Bola na Rua

12 de fevereiro de 2020

Jogar futebol o dia todo na praça era algo inadmissível dentro do discurso dominante em Paranaguá na segunda década do século XX. Afinal, quem jogava bola desde cedo até a noite cair, estava mergulhado na vagabundagem, ou seja, desviava totalmente do ideal de cidadão defendido pelos formadores de opinião. Os indivíduos deviam seguir o modelo imposto pela ideologia das elites da cidade, que copiavam a moral burguesa surgida na Europa, na qual o trabalho e a obediência às normas eram obrigatórios. Nenhum tipo de desvio era aceito e os casos recorrentes eram tratados pela polícia. Além disso, o Estado também cobrava a participação da família no condicionamento das crianças, pois era no seio familiar que os filhos aprendiam as primeiras normas sociais – os pais tinham a obrigação de manter a prole dentro do modelo idealizado.

Quanto ao futebol informal, encontramos o mesmo “modus operandi”: os formadores de opinião não apenas criticavam a prática fora dos clubes (evidenciando todo o mal que o bate-bola podia causar), mas também cobravam uma atitude dos pais. Para piorar, as brincadeiras das crianças não se limitaram ao Campo Grande e o problema tornou-se maior quando o futebol invadiu as ruas. Em julho de 1915, o “Diario do Commercio” lançou um artigo crítico intitulado: “As ruas transformadas em ground de foot-ball as janellas em goal”. No mês seguinte, o jornal “O Sport” reforçou a crítica, avisando que pais deveriam proibir seus filhos de se entregarem ao bate-bola nas vias públicas, pois além do prejuízo causado aos proprietários com a quebra das janelas, também causava prejuízo moral às crianças. Era função dos pais obrigarem seus filhos a estudarem e cumprirem seus deveres, deixando o futebol para as horas vagas e os locais determinados.

Por Alexandre Camargo de Sant’Ana