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Coisas Nossas

Relembrando Roberto Estrela

Roberto Estrela foi ousado para seu tempo, marcando a história do carnaval de rua de Paranaguá

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Em janeiro, completaram-se 6 anos de falecimento do Roberto Estrela, um dos grandes nomes do Carnaval de rua de Paranaguá dos anos 70 e 80. João Roberto Garcia, foi entrevistado em 2008 pela Folha do Litoral News e contou sobre sua vida, destacando os fatos principais.

Com a mesma alegria de antigos carnavais, na pracinha do asilo, ele abriu as páginas do passado. Recordou com muita lucidez as principais fases de sua vida, destacando que somente aos 62 anos (em 2008), pôde conquistar a dignidade que todo ser humano merece. Fez história e foi sinônimo de ousadia em uma época de repressão.

 

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(Reportagem publicada em 08/2008 na Folha do Litoral, Paranaguá)
 
Um das figuras mais populares de Paranaguá abre as páginas do passado e conta um pouco da sua vida
 
Com sorrisos e muita alegria de viver, João Roberto Garcia Estrela, recebeu a reportagem da Folha do Litoral, no Asilo São Vicente de Paula, local onde mora há três anos. Robertinho Estrela, como é conhecido, traz no rosto as marcas de um passado que ele não esconde.
Com a mesma alegria de antigos carnavais, na pracinha do asilo, em meio a muito verde numa tarde de sol, ele abriu as páginas do passado. Recordou com muita lucidez as principais fases de sua vida, destacando que somente agora, aos 62 anos, pode conquistar a dignidade que todo ser humano merece.
 
Ele nasceu no centro de Paranaguá, bem próximo do antigo Cine Santa Helena. Penúltimo filho de uma família de sete irmãos, nunca freqüentou a escola porque na infância passou a viver na rua. “Meus pais nunca me aceitaram e com sete anos fui expulso de casa, e na rua aprendi a ler e me defender”, contou.
Roberto cresceu assim, amadureceu cedo, trabalhou em vários lugares, mas sempre acabou voltando para as ruas. “As pessoas sempre achavam que eu era feliz, mas era uma alegria falsa porque eu bebia. Fui alcoólatra porque nunca tive ajuda de ninguém, carinho e família”.
 
Um golpe quase fatal
Roberto escapou da morte inúmeras vezes, driblou os desafios e sempre buscou uma força interior que ele desconhecia possuir. Entre estes episódios ele relembrou um fato que aconteceu em 1970.
“Eu estava numa boate no Parque São João. Era final de ano e resolvi trocar de roupa com um amigo e fomos para um baile. Só que eu acabei colocando uma roupa de uma pessoa que não sabia que estava sendo procurada. Cheguei num baile, parei no balcão e ouvi aquela voz dizendo ‘isso é pra você Cezinha’, e levei uma navalhada no pescoço e quando acordei estava no hospital”.
O golpe que poderia ser fatal hoje ainda permanece marcado em seu corpo. Um cicatriz no pescoço que resultou em 45 pontos. “Depois eu fui saber que foi um golpe dado por uma mulher que acabou morrendo atropelada alguns dias depois”, disse ele apontando para céu, indicando que a justiça é divina.
 
Os amores
Quando o assunto é amor, ele também não esconde e logo solta uma gargalhada faceira. Afinal, quem nunca se apaixonou? Roberto confessou que viveu dois amores em toda sua vida. A primeira paixão foi na adolescência. “Era um amigo, mas era um amor de verdade e o namoro acontecia dentro da casa dele. Depois ele deixou Paranaguá para estudar e nunca mais voltou”.
Mais tarde, Roberto se apaixonou de volta. Desta vez a coisa foi mais série porque dividiram o mesmo teto por alguns anos, mas como sempre, sua vida seguia para um rumo triste. “Ele caiu do prédio. Isso já faz 18 anos. Na época todo mundo aqui na cidade comentou porque nunca ninguém soube se ele se jogou, caiu ou empurraram. Fiquei muito triste e jurei nunca mais me apaixonar”.     
 
Antigos carnavais
Sempre embalado pela boemia, o carnaval foi sua grande paixão, o que o tornou conhecido em toda cidade. Começou desfilando no Império do Samba, depois passou pelo Acadêmicos, Junqueira e inúmeras escolas de samba. “Eu adorava o carnaval. Era minha vida. Minhas fantasias eram feitas pelo meu irmão Aroldo que era costureiro e todos os anos eu brilhava nos desfiles”.
Ele relembra com saudades do carnavalesco Ailson Santos que ainda marca presença nos desfiles. “Nós saíamos sempre juntos, tenho boas lembranças daqueles tempos”.   
Em meio a tantos aplausos e conquistas no mundo de ilusões dos carnavais, ele não esquece quando foi coroado como ‘rainha’ de blocos carnavalescos nos 60 e 70, num tempo onde o preconceito prevalecia, ele sempre seguia sua vontade. Porém, sua estrela aos poucos foi perdendo a intensidade e com isso levantou a bandeira branca, ou seja, rendeu-se a dura realidade: provou a o gosto amargo da sarjeta. 
 
Enfim, a dignidade
“A idade avança, a gente cansa. Nos anos 90 passei a pedir comida para sobreviver. Apanhei muito na rua”. Roberto perdeu o gosto pelas festas e pela vida, mas como ele mesmo fez questão de destacar, jamais pensou em suicídio. “A vida é um bem sagrado que não podemos tirar”.
 
Mas como sempre existem anjos humanos cruzando a vida daqueles necessitam, Roberto deixou ser ajudado. Isto não faz muito tempo. Foi em 2005 quando foi levado por uma voluntária até o asilo.     
Hoje ele tem seu quarto, logo na entrada um quadro com fotos de rosas estampam a frase: ‘Boas Vindas’. O quadro fica em meio a vários bonequinhos de pano que ele mostra com orgulho. “Eu mesmo que fiz. Aqui temos aulas de artesanato”.
 
 Na realidade, é mais que um quarto, é um cantinho aconchegante que só agora ele tem o prazer de desfrutar em mais de meio século de vida. No espaço ele divide com bichinhos de pelúcias, retratos de artistas e imagens de Nossa Senhora e de Jesus, os quais ele não cansa de agradecer diariamente.
Três vezes por semana Roberto faz hemodiálise. São sessões que ele se submete com a mesma garra que sempre teve para enfrentar as dificuldades da vida, sem jamais reclamar. “Hoje sou feliz, porque tenho amigos e carinho”.
No asilo, além de morador Roberto também é voluntário, gosta de levar os idosos até a pracinha para tomar sol e dar a mesma atenção que sempre lhe faltou. “Minha vida está boa, tenho pessoas que me amam”.
Quando o assunto é carnaval. Ele se mostra indiferente. “Não sinto mais vontade. Ainda me convidam, mas isso é coisa do passado. Já festei demais, agora chega”, finalizou ele enquanto uma voluntária do Asilo anunciava que são 15h30: a hora do café.
“Aqui é bom por isso, temos hora pra tudo. Agora estou vivendo!”
 
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