Fora dos clubes

5 de fevereiro de 2020

Como estamos vendo, o futebol formal surgiu e se desenvolveu em Paranaguá durante o projeto modernizador das elites política e econômica da cidade. A idealização do esporte buscava a formação de bons cidadãos através das regras e de uma moral bem específica. Dentro dos clubes, era relativamente fácil manter jogadores e torcedores sob controle. O perigo maior vinha do futebol informal.

Assim como o esporte oficial, o futebol paralelo também apareceu e cresceu no Campo Grande. Todavia, diferente do tratamento carinhoso da mídia local ao esporte, a prática informal foi duramente criticada pelos formadores de opinião. Se na idealização do futebol – como prática condicionante de valores elevados – encontramos os objetivos do projeto modernizador (ou seja, fomentar o trabalho em equipe, o respeito ao próximo, a amizade, a honra e a saúde, entre outros), nas críticas ao jogo fora dos clubes visualizamos tudo o que era abominável pela mesma ideologia modernizadora.

Em meados de 1914, o jornal local alertou sobre os grupos de jovens que jogavam futebol o dia todo na Praça Pires Pardinho. Com um tom bastante crítico sobre o excesso, o artigo afirmava que desde a introdução do futebol na vida esportiva da cidade, não se falava em mais nada além da criação de novas equipes. Mesmo reconhecendo o valor físico da prática, denunciava que quando em excesso atrapalhava o desenvolvimento pessoal e principalmente o desenvolvimento intelectual:

“Desde as primeiras horas do dia, até se não mais enchergar a pelota, a praça <<Pires Pardinho>>, se mantem cheia de meninos e moços, que muito bem podiam ocupar-se em outras coisas uteis, como, por exemplo, no estudo, ou no trabalho e deixar o Sport para as horas de recreio. D’ahi resulta [...] a decadência da vontade de saber”.

Por Alexandre Camargo de Sant’Ana