Logotipo

A arte que ressalta a paixão pelo fandango

29 de julho de 2017

Após 50 anos, Mestre Zeca ganha o devido reconhecimento

Compartilhe

Ele toca, canta, bate o tamanco e ainda confecciona os instrumentos musicais como viola e rabeca. Esses atributos lhe garantem o status de mestre, o maior posto dentro da cultura do fandango. Este é um relato sobre José Martins Filho, ou, simplesmente, o Zeca da Rabeca, como é conhecido.

Homem dotado de grande conhecimento da cultura caiçara, seu Zeca começou cedo no fandango. Natural de Guaraqueçaba, veio morar na Ilha dos Valadares em 1963 juntamente com a família, e foi naquele tempo, aos 12 anos de idade, que se envolveu com o fandango.

“Quando cheguei aqui havia muitos violeiros, muito mais que hoje. Parecia que todos os homens tocavam viola e dançavam fandango. Desde cedo aprendi a dançar fandango e, mais tarde vendo meu pai construir viola, eu aprendi a fazer os instrumentos”, recorda. 

Zeca é filho de carpinteiro, profissão que desenvolveu observando o pai. “Antigamente tudo era de madeira e eu ficava olhando ele trabalhar e aprendi. Ele fazia barcos e violas e assim comecei. A gente fazia com madeira do mato, a madeira branca. Era muito usada a caroba porque era mais forte. A gente usava no arco o fio de cipó e no instrumento, mas os fios sempre arrebentavam depois de três horas de baile”, conta.

SAUDADES

Outra curiosidade que ele recorda, com saudades, são os bailes de antigamente. Seu Zeca lembra que o baile era em forma de mutirão em que todos participavam. O maior baile era no Rio dos Patos, perto de Cananeia. “Não era como hoje em forma de festa, era uma coisa normal para descansar no fim de semana. Uns dançavam e outros tocavam. A juventude toda participava. Tinha que trabalhar para entrar no baile que não tinha luz elétrica, era a querosene”, conta.

Comparando com os dias atuais, ele demonstra um pouco de preocupação. Isso porque existem atualmente apenas três pessoas que sabem tocar rabeca corretamente e estão dispostas a animar os bailes. Incentivo para isso é o que não falta, pois sempre estão surgindo oficinas para confecção de instrumentos. Seu Zeca alega que a falta de novos músicos é o desinteresse dos mais jovens em relação à cultura caiçara. 

PARA AS FUTURAS GERAÇÕES

Hoje, ele ministra aulas pela prefeitura na Casa Cecy e no Mercado de Artesanato e conta que é fácil aprender, mas é preciso que haja vontade e, principalmente, amor ao fandango. “O mais difícil é tocar no baile porque cada violeiro toca de um tipo diferente e o rabequeiro precisa saber acompanhar todos, pois é o som que mais aparece na hora do baile. Estamos dando aula de rabeca pensando no futuro, porque precisamos garantir o fandango para os próximos anos”, explica.

A trajetória de vida do seu Zeca da Rabeca é marcada pelo fandango. Antigamente era uma ocupação de lazer aos fins de semana, cinquenta anos se passaram e o reconhecimento chegou de forma espontânea, coroando alguém que sempre atuou no fandango por amor, sem jamais pensar em abandonar.   Hoje ele é o Mestre Zeca, respeitado no cenário cultural. A valorização em torno do fandango mudou também a sua vida. 

 


“Dou aula de rabeca pensando no futuro, porque precisamos garantir o fandango para os próximos anos”, diz o mestre Zeca da Rabeca

 

“Eu sempre fui carpinteiro e pedreiro. De uns tempos para cá  estou vivendo somente de fandango, graças a Deus. Eu toco nos bailes, dou aula de rabeca e ensino a fazer o instrumento. Faço cerca de cinco rabecas por mês e muitas pessoas me procuram  para fazer encomendas. Tenho um amor muito grande pelo fandango por isso hoje eu sou feliz”, finaliza.

Em 2013, Zeca da Rabeca foi premiado pelo Ministério da Cultura/Edital das Culturas Populares prêmio Mazzaropi, pelos trabalhos de salvaguarda e de repasse das manifestações tradicionais.  Hoje, com o reconhecimento, ele não precisa mais trabalhar como pedreiro, pois vive do fandango.

 

CONHEÇA O FANDANGO

O Fandango do litoral paranaense é uma das manifestações folclóricas mais antigas do Brasil. Tem sua origem na Espanha e chegou ao litoral com os primeiros casais de colonos açorianos por volta de 1750. Com muita influência espanhola, passou a ser batido principalmente durante o entrudo (antiga celebração do que hoje se conhece como Carnaval). Em quatro dias, a população não fazia outra coisa senão bater o fandango e comer barreado.

De origem espanhola (e também com influências portuguesas), o Fandango é uma dança trazida pelos imigrantes que no passado se espalharam pelo litoral. Para recordar a pátria distante e matar as saudades, eles dançavam em grandes mutirões festivos.
E assim, em uma fusão de cultura, surgiu o fandango, que ganhou os compassos dos índios e dos caiçaras, fazendo nascer uma manifestação folclórica diferente incluindo ainda instrumentos como a rabeca, o adufo e a viola.
O fandango foi resgatado e favoreceu o surgimento de outros grupos e mestres, que também estavam adormecidos. Todos foram contagiados pela efervescência cultural que está presente até os dias de hoje. Atualmente, o fandango faz parte da realidade cultural de Paranaguá.

 

 


Colunistas