grau. Percorro quilômetros indo para lá e para cá. Muito mais fácil seria usar aquela cordinha pendurada no pescoço com as hastes dos óculos presos nela, mas me recuso. Então, depois de um longo tempo, consigo encontrá-los.

Abro a geladeira e fico paralisada olhando para dentro dela, enquanto me pergunto:
“O que vim buscar aqui?” Não adianta. Fecho. Dou uns três passos e...tcharam, lembrei!

Só vou ao supermercado com uma lista de compras nas mãos. Escrevo os itens num pedaço de papel qualquer porque ele será eliminado assim que a tarefa for concluída. Encontro com uma amiga e ela também está com uma lista. “Kátia, veja só nós duas, precisamos de listas para não esquecer o que viemos comprar. A memória já não é a mesma”. E ela gargalhou da situação, enquanto eu detectava que cada palavra mencionada por ela era a mais pura realidade. Ainda completou: “O problema está em quando esquecemos de colocar na lista o que precisamos comprar”. E agora a gargalhada foi maior que a primeira.

Sempre admirei essas pessoas que conseguem fazer piada das mazelas da vida. Eu estava quase chorando diante do meu diagnóstico de amnésia profunda. Quando cheguei em casa e fui guardar as compras, adivinha, caro leitor, se a previsão da minha amiga não se confirmou. Havia esquecido de anotar tantas coisas que já tinha outra lista bem preenchida. Agora entendo perfeitamente porque durmo em casa e moro no supermercado.

E, uma vez lá morando, tenho muitas histórias para contar. Confesso: fiz doutorado em perder o carrinho de supermercado. Estaciono em algum lugar e vou escolher frutas e verduras. Quando as mãos estão abarrotadas, cadê o carrinho? Onde raios deixei o dito cujo? Não lembro. Sigo feito uma barata tonta entre melões, tomates e batatas na esperança de encontrá-lo no meio de tantos iguais. Oh, céus!

Você deve estar rindo que eu sei. Mas confesse que, dentre tantos exemplos, em algum se identificou. Não é motivo para desespero. Isso não é amnésia coisa nenhuma é só nosso cérebro com a capacidade de lotação esgotada.

Por Katia Muniz

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