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Socorrista que já atuou no litoral foi voluntário na tragédia em Brumadinho

09 de fevereiro de 2019

“A impressão que tive ao chegar ao local é impactante, é triste, porque a devastação é imensa e a TV não mostra tudo o que está acontecendo”, contou Aurélio Coutinho

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O socorrista Aurélio Coutinho estabeleceu que a sua missão na vida é ajudar o próximo. O profissional morou em Matinhos, no litoral paranaense, atuou na área de enfermagem como resgatista por muitos anos na BR-277 caminho das praias e foi técnico em enfermagem no Samu litoral. Porém, o destino lhe reservou um novo desafio, o de ser voluntário nas buscas da tragédia em Brumadinho (MG), após o rompimento da barragem que ocasionou a morte de 157 pessoas.

Assim que a tragédia aconteceu, no dia 25 de janeiro, o socorrista já percebeu que deveria cumprir o papel de salvar vidas e prestar o seu serviço em prol da comunidade em Minas Gerais, que ficou devastada.

“No dia que aconteceu a catástrofe eu já me mobilizei e tentei uma oportunidade para poder chegar a Minas Gerais, que é longe e tem toda uma logística, todo um trâmite para chegar. Os comandantes da tropa de voluntários estavam no local, pediram que se apresentassem apenas o voluntariado profissional na área do resgate, saúde e pronto socorro”, contou Aurélio.

EXPERIÊNCIA

A chegada foi no dia 1.º de fevereiro, quando ele se encontrou com o capitão e contou sobre suas aptidões que poderiam auxiliar no trabalho. “Ele me alocou diretamente nas operações de busca terrestre, direto no local do incidente. Como a possibilidade de obtenção de novos corpos já diminuiu sensivelmente, foi dado por encerrado o trabalho dos voluntários. Eles serão empregados agora somente nas ações da Defesa Civil. Como acabou a busca e eu moro muito longe, resolvi voltar para a nossa terra”, relatou Aurélio, que é natural de Curitiba e reside em Ponta Grossa.

CENAS CHOCANTES

Ao chegar em Brumadinho, o voluntário se deparou com a triste realidade que assombrou a região e deixou várias casas embaixo da lama e diversas pessoas desaparecidas.

“A impressão que tive ao chegar ao local é impactante, é triste, porque a devastação é imensa e a TV não mostra tudo o que está acontecendo, não podemos mensurar a tragédia por aquilo que vemos na televisão”, observou Aurélio.

No entanto, as piores cenas foram marcadas pelo encontro dos corpos. “As cenas mais impactantes são quando encontramos os corpos, a desolação que se encontra no local do acidente, as residências abandonadas, encontramos brinquedos, pertences e até uma carta escrita à mão de uma mãe a uma filha de anos atrás, mas que provavelmente era guardada e tinha um valor sentimental para a família. Só que esta família ainda não foi encontrada. Outra cena que pude registrar em uma foto foi encontrar desenhos feitos por crianças, lençóis com personagens no local e isso é muito triste de ver. Neste caso, a gente sabe que as crianças não foram encontradas, assim como ninguém da família”, disse Aurélio.

MOTIVAÇÃO

“O que me motiva sempre é a questão de poder ajudar o próximo, o amor ao próximo e a capacidade que eu sei que tenho para este tipo de ajuda. A pessoa tem que ser especializada para prestar ajuda com conhecimento do que está fazendo, do contrário ela acaba se tornando mais uma vítima e acarretando mais problemas”, destacou Aurélio.

LAMA TÓXICA

Segundo Aurélio, todo o rejeito que desceu com o barro resultou em uma lama extremamente tóxica e com o passar dos dias ela fica mais tóxica pela decomposição dos corpos. “Aumenta o risco biológico, começa a desenvolver um chorume dos corpos tanto humanos quanto animais que ficaram no meio da lama. É feito um processo de descontaminação muito eficiente a cada chegada das equipes que entram em campo por volta das 6h30 e retornam às 17h. Existem ferimentos que acabamos agregando durante as buscas, são cortes, furos por espinho, então acaba aumentando e muito o risco de contaminação, tanto de leptospirose, quanto de hepatite A, tem casos de febre amarela também no local, mas é um risco que temos que correr e aceitar pelo bem do próximo. Nem pensamos nisso na hora, é necessário que tenha alguém que faça isso e fazemos de bom coração para desempenhar um trabalho com sucesso. Vítimas com vida já não é possível encontrar, mas pelo menos as vítimas que são resgatadas e devolvidas às famílias são como um alento e um conforto ao coração para que possam dar um enterro digno para essas pessoas”, relatou.

ATUAÇÃO DO CORPO DE BOMBEIROS

A atuação do Corpo de Bombeiros, com o empenho imenso dos soldados e grupamentos e dos voluntários, tanto atuando em conjunto nas operações de resgate, como na logística, alimentação e alojamento, são fundamentais.

“Quero destacar também o grupamento de Manaus que estava incluso, o Grupo Suçuarana, que tem unidades em São Paulo e em Manaus, especializado em resgate em selva, são excelentes como pessoas e como profissionais, a maioria são coordenados por ex-militares e foram primordiais no que diz respeito ao comando e orientação”, lembrou Aurélio.

TRABALHO VOLUNTÁRIO

De acordo com o socorrista, o trabalho voluntário é algo extremamente gratificante. “Todos que simpatizam e tem vontade de desenvolver algo assim, primeiro se capacitem, depois desenvolvam um trabalho com zelo e responsabilidade. Espero que, assim como eu, tenham muitos que possam ir para somar”, concluiu o voluntário.
 

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