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Crônicas

Kátia Muniz é formada em Letras e pós-graduada em Produção de Textos, pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá (hoje, UNESPAR). Foi colaboradora do Jornal Diário do Comércio por sete anos, com uma coluna quinzenal de crônicas do cotidiano. Nos anos de 2014, 2015 e 2016 foi premiada em concursos literários realizados na cidade de Paranaguá. Em outubro de 2018, foi homenageada pelo Rotary Club de Paranaguá Rocio pela contribuição cultural na criação de crônicas.

Gente difícil

18 de abril de 2019

Há alguns dias, comprei um desses alimentos embalados a vácuo, cuja pontinha da embalagem possui uma seta indicativa dizendo “abre fácil”.

Com unhas afiadas, dediquei-me a essa tarefa. Mas o tal “abre fácil” consumiu alguns minutos do meu tempo em que não economizei nas tentativas. Revirei a embalagem, usei o polegar e o indicativo da mão direita, depois o da mão esquerda, respirei fundo, contei até dez e, por fim, peguei uma tesoura e a estraçalhei.

Como não resisto a uma comparação, lá vou eu para a minha “filosofice”.

Tem gente que também não “abre fácil”. É propaganda enganosa. A embalagem esconde o conteúdo. Não adianta forçar, não adianta revirar, propor outras tentativas, outros meios, outras formas.

Tem gente que é difícil. Não sabe facilitar a vida. Não se entrega, não se dispõe. Fecha-se, lacra-se, esconde-se.

Coloca no status do WhatsApp a palavra “disponível”, mas nunca está. Experimente ligar para essa pessoa. Você tentará uma, duas, três, cinco vezes. Só ouvirá um “alô” do outro lado da linha se a criatura difícil se dispuser a sair da própria armadura e mostrar-se interessada ao que o telefonema possa render. Caso contrário, escutará: "Deixe o seu recado após o sinal”.

Gente difícil não coopera, faz questão de ser do contra ou de ficar em cima do muro, não se envolve, não está nem aí. Não percebe que chama a atenção da pior forma, do jeito mais insignificante.

Os difíceis trazem com eles um cardápio de desculpas, são incapazes de enxergar os próprios erros e se colocam na posição de vítimas com a maior facilidade. Batem no peito e o estufam para dizer: “Sou uma pessoa difícil”.

Para decifrá-los é preciso ter bola de cristal. É preciso jogar as cartas. O que passa na cabecinha dessa gente difícil?

“Sou uma pessoa difícil”. Dou meia-volta volver e vou procurar a minha turma: os fáceis.

Os fáceis não estão embalados a vácuo. Sabem que a vida não deve ser desperdiçada com infantilidades e com dramas baratos. São pessoas que, sem ter medo de se colocarem frágeis, mostram os sentimentos. São pessoas inteiras, intensas. Dizem a que vieram.

Gente que não procura fazer dos dias um tormento e tem a capacidade de relativizar os dissabores.

Gente que responde às mensagens, dá retorno, comparece aos compromissos e atende ao telefone.

Que venham os divertidos, os que descomplicam, os que não exigem de nós doses cavalares de paciência, os que são fáceis por natureza e que batem na mesma sintonia!

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